Eu fundei um grêmio llivre

Lelê Teles

* Lelê Teles

eu era um molecote de treze anos de idade quando Tancredo Neves foi eleito presidente do Brasil, acabando com vinte longos anos de ditadura militar.
Na véspera de sua posse, o sujeito foi à missa agradecer aos deuses, qualquer cristão o faria; porém, o diabo também queria ter uma conversa com ele.
Tancredo saiu da igreja direto pro hospital de base de Brasília, acometido por fortes dores abdominais.
Meu pai, que era reacionário e militarista, trabalhava na anatomia desse hospital e, depois de conversar com seus colegas, disse que o velho não sairia dali com vida.
Mas Deus, que é teimoso como diabo, deu um jeito de tirá-lo de lá.
Tancredo foi transferido para o hospital do coração, em São Paulo. pouco mais de um mês depois, no dia vinte e dois de abril, ele retornaria a Brasília, dentro de um caixão.
Por pouco meu pai não enfiou uma faca no peito do cadáver do presidente, tenho certeza de que seria o único defunto que ele cortaria com gosto.
Na manhã seguinte, fui à Esplanada dos Ministérios, onde centenas de milhares de pessoas que pensavam diferente do meu coroa participavam do velório cívico.
O que mais me impressionou foi que a multidão chorava como se carpisse a morte de um parente.
Eu precisava encontrar um sentido naquilo.
O sol ardia como brasa, a grama tava seca e não ventava.
Era como se a natureza entrasse num estado de morte também.
Fui buscar um pouco de refresco no espelho d’água do congresso nacional.
Ali escutei uns caras conversando sobre a Nova República, a volta da democracia e das eleições diretas que viriam a seguir.
Eles acreditavam que os milicos mataram Tancredo, mas uma vez que o povo ganhara as ruas, ninguém mais segurava este país.
Voltei pra casa morrendo de fome e com dor de cabeça por causa do calor, mas voltei diferente.
Peguei um pincel atômico e escrevi no banco do buzão: “Conseguiram calar um líder, maNnão conseguirão calar uma nação”.
Não sei de onde tirei essa frase, mas eu já começava a entender que dava pra fazer política até com um pincel atômico.
A noite, já de volta à minha periferia, fui a uma vigília pela democracia, na praça da igreja São Sebastião, no Gama.
Professores, o pessoal do teatro e uns profissionais liberais abriram uma roda, oraram e começaram a discursar.
Uma ideia mexeu comigo.
Um professor disse que a democracia só estaria de fato estabelecida quando as questões políticas começassem a ser discutidas no pátio da escola.
Aquilo fez muito sentido pra mim.
Eu tava na sétima série e fazia parte de uma ganguezinha do colégio, formada por punks e metaleiros, chamada “the rock demons”.
Sim, a gente era uns capetinhas.
Um dia, na hora do recreio, fizemos uma reunião no pátio da escola e decidimos lançar um grêmio livre.
Fizemos algumas assembleias à sombra de um frondoso eucalipto. eu e meu irmão subíamos em um banquinho de concreto e palestrávamos.
O Brasil era a escola, o presidente era o diretor, os militares eram os professores, os estudantes eram a classe trabalhadora e a gente ia botar aquela ditadura abaixo.
Eu e minha turma havíamos aprendido algumas coisas com os comunistas do bairro.
Os irmãos Marcelo, Marcela e Márcio Vieits, organizavam a maior festa junina da cidade, o maior festival de música popular do centro-oeste e estavam ligados ao revolucionário “Grupo Teatro do Gama.”
Esses comunas faziam de toda atividade cultural um palanque político.
Agora veja essa, a minha professora de inglês adoeceu e disse à direção que eu daria conta de substituí-la perfeitamente durante o seu repouso.
Durante quinze dias eu fui professor dos meus coleguinhas e já achei que tinha autoridade suficiente para liderar uma paralisação na escola.
Um certo dia, uma aluna decidiu sair da escola, durante o intervalo, pra trocar uns beijos e uns amassos com o namoradinho dela.
O bedel recebeu ordens da direção para não deixar a menina voltar.
Foi assim que eu puxei a primeira greve, nenhum de nós entraria na sala de aula até que Ana Paula pudesse entrar também.
A escola inteira parou, foi um bafafá dos diabos e a direção acabou cedendo.
Na saída, pixamos todo o fusquinha do diretor com palavras de ordem: abaixo a ditadura e os caralho.
O diretor apertou os alunos e um deles, o Cafura, disse que eu liderava o grupo de arruaceiros.
Chamaram meus pais na escola e ameaçaram me expulsar.
No dia seguinte, fizemos três dias de greve, ninguém entrava na sala de aula, era só pátio e festa.
Fizemos cartazes com reivindicações e pedimos a saída do diretor, que era autoritário, odiava os jovens, detestava a escola e amava dar ordens.
Ele caiu e a gente subiu.
Vieram as eleições, cheiro de álcool por toda a escola, o mimeógrafo imprimia as propostas das chapas.
Vencemos com a chapa Democracia Estudantil, o segundo grêmio livre do Gama.
Aquela escola, que nos sufocava como uma prisão, com seus muros altos e uma sirene que tocava no final de cada aula, se tornou um grande espaço cultural.
Fizemos saraus, recitais, exposições, salas de dança e campeonatos de vôlei e futsal.
Nos juntamos ao grêmio do colégio do gama e convocamos todas as escolas primárias e secundárias da cidade para uma grande passeata exigindo reforma nas escolas, material para a prática de esportes e a contratação de mais professores.
Levamos Cafura ao pátio e o julgamos por sua traição, ele condenado e punido com duas bofetadas, desferidas por mim mesmo.
Outros grêmios surgiram na cidade e passamos a frequentar congressos estudantis.
No ano seguinte mudamos de escola, lá organizamos um festival de música e eu montei uma banda punk pra tocar no evento, meu irmão foi por colégio do Gama, fundou um festival de artes lá, que existe até hoje, e montou uma banda death metal.
Um certo dia, o Cafura apareceu na porta da biblioteca da escola e me chamou para uma conversa.
A escola ficava na área dele, e ali eu é que era o forasteiro.
A situação se inverteu.
Cafura trazia um revólver na cintura e estava disposto a me matar.
Eu tô vivo.
Ele também.
Palavra da salvação.

* Lelê Teles, jornalista, publicitário e roteirista

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