* Carlos Morais Vila-Nova
O olhar para as fotos publicadas nos tempos atuais, com impressionante colorido e beleza, desperta a atenção e de forma comparativa traz lembranças dos retratos em preto e branco, feitos pelo profissional chamado de retratista ao invés de fotógrafo, nos anos de 1970.
Os fotógrafos dessa época tinham o importante ofício de retratar as imagens das pessoas de forma isolada ou em encontros, reproduzindo eventos familiares, as cerimônias religiosas, acontecimentos históricos, festas, registros diversos e cenas de livre-arbítrio do retratista.
Eles não eram retratistas por completo, mas essa denominação do ofício vem desde épocas longínquas, anteriores às máquinas fotográficas, cujas reproduções eram feitas pelas mãos de pintores e escultores, que tinham como encargo, além de retratar imagens, exteriorizar também as emoções, personalidades e sentimentos das pessoas.
Deveras um trabalho meticuloso, observando aquele ser ou seres com uma atenção mais acurada, na tentativa de decifrar e reproduzir nas imagens, os sentimentos e personalidades. Os retratistas continuam a existir, mas as fotos instantâneas e fáceis os deixaram para trás, trazendo o lado avesso da menor atenção à pessoa clicada, contrariando o modus operandi deles, que diante da superficialidade buscam expressar a essência humana na reprodução das imagens.
De lá pra cá, chegando a tempos mais recentes até o atual, deparamo-nos com uma grande frequência de fotos e vídeos alterados, manipulados, que constituem as famosas fake news, publicadas falsamente em larga escala. Uma parte delas montadas de forma aberrante em tom de brincadeira, logo descredenciadas; mas, outras mais sérias, que deixam dúvidas e confundem, trazendo reflexos negativos aos posicionamentos e decisões de numerosos internautas.
Embora existam conteúdos que primam pela verdade, com matérias edificantes e de boas alusões lúdica e humorística; é inconteste que há uma faceta significativa de inverdades nas publicações das redes, que vem crescendo com a inteligência artificial. Sistema recente de computação muito potente, criado como fonte avançada de infinitas pesquisas e respostas, execuções de trabalhos com precisão e até desenvolvimento de lógicas racionais, copiando os humanos. .
Essa inteligência artificial também ampliou o lado nebuloso de manipular, alterar e de reproduzir vozes e pronunciamentos falsos. Nesse ambiente, o pensador de senso crítico pouca credibilidade dá a muito conteúdo publicado, até como defesa pela falta de conhecimento técnico para identificar o que há de falsidade ou de verdade.
Passadas décadas e anos da época em que estavam em evidência aqueles fotógrafos e retratistas, os avanços tecnológicos chegaram gigantes, revolucionaram e trouxeram enormes benefícios operacionais em diversos segmentos. Porém, apesar dos avanços trouxe redução no campo humanístico.
Já há algum tempo, vem inovando com a obrigatoriedade da resposta à ousada pergunta do “sou humano”, que aparece nos acesso aos aplicativos e plataformas. As rolagens de telas como hábito predominante diminui a capacidade humana de pensar e de desenvolver senso crítico para as diversas situações. Nos tempos em que havia mais pausa e reflexão, talvez fosse possível fazer uma segunda indagação em contrapartida: – quem poderia ser, senão um humano?
Assim, deparamo-nos com potentes sistemas imperantes, que são geridos por seres humanos, que de certa forma tem algo a ver com aquele olhar do retratista, maximizando o ser e ao mesmo tempo, tentando decifrar sua emoção, dor e necessidades.
Mas certamente, pouca evolução humanística ocorreu desde os retratistas das fotos em preto e branco. O mundo continua, ainda, muito desigual, com privilégios desmedidos e concentração de renda absurda pra poucos, enquanto há carências mais elementares pra muitos. Nessa seara, mencionando a ciência social do direito, a imputabilidade continuará sendo humana pelos malefícios causados; e ainda, mesmo com a evolução tecnológica, é impossível responsabilizar robôs ou computadores.
Mesmo assim, avanços são usados como prova de poder de poucos; só que os potentes computadores deixam evidente, como um filme em tempo real, o retrato de um mundo cruel, pelas desastrosas guerras, que destroem países e dizimam milhões de pessoas, com a frieza e precisão de um robô.
* Carlos Morais Vila-Nova, bancário aposentado, advogado de Estância

