“Non, rien de rien; non, je ne regrette rien…”
Édith Piaf
* Lelê Teles
Tive uma noite de sono conturbada, um misto de sonhos eróticos e pesadelos caóticos.
Passado e futuro misturavam-se no presente e confundiam-se tentando me confundir.
Acordei suado, no meio da madrugada, com vontade de fumar um cigarro ou beber um gole de cachaça.
Ah, mas desgraça!
Perdi o sono e fiquei vagando como um fantasma sonâmbulo.
Fui à varanda olhar o mar e esperar o dia nascer.
O vizinho, que também parece que tava sem sono, ouvia Édith Piaf, lembrei-me do amigo Rian e resolvi mandar-lhe um zap.
Ei-lo.
Bom dia, meu jovem.
Overland, o homem do tempo, anunciou pro fim de semana que passou a chegada de um tufão apocalíptico, parece que soprado pelo terrível éuninho, o erê do clima.
O climatólogo disse que ventaria como nos tempos bíblicos e que menino muito magro teria que ser amarrado ao pé da cama para não sair voando.
Porém, nada disso aconteceu.
Tivemos, além de um leve e breve chuvisco, um ventinho fresco e úmido, praticamente uma bufa de São Pedro.
Como se sabe, essas previsões são imprevisíveis.
Bem, desperto-o logo cedo porque ontem foi dia do amigo e você sabe, o bom amigo é aquele que tarda, mas não falha.
Escrevo porque pretendo te convidar para uma saída no próximo fim de semana.
É certo que eu poderia convidá-lo a botar um short de lycra e um tênis de cooper, desses que custam o preço de um carro elétrico, para darmos um saudável e revigorante trote pela orla, fazendo selfies e distribuindo sorrisos.
Eu também poderia, veja essa, estimulá-lo para irmos, juntos, a uma sessão matinal de yoga.
Seria interessante vermos, os dois, estirados numa esteira de vime ao ar livre, a ouvir o canto dos pássaros que passam.
Poderíamos, quem sabe, nos entregar a uma levitante dança de tai chi chuan, com suaves movimentos e mãos e pés, fazendo poses de animais: ora um tigre, ora uma águia, uma garça de uma perna só, um falcão em voo…
Eu poderia sugerir, ainda, um excitante duelo de facas ou de armas de fogo.
Como nos velhos tempos.
Poderia, quem sabe, provocá-lo a um pugilato gratuito, a uma instigante troca de socos, ofensas e cusparadas.
Um clube da luta periférico com dois pugilistas magros e ruins de socos.
Porém, convido-o ao ócio etílico.
Precisamos brindar nesse fim de semana, é disso que se trata.
Talvez na kombi do Ivan, na praia do farol, ao frescor refrescante da brisa marina e do relento.
Ou, quem sabe, em uma das asas do aeroporto – sua barulhenta vizinhança -, sob o som metálico e estridente de chegadas e partidas aeronávicas.
Quiçá num pé sujo de esquina ou num depósito de bairro, a papear com os papudim, sentados desconfortavelmente em engradados de cerveja empoeirados.
Oxalá, podíamos nos acomodar numa simples varandinha doméstica, apertada e acolhedora, levando chuvisco nas costas…
Que seja.
O assunto?
Deus e o diabo.
Ainda podemos falar sobre a derrota da argentina, o green card de Eduardo, as convenções partidárias, o voo do pato, a sua partida do jornal do dia…
E ainda poderemos nos aprofundar nesse grande mistério da publicidade: por que diabos as propagandas de álcool nunca são feitas com pessoas bêbadas?
Reflita, considere.
Eu só bebo com amigos, sou adepto do adágio leleístico que diz: antes sóbrio que mal acompanhado.
Palavra da salvação.
* Lelê Teles, jornalista, publicitário e roteirista

