Alain Delon queria morrer

O sol por testemunha (1960) (Divulgação)
Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
O ator Alain Delon, estrela de filmes como  O Leopardo, partiu desta para melhor no último domingo, aos 88 anos. Em breve comunicado, os seus filhos disseram que ele “morreu em paz”.
A causa da morte não foi divulgada. Eu lembro, no entanto, da grande comoção pública ante a notícia de que Alain Delon, o homem mais bonito do mundo,estava pronto para morrer. Aos 86 anos, Alain Delon incumbiu um filho de todas as providências relacionadas à burocracia e cerimônias do adeus.
“Envelhecer é uma merda!”, Alain Delon argumentava. Referia-se, naturalmente, à própria ruína. Sem força nos músculos, o ator pretendia entregar os pontos em hora marcada, um voluntário no cadafalso, queria sair de cena com a cabeça erguida, reivindicava direitos sobre o seu último gesto, recusava-se a fechar os olhos tomado de pavor.
Que assim seja, pensei comigo, então, sem o escândalo de um tiro na testa, como o disparado por Hemingway. A Suíça, onde o ator residia, não se interessa por controvérsias de foro íntimo. Os dólares, miolos, as tripas, preferências e convicções de cada cidadão dizem respeito apenas a eles próprios. Assim é em parte do mundo, onde a conveniência dos endinheirados faz jus ao status de verdadeiro Paraíso – e não somente reles paraíso fiscal.
O sol por testemunha, lúcido, Alain Delon jurava de pés juntos: Estava pronto para partir. Eu o vejo em seus melhores anos, na pele do talentoso Ripley, muito antes de Matt Damon, pleno, satisfeito com a alegria breve da juventude. Lembro também do amigo Amaral Cavalcante durante o lançamento de suas crônicas, o poeta já em cadeira de rodas. Não foi a festa merecida, regada aos melhores vinhos, o tributo devido a sua inteligência feroz. Comparo um e outro, concluo que Alain Delon tinha as suas razões, todas alheias a eventuais julgamentos sobre renúncia tão radical.
Assim, embarcaria sem sustos, o ator Alain Delon. Deixaria amigos, entes queridos, amantes, traições, algum rancor, talvez. Iria embora, senhor de sua vontade, como quem abre uma porta ao fim de uma festa e deixa a vida inteira para trás.
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