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A “Indústria 4.0” e o fim do mundo (do trabalhador)


Publicado em 15 de setembro de 2023
Por Jornal Do Dia Se


* Wellington Duarte

Inteligência artificial, computação em nuvem, big data, cyber segurança, internet das coisas, robótica avançada, manufatura digital, manufatura aditiva, integração de sistemas, sistemas de simulação e digitalização.
Quem, no seu dia a dia, não já se deparou com essas palavras? São palavras relacionadas diretamente ao que virou moda chamar de “indústria 4.0”, que é, na realidade, parte integrante da Quarta Revolução Industrial, que está presente nas estruturas sociais que organizam a sociedade nos dias de hoje, embora seus efeitos não sejam tão sentidos em grande parte da população, já que esta ainda vive sob a base material das revoluções industriais anteriores, o que não deixa de surpreender negativamente os que afirmam ter este novo formato de mundo já está totalmente disseminado em todo o tecido social.
Complexos sistemas digitais de controle amplo, impactam de forma profunda o trabalho socialmente combinado. Dessa forma o desenvolvimento tecnológico das forças produtivas se ancora, cada vez mais, na autonomização do trabalho morto sobre o trabalho vivo, a partir principalmente da automação e da sua relação com a indústria.
A tecnologia da automação trouxe à realidade máquinas automatizadas, que “possuem” vida e inteligência, artificiais é verdade, mas que cada vez mais interagem com o ser humano, fazendo tarefas que lhe caberiam. Parece que Metrópolis (1927) já avisava ao mundo o que significaria a entrada das maravilhas tecnológicas nas relações humanas e de trabalho e, como parte disso, a relação entre o Capital e o Trabalho.
Nessa revolução, no sentido lato, os conceitos de indústria 4.0 estão sendo desenvolvidos e aplicados nos países mais desenvolvidos, e replicados naqueles que estão processo de desenvolvimento integrado à divisão internacional do trabalho, muitas empresas já operam com 100% de sua produção fabricada no modelo de Indústria 4.0 e contam com um pequeno número de profissionais altamente qualificados.
Há, entretanto, algumas questões a considerar. Não podemos negar esse processo revolucionário e nem fechar os olhos para os efeitos desse processo, sob pena de sermos os “luditas do século XXI”, mas, por outro lado, mitificar o papel das novas tecnologias quase como algo cujo efeito é naturalizado, pode levar à complacência e a aceitação do ragnarok social.
É fato que o trabalho, como conceito, hoje se encontra numa nova encruzilhada, até porque a própria substituição do trabalho vivo, que gera valor, pelo trabalho morto, que incorpora o valor criado num processo anterior, pode fazer com que a sociedade, instigada pelos meios que banalizam esse processo, se mostre mais afeita a “adaptação” pura e simples ao robô, por exemplo, sem nenhum questionamento acerca do como esse valor, sob forma de riqueza, é distribuído.
Aqui vem a questão crucial da singela pergunta: quem ganha com a “indústria 4.0”? Ora, se para se ter uma permanente atualização dos processos produtivos desse compartimento industrial, são necessários altos investimentos em pesquisa e tecnologia, é muito provável que só as gigantes (conglomerados), se apropriem da nova riqueza, a informação, e a utilize no processo contínuo de modernização do seu parque produtivo, às expensas do trabalho.
Massas cada vez mais proletarizadas e jogadas no submundo desse novo mundo, deambulam por todas as grandes capitais. É o silêncio do derrotado, o trabalhador, ele mesmo “reconfigurado”, transformado em “colaborador”, perdendo sua essência, tornando-se uma coisa, ou seja, a concepção de custo-trabalho, se enraíza na complexa relação entre Capital e Trabalho, e o trabalhador se isola, se atomiza, deixa o coletivo, se refugia numa jaula que não tem grades.
O trabalho virou um substrato, uma massa disforme e deformada, manipulada livremente pelo Capital. O trabalhador mergulhou no inferno e saracoteia achando que está no paraíso.
A saída para esse destino trágico é a reconexão do trabalhador ao trabalho. Não se trata de um desvario ludita, mas de uma reconfiguração dos movimentos coletivos que coloquem o trabalho e o trabalhador no seu devido lugar: o criador da riqueza social.
Isso demandará esforços gigantescos, dado que o proletariado foi “apagado” até da academia e que movimentos coletivos de trabalhadores, são uma coisa considerada, até por certos setores progressistas, démodé.
E la nave vá.

Wellington Duarte, professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Rio Gande do Norte (UFRN), doutor em Ciência Política pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS) da UFRN; Pesquisador do Grupo de Estudos e Pesquisas em Espaço, Trabalho, Inovação e Sustentabilidade – Gepetis/UFRN, vice-Presidente do PROIFES-Federação e Tesoureiro do ADURN Sindicato.

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