* Manoel Moacir Costa Macêdo
A simplicidade esconde a complexidade. O caso da “crise da citricultura em Rio Real, Estado da Bahia”, é um exemplo. Desconhecemos a história e desprezamos os fatos. Louvamos o jeitinho e o determinismo divino. Expressões de nosso secular atraso.
No alvorecer de 2025 como profecia, artigos e programas de rádios anunciaram a “crise da citricultura de Rio Real”, assinados como o “desenvolvimento por vir”. Riscos previsíveis de um monocultivo perecível, sazonal e dependente de processamento industrial oligopolizado. “Ilusório desenvolvimento sustentável e coletivo”.
Nenhuma reação organizada aconteceu, e nem providências foram tomadas. Ao contrário, lucros privados foram acumulados e festejados. Crise que ultrapassa Rio Real, a Bahia, o vizinho Estado de Sergipe e o Nordeste. Dados de 2023, mostraram que a citricultura de Rio Real, produziu 610.084 toneladas de laranja, significou 41,2% da produção do Estado da Bahia, num valor aproximado de 200 milhões de reais. Isso não é pouco e situa o Município no seletivo grupo dos cinquenta maiores PIB – Produto Interno Bruto, entre os 417 municípios baianos.
Riqueza e desigualdade no mesmo território. Atualização secular dos ciclos econômicos do Brasil agrário, tal qual o café, cana-de-açúcar, seringueira, algodão e cacau. A crise da citricultura está posta. Prejuízos às claras. Necessidade imediata de soluções. O velho Estado sendo lembrado.
Absurdos surpreendem. Em 2025, o preço da tonelada da laranja adquirido pela indústria superou R$ 2 mil reais, estimulado pelas demandas externas. Hoje, essa mesma laranja está sendo ofertada gratuitamente e descartada no “lixão”. Os custos da colheita e transporte, são maiores que o preço determinado pelo oligopólio industrial.
Soluções não são simples e nem rápidas, mas possíveis. Festas, símbolos e condecorações não resolvem, eles anestesiam. Imperativo coragem, competência, planejamento e previsibilidade. Exemplos não faltam. Organização e controle pelos produtores dos mecanismos de produção, comercialização, distribuição e consumo no local e na arena global.
Passados mais de quatro décadas, os citricultores de Boquim, Sergipe, então o principal produtor de laranja do Nordeste, donde partiram relevantes citricultores de Rio Real, criaram a ASCISE – Associação de Citricultores de Sergipe, mas pouco prosperou. Eles também não instalaram a desejada indústria própria.
Socorro urgente é rogado na aguda crise. Sofrimento que atinge de pronto os catadores de laranja, pequenos e médios citricultores e a dependente e frágil economia local. Grandes produtores, industriais e intermediários possuem defesa. Eles são possuidores de terra, capital, empreendedorismo e diversificação produtiva. Alguns nem em Rio Real vivem.
O oligopólio industrial continua moendo a laranja estocada e ofertada a preço vil. A crise não afetou com profundidade, a exportação da laranja como suco para o mundo, nem foi atingida pelas arbitrárias tarifas norte-americanas. Continua maximizando os lucros pela matéria-prima barata e suco caro. Acusações são atiradas nos periféricos e poupados os intermediários e centrais. Atacam o público e protegem o privado. Continuam desorganizados e penalizados quem trabalha e produz.
O camarada Estado que tanto deu e dar – terra, pesquisa, assistência técnica, crédito e isenções -, é cobrado como o único responsável. As soluções passam por ele, mas partilhada com a poderosa cadeia da citricultura. O capitalismo não tem compaixão, nem piedade, e nem limite de acumulação. Ele busca o lucro máximo e quando possível a exploração.
As lições da “crise da citricultura de Rio Real” são visíveis e sentidas. Ainda é tempo de aprender e transformar, para não repetir.
* Manoel Moacir Costa Macêdo, engenheiro agrônomo e rio-realense.

