As eleições de 2024 às de 2026: um crime, um réu e uma infeliz candidatura

* Cleverton Silva
Na noite de 2 de outubro de 2024, no Conjunto Augusto Franco, em Aracaju/SE, um então candidato a Vereador pelo Partido Liberal (PL) se envolveu no atropelamento do militante do Partido dos Trabalhadores (PT), Charles Belchior, que por cerca de 2km lutou por sua vida agarrado ao capô enquanto o celerado candidato bolsonarista do PL e três comparsas que o acompanhavam no veículo aceleravam, certamente esperando pelo pior para o petista: o resultado morte. Porém, Charles Belchior conseguiu sair do atentado com vida, ao custo de uma perna fraturada, sofrendo até os dias de hoje com sua reabilitação.
O resultado final do homicídio tentado em 2 de outubro de 2024 não foi o mesmo que infelizmente ocorreu com o Mestre Moa do Katendê, assassinado a facadas por um declarado eleitor de Jair Bolsonaro em 8 de outubro de 2018 em Salvador/BA; com a mulher trans Laysa Fortuna, também assassinada a facadas por um morador de rua em 18 de outubro do mesmo ano de 2018 em Aracaju/SE, período em que a transfobia era incentivada por eleitores de Jair Bolsonaro (PSL), que concorria contra Fernando Haddad (PT) no 2º turno das eleições presidenciais; e com Marcelo Arruda, filiado ao PT em Foz do Iguaçu/PR, assassinado a tiros por policial penal bolsonarista em plena festa de aniversário em 9 de julho de 2022, em tempos de pré-campanha das eleições presidenciais daquele ano.
Os Ministérios Públicos (MPs) na Bahia, no Paraná e em Sergipe não se omitiram diante da crescente violência, debruçaram-se sobre os inquéritos policiais e os desdobraram como ações penais, que resultaram nas condenações de Paulo Sérgio de Santana, assassino do Mestre Moa, a 22 anos em novembro de 2019; de Alex da Silva Cardoso, assassino de Laysa Fortuna, condenado pelo júri popular em 12 de novembro de 2019 a cumprir 12 anos de prisão (Laysa hoje é lembrada nomeando a rua onde morava no Bairro Porto Dantas, graças à Lei 5.472/2022, proposta pela amiga Linda Brasil, do PSOL); e em fevereiro de 2025 foi a vez da condenação, com pena de 20 anos, contra Jorge Guaranho, assassino de Marcelo Arruda.
Já no caso do atentado contra Charles Belchior, os 4 suspeitos se tornaram réus e a primeira audiência de instrução ocorreu em 16 de julho de 2025, a segunda audiência ocorreu em 13 de outubro de 2025, mas nesta só se ouviu apenas uma das quatro testemunhas de acusação inicialmente pretendidas. Não se encontram com facilidade notícias públicas que informem se estas três testemunhas foram ouvidas posteriormente, mas o curso do processo pode ser consultado de forma mais acessível pelos(as) operadores(as) do direito.
Enquanto o processo contra os 4 réus segue, com as garantias constitucionais (fundamentais e processuais) asseguradas, matéria da Carta Capital em 20 de março de 2026 mostrou um destes réus livre, leve, solto, e até dias antes da matéria agraciado com um cargo de assessoria de um Deputado Estadual, também bolsonarista, cargo que deixou para assumir função no segmento jovem do PL. Passado o primeiro semestre de 2026 e iniciado o período eleitoral, o PL em Sergipe dá aval para que este réu seja candidato a Deputado Estadual, homenageando a violência, ao invés de a repudiar.
Conforme se lê na edição de sábado, 22 de agosto de 2026, deste Jornal do Dia, nestes primeiros dias aparentemente mornos de campanha oficial, iniciada em 16 de agosto, o candidato-réu citado foi condenado a pagar multa de R$ 5 mil pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE), por propaganda eleitoral antecipada, ao utilizar as redes sociais para difundir informações falsas e conteúdos ofensivos ao Senador Rogério Carvalho (PT), que prestou solidariedade a Charles Belchior e vem acompanhando até hoje a recuperação do seu companheiro de partido.
Ou seja: como tem sido marca registrada no bolsonarismo, o extremismo de direita usa e abusa das garantias fundamentais e processuais como a presunção da inocência e a razoável duração do processo para seguir cometendo crimes, espalhar o pânico e a sensação de impunidade, numa sanha ensandecida, onde estes são “tigrões” com o Supremo Tribunal Federal (STF) e “tchutchucas” quando percebem que poderão ser responsabilizados, como disse o Ministro Gilmar Mendes em entrevista a Narcizo Machado no dia 23 de abril deste ano, quando convidado a comentar sobre o absurdo relatório do Senador Alessandro Vieira na CPI do Crime Organizado que “indiciou” Ministros do STF e esqueceu de indiciar membros do Primeiro Comando da Capital (PCC), do Comando Vermelho (CV) e outras facções do crime organizado.
Voltando ao candidato-réu do PL, a matéria da Carta Capital reproduz declaração do mesmo de que não estava na direção do veículo que colocava em risco a vida de Charles Belchior, um argumento de “tchutchuca” que este e sua defesa sustentam diante do Judiciário sergipano, onde naturalmente se comportam conforme as regras processuais, pois temem pedir por Impeachment de Desembargadores(as) e CPIs da Lava-Toga nas Varas e Tribunais onde eventualmente precisarão lidar com os processos como partes, embora bradem “Fora Alexandre de Moraes” em suas performances nas redes sociais posando de “tigrões”, quando o assunto é o STF.
E assim, em sua falsa valentia, o candidato-réu que recebeu o absurdo aval do PL para concorrer à Assembleia Legislativa de Sergipe (ALESE) em busca de foro privilegiado coloca o eleitorado, a classe política e a justiça eleitoral sergipana diante do Paradoxo da Tolerância de Karl Popper, ao usar e abusar de seus direitos para ameaçar estes e outros direitos individuais e sociais da coletividade.
Por fim, é importante frisar que o candidato-réu não foi nominado nestes parágrafos pela necessária cautela de não facilitar a decisão do voto de raros e acidentais eleitores alucinados que chegarem a ler este texto, e que tenham impulsos semelhantes aos 1.252 infelizes que votaram nele em 2024, mesmo sabendo de seu envolvimento na atrocidade daquela noite de 2 de outubro. Gente assim terá que se esforçar mais e recorrer a outros meios para achar o candidato-réu, que brevemente esperamos ser mais um bolsonarista condenado por seus crimes de 2024 pra cá. Aí sim, digno de ser nominado.
* Cleverton Silva é bacharel em Direito pela UFS
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