A ESPANHA AINDA É RACISTA?

Lelê Teles
 
As primeiras manifestações de racismo na Espanha 
se deram com os estatutos de pureza do sangue, 
vigentes entre dos séculos XV e XIX, e foram transferidos para o Império Espanhol na América, dando origem ao sistema colonial de castas. No século XVIII tentou-se “exterminar” a “má raça” dos ciganos com a malsucedida operação do “Grande Raid”, idealizado e dirigido pelo Marquês de la Ensenada, ministro do rei Fernando VI.  O racismo científico chegou à Espanha no século XIX e se projetou nos nacionalismos espanhol, catalão, basco e galego.
Vini Jr, com a sua coragem e inteligência, deu um drible desconcertante nos racistas espanhóis.
Ele expôs todos eles para o mundo todo.
Em um tuíte muito bem redigido, Vini disse, com todas as letras, que a Espanha é racista.
Isso fez com que o presidente de la liga, o covarde Javier Tebas, voltasse às redes para, mais uma vez, contestar as palavras do craque brasileiro.
Dessa vez, o sujeito, que é apoiador do vox, o infame partido de extrema direita espanhol – racista, portanto -, disse que a Espanha não é racista.
Alguns jornalistas espanhóis trataram logo de afirmar a mesma coisa.
A Espanha não é racista.
Ora, ora, ora.
O racismo fundou a Espanha.
“A ideia de raça”, nos diz Aníbal Quijano¹, magistral sociólogo peruano, “tem uma origem colonial”.
Eram racistas, por definição, os colonizadores espanhóis.
Foi por serem racistas que eles assassinaram mais de 30 milhões de pessoas durante o processo colonizador; com a descarada justificativa de que não eram humanos aqueles que eles passavam no fio da espada.
Quando Colombo aportou, no que mais tarde seria chamado de continente americano, e viu as pessoas que viviam aqui, ele não perguntou quem eram, mas o que eram!
São humanos ou não são humanos?
Isso está escrito já na primeira carta de Colombo, nos diz Quijano.
E é exatamente isto o que estão dizendo os torcedores espanhóis quando chamam Vini Jr de macaco.
A Espanha ainda idolatra Hernán Cortés² e Francisco Pizarro³, dois racistas assassinos e sanguinários.
Os espanhóis ainda se refestelam com o produto do roubo e da pilhagem que seus antepassados piratearam do continente americano.
E como se vê, a herança colonial espanhola não é só material.
Quijano afirma que essa noção de raça, superior e inferior, não desapareceu com a emancipação e nem com o anticolonialismo, pelo contrário, em muitos âmbitos ela se tornou ainda mais forte.
Eemos um estádio lotado, com transmissão ao vivo para todo o mundo, gritando isto abertamente.
Como pode um estádio inteiro massacrar um garoto por conta da cor de sua pele e isso não gerar um repúdio público, contundente e imediato de toda a sociedade espanhola, do rei ao rato?
São racistas, todos, ou só os que pagaram o ingresso?
Como diabos as redes de televisão não tiveram o pudor de ameaçar não mais transmitir este tipo de espetáculo grotesco?
É uma educação racista que estão a oferecer aos seus telespectadores mirins?
É isso que estão a servir às crianças na Espanha, como espetáculo?
Além de esfolarem touros em arenas, esses selvagens agora matam simbolicamente um jovem negro, enforcando-o e arrancando-lhe a humanidade?
Como grandes empresas transnacionais continuam a ganhar dinheiro patrocinando este horrendo show de incivilidade?
O fizeram sempre porque sempre contaram com a conivência da sociedade e do poder público e com o medo daqueles que eles humilhavam.
O racismo é, desde sempre, uma relação de poder.
Há muitas pessoas poderosas respaldando o grito selvagem de cachaceiros de arquibancada.
MasVvini Jr meteu o pé na porta.
“Dizem que a felicidade incomoda, a felicidade de um peto, brasileiro, vitorioso na europa incomoda muito mais”, disse o craque em um vídeo postado em suas redes no ano passado, depois de ser escorraçado na imprensa e nas redes porque cultiva o despudor de dançar e sorrir enquanto aplica seus mágicos dribles em campo.
Com isso, Vini chamou todos os descendentes de escravizadores de frustrados, invejosos e infelizes.
Bingo!
“Respeite ou surtem. repito pra você, RACISTA, eu não vou parar de bailar”.
É uma porrada forte demais.
A estrutura sentiu.
Javier veio a público pedir desculpas a Vini.
O poderoso banco Santander já mandou dizer que não vai renovar o patrocínio a la liga.
A pecha de racista pegou, e pegou mal.
Tá todo mundo se coçando.
No ano que vem, a Espanha vai apresentar sua candidatura para sediar o mundial de 2030, junto com Portugal e Marrocos.
A coisa pode desandar.
Ninguém vai botar uma Copa do Mundo em um país carimbado como racista.
Agora, o mundo vai saber se a Espanha, realmente, não é mais racista ou se está apenas a tentar limpar sua barra e defender seus interesses econômicos.
O racismo, não nos esqueçamos, é uma relação de poder.
E vini jr mostrou-se um garoto poderoso.   
Nunca uma pessoa só, um único indivíduo, fez tanto pela luta antirracista como ele o fez agora.
Palavra da salvação.
 
Lelê Teles é jornalista, publicitário e roteirista (lele.teles@gmail.com)
 
¹ Aníbal Quijano foi um sociólogo e pensador humanista peruano, conhecido por ter desenvolvido o conceito de “colonialidade do poder”.
² Hernán Cortés de Monroy y Pizarro Altamirano, 1.° Marquês do Vale de Oaxaca foi um conquistador espanhol, conhecido por ter destruído o Império Asteca de Moctezuma II e conquistado o centro do atual território do México para a Espanha.
³ Francisco Pizarro González foi um conquistador e explorador espanhol que entrou para a história como “o conquistador do Peru”, tendo submetido o Império Inca ao poderio espanhol.
Compartilhe esta notícia