A Black Fraude não perdoa ninguém

 

Rian Santos
riancalangodoido@yahoo.com.br
Os donos da internet 
conhecem todos 
os nossos hábitos de consumo. Ao invés de me oferecerem um Iphone de última geração, por exemplo, atacam o meu correio eletrônico com a sugestão de um milhão de livros indispensáveis à satisfação das ignorâncias no escuro de minha cachola. O gerente ficou louco. A Black Fraude não perdoa ninguém.
O comércio varejista tem a expectativa de movimentar bilhões de reais em vendas durante as promoções, esta sexta. Mas todo cuidado é pouco para não cair em cilada. Em 2017, foram realizadas 3,5 mil queixas no site Reclame Aqui, um canal onde os consumidores podem pesquisar a reputação de prestadores de serviços, lojas e empresas antes de colocar a mão no bolso. Ano passado, a insatisfação alcançou um pico escandaloso, com mais de 97 mil queixas registradas no mesmo canal.
Esse risco eu não corro. Passei anos sem telefone celular, desde o dia de um acidente na BR 101. O rombo na minha cabeça, vertendo sangue, não intimidou os urubus de tocaia no acostamento da estrada. Foi-se o aparelho, um gatilho de ansiedades tecnológicas. Ficaram as urgências da vida real – a superfície áspera do mundo ferindo os nervos na palma das minhas mãos, a dor e o formigamento na ponta dos dedos.
Com quase 40 anos nas costas quebradas, começo a me conformar com uma curiosidade crônica. Um livro depois do outro. Devagar e sempre. Só comprei o ‘Grande Sertão’ de Guimarães Rosa, uma edição luxuosa da Cia das Letras, depois de derrotar as 600 páginas de ‘Moby Dick’. E não faço diferente com qualquer outro produto. Muito menos pela metade do dobro do preço. 
O saudoso João Costa sabia das coisas. Lembro do conselho, oferecido com a voz grave e o ar professoral de um intelectual cônscio dos próprios méritos. Aproveitem a juventude, ele dizia. Cultura se adquire na época das espinhas. Depois de adulto, não há tempo para o que mais importa. Depois dos 30, os livros são como ostras fechadas, não compartilham o seu segredo precioso com ninguém.
Torço para Johny estar errado. De todo modo, ‘Moby Dick’ é sim um livro para ser lido com um desejo de aventura que não combina nem com a calvície que me desola, nem com os cabelos brancos. 

Os donos da internet  conhecem todos  os nossos hábitos de consumo. Ao invés de me oferecerem um Iphone de última geração, por exemplo, atacam o meu correio eletrônico com a sugestão de um milhão de livros indispensáveis à satisfação das ignorâncias no escuro de minha cachola. O gerente ficou louco. A Black Fraude não perdoa ninguém.
O comércio varejista tem a expectativa de movimentar bilhões de reais em vendas durante as promoções, esta sexta. Mas todo cuidado é pouco para não cair em cilada. Em 2017, foram realizadas 3,5 mil queixas no site Reclame Aqui, um canal onde os consumidores podem pesquisar a reputação de prestadores de serviços, lojas e empresas antes de colocar a mão no bolso. Ano passado, a insatisfação alcançou um pico escandaloso, com mais de 97 mil queixas registradas no mesmo canal.
Esse risco eu não corro. Passei anos sem telefone celular, desde o dia de um acidente na BR 101. O rombo na minha cabeça, vertendo sangue, não intimidou os urubus de tocaia no acostamento da estrada. Foi-se o aparelho, um gatilho de ansiedades tecnológicas. Ficaram as urgências da vida real – a superfície áspera do mundo ferindo os nervos na palma das minhas mãos, a dor e o formigamento na ponta dos dedos.
Com quase 40 anos nas costas quebradas, começo a me conformar com uma curiosidade crônica. Um livro depois do outro. Devagar e sempre. Só comprei o ‘Grande Sertão’ de Guimarães Rosa, uma edição luxuosa da Cia das Letras, depois de derrotar as 600 páginas de ‘Moby Dick’. E não faço diferente com qualquer outro produto. Muito menos pela metade do dobro do preço. 
O saudoso João Costa sabia das coisas. Lembro do conselho, oferecido com a voz grave e o ar professoral de um intelectual cônscio dos próprios méritos. Aproveitem a juventude, ele dizia. Cultura se adquire na época das espinhas. Depois de adulto, não há tempo para o que mais importa. Depois dos 30, os livros são como ostras fechadas, não compartilham o seu segredo precioso com ninguém.
Torço para Johny estar errado. De todo modo, ‘Moby Dick’ é sim um livro para ser lido com um desejo de aventura que não combina nem com a calvície que me desola, nem com os cabelos brancos. 

 

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