Flávio diz que vai liderar a oposição a partir de Miami. Será líder de si mesmo. Nem a família vai liderar
* Oliveiros Marques
Flávio Bolsonaro, com a ajuda de Milei e, provavelmente, da CIA, cruzou a fronteira com a Argentina, desembarcou em Miami e, de lá, divulgou uma carta ao Brasil. Nela, apresenta-se como “verdadeiro presidente eleito”, fala em fraude, pinta o país como uma ditadura e acusa a Justiça de perseguição. Não há uma linha nessa missiva que pare em pé.
Comecemos pelos números. Lula teve 64.256.232 votos, 51,79% dos válidos. Flávio, 59.826.041. Foram 4,4 milhões de votos de diferença. Não foi um placar apertado, foi uma lapada. E nem o próprio PL embarcou na fantasia: Valdemar Costa Neto, presidente do partido do derrotado, reconheceu a vitória de Lula enquanto o candidato arrumava as malas.
Ditadura? Que ditadura curiosa é essa em que o partido do “perseguido” conquista as maiores bancadas na Câmara dos Deputados e no Senado? Em que um irmão é eleito senador, o outro, que não junta lé com cré, vira deputado federal, e a madrasta ganha uma vaga no Senado?
Justiça parcial? O TSE que conduziu a eleição é presidido por Kassio Nunes Marques (não sei se é o mesmo KN daquelas mensagens sobre as orgias do Vorcaro) e tem como vice o terrivelmente evangélico André Mendonça, ambos indicados ao Supremo por Jair Bolsonaro, pai do derrotado. Se houve conspiração, foi organizada pelos ministros escolhidos pelo pai.
Resta, portanto, o motivo real da viagem. Flávio é investigado em dois inquéritos no STF: um por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas no pedido de R$ 131 milhões a Daniel Vorcaro, do Banco Master, para o filme “Dark Horse”; outro por lavagem de dinheiro com apostas, ao lado do advogado Willer Tomaz, alvo da operação que apura as fraudes no INSS. Em fevereiro, sem mandato, perde o foro. E aí o bicho pegaria.
E o destino escolhido não poderia ser mais sugestivo. Foi nos Estados Unidos que o dinheiro de Vorcaro foi parar: US$ 12,3 milhões remetidos ao Havengate, um fundo imobiliário que estava parado havia quase quatro anos e é administrado pelo advogado do seu irmão Eduardo Bolsonaro. A PF quer saber se esse dinheiro chegou mesmo à produção do filme, que chegou a correr o risco de parar por falta de pagamentos a profissionais e fornecedores. Talvez agora, em Miami, ele possa conferir de perto onde o dinheiro está e, talvez, usufruir de parte dele.
A fuga escancara o que a candidatura sempre foi: a busca de um salvo-conduto. Uma Presidência como escudo, como no governo do pai, acusado de intervir na Polícia Federal quando o filho era investigado pelas rachadinhas que tomavam, na mão grande, parte dos salários dos funcionários do seu gabinete na Assembleia do Rio de Janeiro.
Flávio diz que vai liderar a oposição a partir de Miami. Será líder de si mesmo. Nem a família vai liderar. Rei morto, rei posto: a liderança da extrema direita já está sendo plantada em solo brasileiro, seja em São Paulo, seja em Brasília.
A Flávio restará lamber as botas de Trump por pouco mais de dois anos. Depois, sem padrinho na Casa Branca, deve fazer companhia ao pai na Papuda.
Perdeu, playboy.
* Oliveiros Marques, sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas

