“Gás do Povo” é o aplicativo mais baixado no Brasil

* Gregório José

Há algo de profundamente revelador naquilo que escolhemos baixar no celular. Não se trata apenas de tecnologia, mas de uma espécie de confissão silenciosa, quase íntima, sobre o que nos falta. Ou melhor, sobre o que nos aperta.
Durante anos, fomos seduzidos pela promessa do entretenimento infinito. Vídeos curtos que roubam minutos e devolvem risos. Inteligências artificiais que respondem perguntas antes mesmo de sabermos formulá-las direito. Jogos que nos dão vitórias rápidas quando a vida real insiste em empatar. Tudo muito eficiente, muito colorido, muito dispensável, se formos honestos por um instante.
E então surge o dado incômodo, quase constrangedor em sua simplicidade. O aplicativo mais baixado no Brasil não foi o que diverte, nem o que conecta, nem o que impressiona com respostas inteligentes. Foi o que ajuda a colocar gás dentro de casa. Literalmente.
O tal Gás do Povo, com seus milhões de downloads, não disputa atenção. Ele disputa necessidade. Não oferece distração. Oferece sobrevivência com um certo ar de dignidade parcelada. Enquanto isso, inteligências artificiais sofisticadas, que escrevem textos elegantes e explicam o universo em segundos, observam do segundo lugar, talvez refletindo em silêncio sobre o fato de que nenhuma resposta resolve a fome.
ChatGPT com milhões de downloads, TikTok logo atrás com suas dancinhas e distrações infinitas. WhatsApp que já reinventou a forma de comunicação no país. E ainda assim, nada disso ocupa o primeiro lugar. Não é a conversa, não é o vídeo curto, não é a inteligência artificial que lidera. É o gás. O povo quer, antes de qualquer coisa, ter como fazer a comida. Esse dado, por si só, diz mais sobre o Brasil do que qualquer relatório econômico.
E enquanto isso, surgem novos personagens nesse teatro digital. Dola aparece como mais uma assistente virtual com inteligência artificial generativa, criada pela mesma empresa que domina o entretenimento com vídeos curtos. A ByteDance, aliás, se multiplica no ranking como quem entende perfeitamente onde está a atenção das pessoas. Já no campo da mobilidade, a 99 vai avançando terreno e deixando para trás concorrentes que, em tese, prezavam mais por critérios de segurança. Um movimento curioso, quase silencioso, que troca rigor por conveniência, mas essa é uma conversa que ainda vai render outros capítulos.
As redes sociais continuam ali, firmes, oferecendo coreografias, filtros e opiniões inflamadas. O jogo também aparece, cumprindo seu papel de anestesia leve. O banco facilita pagamentos que às vezes não cabem no saldo. O aplicativo de transporte encurta distâncias que nem sempre deveriam ser percorridas. Tudo funciona, tudo gira, tudo entretém. Mas nada aquece uma panela vazia.
Há, nesse ranking, uma ironia que beira o constrangimento. O país que discute inovação, inteligência artificial e o futuro do trabalho revela, com um simples clique, que ainda negocia com o básico. E não é uma negociação teórica. É prática, diária e urgente.
Talvez o mais intrigante não seja o sucesso do aplicativo do gás, mas o fato de ele ter superado todos os outros com uma naturalidade quase resignada. Como quem diz, sem alarde, que antes de qualquer avanço tecnológico existe uma prioridade silenciosa que não aceita adiamento.
No fim das contas, o celular continua sendo uma janela para o mundo. Só que, ao olhar com mais atenção, percebemos que, por aqui, essa janela dá direto para a cozinha. E a pergunta que fica, meio incômoda, meio inevitável, é se estamos evoluindo em velocidade suficiente ou apenas baixando, mês após mês, aquilo que nos impede de parar.

* Gregório José, Jornalista/Radialista/Filósofo

Compartilhe esta notícia