* Profa. Dra. Valéria Aparecida Bari
Existem amizades que nascem a partir de fatores da vida em comunidade, ou preferências comuns. Porém, existem amizades que nascem a partir da grande novidade que existe entre pessoas muito diferentes. Quando fui convidada por Gildeci de Oliveira Leite para falar sobre a obra de Gilfrancisco Santos, certamente nossa amizade pertence à categoria dos diferentes. O que seria do mundo, se não houvesse a novidade, a surpresa, a descoberta de pontos de vista diversos, que recompõe um panorama cultural e descortinam novas realidades.
Conheci Gilfrancisco num lançamento literário, ocorrido na Biblioteca Estadual “Epifânio Dória”, uma das mais importantes do Brasil, localizada em Aracaju, a capital de Sergipe. Sexta-feira, estávamos vestidos de branco, devido à uma devoção afrobrasileira que nos aproximou naquele momento, entre uma multidão de pessoas que vieram para assistir a um concerto e acompanhar os lançamentos literários.
Pouco mais tínhamos em comum. Mas, o amor pelas Letras, pelo Patrimônio Histórico e pela Documentação, maiúscula por ser a ciência, construíram uma grande amizade a partir daquele momento, no ano de 2009. Desde então, fui apresentada à cerca de 70 obras de caráter documental, de autoria de Gilfrancisco, assim como ao seu círculo virtuoso de colegas de docência e pesquisa, dentre os quais se encontra meu amigo Gildeci.
Por meio dessas leituras, pude realmente ter um contato de natureza historiográfica e documental com a intelectualidade local, ou seja, sergipana e baiana, num mesmo território cultural, dividido entre intrigas palacianas, disputas territoriais, laços de família e, sobretudo, construção de conhecimento, modo de vida, hábitos de intelectualidade.
Em outros sentidos, o cronista Gilfrancisco teceu uma observação crítica da intelectualidade sergipana e baiana, que nem sempre foi recebida de braços abertos pelo poder hegemônico. É um profissional que muito contribui, e segue até a atualidade como um especialista no cenário da inteligência nordestina, de modo historiográfico, com postura ativa e crítica.
Nem sempre a academia foi grata pelas contribuições, orientações de pesquisa, disponibilização de pesquisas em documentação primária, explanações sobre aspectos históricos que se conservaram apenas na oralidade. Mas, ao ser promulgado seu processo de Dr. Honoris Causa, foi certamente festejado nos dois estados do país que lhe devem tributos, Sergipe e Bahia. Sabemos que, por sua produção intelectual, foram restituídas inúmeras pessoas ao cenário histórico, que poderiam ter caído no completo esquecimento.
Até parece cômico, mas Gilfrancisco tem o poder, o condão, de ressuscitar escritores e ativistas políticos que já estavam “mortos” no discurso acadêmico. Você, leitor, que nesse momento está se perguntando se isso é possível, basta verificar como nossa cultura brasileira é indiferente ao destino de escritores, artistas e outras pessoas públicas, quando sua produção decai, no ocaso da vida. Ao se aposentar, muitos de nossos intelectuais e educadores poderão ser considerados desencarnados na esfera pública e na academia. Apenas a patrimonialização, a memória e a pesquisa podem salvar nossos valiosos pensadores dessa sina.
Por essa razão, posso dizer que a memória e patrimonialização nos permitem conservar grandes tesouros, assim como escapar de perigos já vividos, ao longo de uma vida que parece longa, mas é sempre insuficiente para os seres humanos. O ser informacional é aquele que, tendo vivido apenas uma única vida, terá vivido mil vidas, acessíveis em suas leituras. Todos aqueles que defendem o direito humano à leitura, a existência de acervos e bibliotecas públicas distribuídas geograficamente, para atender a todos brasileiros, terá de alguma forma contribuído com essa experiência.
Quem não conhece sua origem, não valoriza seu passado e não procura a compreensão de seus antecessores, é presa fácil das atribulações do futuro. Toda construção necessita de alicerces, até mesmo a de nossas vidas.
* Profa. Dra. Valéria Aparecida Bari é professora do Departamento de Biblioteconomia


