“O homem é por natureza
um animal político”,
Aristóteles
* Lelê Teles
Eu chupava pitombas, à sombra da pitombeira de dona Maricota, quando ela chegou com uma vassoura na mão.
Dona Maricota tem o hábito de varrer o quintal todos os dias, logo pela manhã, não porque acha que o terreno esteja sujo, ela o faz como uma forma de ginástica funcional.
A velha acredita que ainda tem muita vida pela frente e quer vivê-la com saúde e alegria.
Veja você.
Enquanto movimentava a vassoura pra lá e pra cá, dona Maricota requebrava o quadril, dançando ao ritmo do répi do Silva, que ela ouvia pelo celular.
“Meu filho, cê já ouviu o novo djingo do Lula?”, ela me perguntou, abrindo um largo sorriso matinal.
Ru disse que sim e ofereci a ela a bacia cheia de pitombas.
Maricota se sentou, depois do treino doméstico, tomou sua aguinha, começou a descascar as pitombas e desembestou a tagarelar.
A senhorinha estava azeda com as bizarrices da convenção nacional do peéle.
“Tu sabe por que que o Tariflávio chamou aquele comedor de carne de burro pro lançamento da pré-candidatura dele?”
Claro que Maricota se referia a Flávio e Milei.
Eu fiz o clássico gesto de quem está cagando e andando, como forma de estimulá-la a desenvolver o raciocínio.
“Aquilo era uma tentativa desesperada de farmar aura, meu filho”, a velha concluiu.
Embora ostente uma bela cabeleira grisalha e flácidas rugas debaixo do sovaco, Maricota não é nada cringe, a idosa está antenada nas gírias da meninada.
Farmar aura, ela me ensinou, é uma gíria utilizada pela geração zê e que pode ser traduzida como uma tentativa pública de demonstrar carisma para obter prestígio e reconhecimento social.
O sujeito que se sujeita a participar de uma competição de farmação de aura já admite, logo de cara, que nasceu desprovido de carisma.
Essa é a condição do irmãozão do Vorcaro, e era disso que dona Maricota estava falando.
O amigão do Sicário, apesar de ser versado na arte da tramoia, da rachadinha e da falcatrua, carece daquele atributo indispensável a um candidato: conexão com as pessoas.
Por isso ele fez a aposta no siquisseven, chamando ao palco um dos maiores farmadores de aura da América Latina, o tal comedor de carne de burro.
Porra, que sacada de dona Maricota!
Veja a sabedoria dessa senhorinha.
O farmador de aura, explicou-me dona Maricota, está em busca de aplauso que, para ele, é uma demonstração de pertencimento, é pela aprovação do outro que ele se reconhece.
Essa é a razão pela qual o grande Aristóteles nos chamou de animais cívicos, somos seres relacionais; sem o outro eu não sou ninguém.
Tentando mostrar-se descolado, o farmador de aura usa a sua falta de estilo e de jogo de cintura a seu favor, submetendo-se a uma humilhante demonstração pública de que ele se reconhece como um zerruela.
Mas é aí que entra o pulo do gato, a artimanha do bom farmador é usar o seu defeito a seu favor, ele faz da sua falta de estilo uma coisa estilosa.
A dança horrorosa de Trâmpi e a bisonha dancinha de Nilei servem a esse único propósito.
Tentando emular os seus ídolos, Flávio chegou a convidar um dançarino que não sabe dançar para lhe ensinar um simples passinho de funk, mas o desgraçado falhou miseravelmente.
É por isso que as pesquisas mostram que o candidato da extrema direita não para de perder aura.
Observe que na convenção do seu partido não apareceu nenhum nome de peso para apoiá-lo, muitos que poderiam estar lá só não estiveram porque estão presos, inclusive o pai.
O único cacique que compareceu foi Valdemar, aquele que disse que Flávio não estava preparado.
Com a aura baixíssima, Tariflávio apelou para a falcatrua, exibindo um vídeo artificial do pai, um artifício bizarro.
A madrasta, que já havia lhe dado umas chineladas, se recusou a posar ao lado daquele que disse que iria estancá-la.
Madame firmo, firme, enviou um videozinho onde falava de si mesma.
Carluxo também fez uma aparição virtual, a cabeçorra quase não cabia na tela; Dudu foi pelo mesmo caminho.
O único membro da família que compareceu ao ato, de corpo presente, foi o Renan zerocinco, que entrou calado e saiu em silêncio, porque se ele abrisse a boca o irmão se desaurificava de vez.
O certo é que o evento não trouxe nenhum benefício ao pré-candidato.
Milei, descabelado e com as calças caindo, mostrou-se um moleque de nariz sujo ao agredir autoridades brasileiras, deixando claro que é um animal incivilizado e incivilizável.
Pparecia os jogadores da seleção do seu país, talvez por isso mesmo ela tenha exibido a camiseta albiceleste; um homem que exibe orgulhoso um símbolo da unfair play é mesmo um diabo humano.
Agora diga lá se dona Maricota num sabe das coisas!
As pesquisas corroboram a teoria da idosa: o Tarfiflávio não para de perder aura.
Palavra da salvação.
* Lelê Teles, jornalista publicitário e roteirista


