As mulheres na política: senadora, deputadas federais e estaduais e vereadoras por Aracaju (II)

* Afonso Nascimento

 

Em relação às vereadoras por Aracaju, é muito menor o peso dos laços familiares. Maria Madalena Carvalho de Góis teve dez anos de mandatos. Ela é esposa do falecido José Batalha de Góis, vereador por diversos mandatos e deputado federal por curto período. Essa vereadora é mulher, mãe e avó de políticos, mais precisamente, “Batalhinha”, Armando Batalha, Elber Batalha e Elber Batalha Neto. Maria Ester Almeida Pires entrou na política pela mão de seu cunhado e prefeito de Aracaju José Conrado de Araújo. Cito ainda Maria Arlete Barreto que foi esposa do vereador e deputado estadual Carlito Melo.
As vereadoras com origens nas classes trabalhadoras ou populares são Ângela Melo, Rosângela Santana, Sônia Meire e Nazaré Carvalho. A relação entre mulheres brancas e não-brancas é diferente entre as vereadoras de Aracaju. Pelas fotos disponíveis no livro, pode-se perceber que, embora as mulheres brancas sejam maioria, essa diferença não é tão grande. Contudo, um dado não muda: os partidos de direita também são maioria entre as mulheres na Câmara de Vereadores de Aracaju.
Agora a informação que mais me chamou a atenção foi aquela constante da referida listagem do TRE-SE anexada ao livro sobre as vereadoras dos 75 municípios. Por essa lista, pode-se constatar que Sergipe, até agora, teve 1.257 vereadoras, um número que é certamente alto. Mesmo cidades dos grotões sergipanos elegeram diversas mulheres para a vereança. Não posso deixar de dizer que essa grande quantidade de vereadoras não é coisa nova. Isso pode ser percebido já nos anos 50, portanto bem antes das cotas partidárias atuais. Infelizmente, a lista é muito grande para ser aqui examinada.
À guisa de considerações finais, quero dizer que a política sergipana já foi um clube masculino fechado em que as mulheres não podiam entrar, mesmo não havendo barreiras legais a partir de 1934. Vista na sua totalidade, a classe política feminina me pareceu muito homogênea. De fato, as mulheres bem-sucedidas na política sergipana compartilham muitos traços (a importância da família política, cor, origem social, etc.), sendo em Aracaju onde diferenças podem ser mais observadas. As mulheres parlamentares parecem pertencer a dois grupos, nomeadamente, as bem comportadas (as “burguesas”) e aquelas à esquerda cujo discurso acompanha seu engajamento nas lutas femininas e de outras minorias sociais.
Para pôr um ponto final nestes comentários, considero que a sub-representação política das mulheres sergipanas (que é outro modo de chamar a dominação masculina) só será sacudida, dentro e fora das prefeituras e dos parlamentos, quando certas práticas políticas forem combatidas. Aqui estou pensando que, sem um basta na intimidação das mulheres políticas (veja o caso da ministra Marina Silva, em 27.5.2025), sem a aplicação das leis já existentes que beneficiam as mulheres, sem o aumento da escolaridade das mulheres de baixa renda, sem o ingresso de mais mulheres no mercado de trabalho, sem o financiamento público de campanhas femininas, sem algum controle das estruturas partidárias dominadas por homens e sem enfrentar a cultura religiosa opressiva veiculada pelas igrejas evangélica e católica em Sergipe, os avanços das mulheres na política serão muito lentos e graduais.
Por último, quero dizer que, somente com as informações disponíveis no livro e por mim comentadas, é possível ter uma ideia de quem são as mulheres na política sergipana, mas não sobre qual o impacto que essas mulheres vitoriosas têm produzido na política sergipana até hoje. Isso fica para outro trabalho.

 

* Afonso Nascimento, professor de Direito da UFS

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