* Sandro Tavares Silva & Manoel Moacir Costa Macêdo
O presente texto não preenche os requisitos do método histórico e nem da metodologia científica. Ele expressa as surpresas dos comuns. Opiniões de observadores à luz de fatos e acontecimentos. No senso comum, prospecta evidências para o dito: “a história não se repete, exceto para pior”. Será que estamos repetindo a história pelo lado amargo de seus registros? Guerras sem ameaças, tal qual os impérios medievais. Supremacias raciais, tal qual o ódio judeu. Estados nacionais abdicando da democracia por ditaduras e medos.
O objeto de observação, são as recentes eleições democráticas no Brasil. Retrocessos pela própria prática democrática. A desigual sociedade brasileira aparenta ser vítima do próprio sucesso, como a redução da miséria, da fome, do desemprego, do crescimento, da educação e da apologia internacional de sua liderança. O ódio de classes da teoria marxista que parecia enterrado, ressuscitou.
Em 2019, Vladimir Putin, ditador da República da Rússia após “Perestroika e Glasnost”, em nova versão da Guerra Fria, declarou no influente “Financial Times”, que a ideia liberal estava obsoleta. As democracias ocidentais haviam se afastado da maioria ao abraçar o multiculturalismo e a imigração. O que parecia profecia, tornou realidade. Na Rússia, predomina o autoritarismo, a oposição sufocada, a imprensa controlada, e as leis reescritas para o ditador se perpetuar no poder.
Em 2026, próximo do tempo russo, o Brasil está experimentando similar transformação. A geração de brasileiros que cresceu na democracia, não conheceu a fome e nem as opressões de liberdade, louvam a estratégia autoritária de Putin. Incomodada com as políticas públicas de inclusão social, antes alcançadas pelos bem-nascidos e situados no andar-de-cima. Ironia, para quem nunca passou fome e não sabe o valor de um prato de arroz com feijão e nem a liberdade de gritar sem marcas nos porões da repressão.
O cientista político norte americano Ronald Inglehart, e anterior a ele, o seu conterrâneo, o psicólogo Abraham Maslow mostrou na proposta da “hierarquia de necessidades”, que quando a sobrevivência deixa de ser uma conquista, outras necessidades tomam o seu lugar. Os últimos vinte anos de governo no Brasil, acolhem a teoria de Maslow. A surpresa, são as revolucionárias e subterrâneas influências das redes sociais desreguladas, que transformam o medo em engajamento, e penetram na consciência humana com torpedos de algoritmos, no suporte ao cenário russo traçado por Putin. A inteligência artificial e a extrema-direita, poderosas e livres de controles, atualizadas e inteligentes interferem na invisibilidade dos carnais, ultrapassam barreiras e soberanias, e alteram comportamentos e estruturas sociais estabelecidas. O foco é o poder em mãos de impérios estruturados em novas formas autoritárias, que matam a democracia sem canhões e baionetas, e os soldados são os próprios nacionais, ao mesmo tempo algozes e vítimas.
É nesse ponto que o movimento eleitoral brasileiro recente indicado pelas urnas merece ser observado para além da simples escolha entre candidatos. O voto não traduz, necessariamente, uma ideologia coerente ou uma visão de mundo plenamente consciente; pode resultar do medo, da esperança, da identidade, da rejeição, dos interesses materiais ou da percepção da realidade, de dentro e de fora. Ainda assim, ao escolher, o eleitor também revela – ainda que imperfeitamente – o país em que deseja viver e, sobretudo, a quem atribui capacidade para construí-lo. A disputa eleitoral, portanto, não é apenas entre nomes, partidos ou governos, é também uma disputa entre diferentes concepções de liberdade, igualdade, ordem, justiça social, desenvolvimento e democracia, mediada pela confiança de que determinado candidato poderá transformar essas ideias em realidade.
Ao que parece, a civilização não anda em linha reta, mas em espiral, e nunca retorna ao mesmo ponto inicial. Espiral não é destino, é construção humana. Ideologias julgadas como superadas, mas nunca vencidas em seus constructos teóricos e cognitivos, retornam com vernizes distintos do passado, mas com o mesmo conteúdo. Algumas vencidas pela força bélica, mas nunca extintas da consciência dos opressores.
Nenhuma democracia está condenada ao autoritarismo, assim como nenhuma liberdade está garantida para sempre. Entre uma coisa e outra estão a memória, a consciência e as escolhas de cada geração.
* Sandro Tavares Silva & Manoel Moacir Costa Macêdo são, respectivamente, administrador de empresas e engenheiro agrônomo e advogado.

