O voto tem o mesmo peso na urna, mas o caminho até o eleitor passa por uma desigualdade que os números do TSE deixam à vista
* Emanuel Rocha
Tem uma coisa que sempre me chama atenção em época de eleição: a gente costuma dizer que todos os candidatos estão disputando em igualdade de condições porque, no fim, cada eleitor terá direito a um voto. É verdade. O problema é que a eleição não começa na urna. Começa muito antes dela, quando o candidato precisa ser conhecido, quando precisa aparecer, viajar, conversar com as pessoas, produzir material, manter equipe, alimentar as redes sociais e conseguir chegar onde o eleitor está. E aí a conversa muda um pouco.
Os próprios números do Tribunal Superior Eleitoral mostram isso com uma clareza que dispensa qualquer discurso de candidato. Quem quiser conferir pode entrar no DivulgaCandContas e olhar quanto cada campanha declarou. Não é informação escondida, nem cálculo de adversário. Está ali, disponível para qualquer cidadão. Na disputa pelo Senado em Sergipe, os números chamam atenção. André Moura, do União Brasil, declarou R$ 2.563.134,83; André Davi, do Republicanos, R$ 2.027.304,64; Coronel Rocha, do PL, R$ 250 mil; Delegado Alessandro, do MDB, R$ 3.297.385,00; Eduardo Amorim, do Republicanos, R$ 2.010.000,00; Edvaldo Nogueira, do PDT, R$ 3.040.650,00; Iran Barbosa, do PSOL, R$ 111.500,00; Rodrigo Valadares, do PL, R$ 3.035.000,00; Rogério Carvalho, do PT, R$ 1.799.476,08; e Renatinha, da Democracia Cristã, aparece com R$ 100.
É aí que eu paro para olhar novamente para essa história de igualdade na disputa. De um lado, mais de R$ 3,2 milhões. Do outro, R$ 100. Não estou dizendo que dinheiro compra eleição. Não compra. Se comprasse, bastaria fazer uma transferência bancária e dispensar a urna. Também não estou dizendo que quem tem pouco dinheiro não possa fazer uma boa campanha. Pode. A política brasileira está cheia de exemplos de gente que começou pequena e conseguiu chegar longe. Mas dizer que dinheiro não faz diferença é outra coisa. Faz. Uma campanha com milhões consegue montar uma estrutura que uma campanha de R$ 100 simplesmente não consegue montar. Pode contratar profissionais, produzir vídeos, circular pelo estado, organizar eventos, trabalhar as redes sociais, produzir material e manter uma equipe funcionando. Quem tem pouco dinheiro precisa escolher. Muitas vezes, precisa escolher entre coisas que o outro candidato consegue fazer ao mesmo tempo.
E não há nada de extraordinário nessa constatação. É assim que funciona uma campanha. O que chama atenção é a dimensão da diferença. Entre os R$ 3.297.385,00 declarados pela campanha que mais arrecadou e os R$ 100 da que menos arrecadou, a diferença chega a 32.973 vezes. Trinta e duas mil novecentas e setenta e três vezes. Quando a gente coloca esse número no papel, fica difícil não fazer a pergunta: que tipo de igualdade é essa?
Antes que alguém entenda a pergunta como acusação, não é disso que se trata. Os valores estão sendo apresentados como foram declarados pelas próprias campanhas no sistema da Justiça Eleitoral. O TSE disponibiliza essas informações justamente para que o eleitor possa acompanhar receitas, despesas, doadores e fornecedores. E talvez seja isso que esteja faltando em boa parte das discussões eleitorais: olhar menos para o discurso pronto e um pouco mais para os números.
Porque dinheiro não garante voto, mas ajuda uma candidatura a ser vista. E ser visto, numa eleição, já é uma vantagem considerável. Quem aparece todos os dias entra na conversa das pessoas. Seu nome circula, sua imagem fica conhecida, seu material chega, seus vídeos aparecem e sua candidatura passa a fazer parte da paisagem eleitoral. Quem não tem dinheiro precisa encontrar outros caminhos para chegar ao mesmo eleitor. E é aí que está a diferença que os números revelam.
No dia da eleição, ninguém vai entrar na cabine sabendo quanto cada candidato arrecadou. Naquele momento, o voto será exatamente igual. Um voto de quem tem muito dinheiro vale o mesmo que o voto de quem tem pouco. Só que o caminho até aquele voto não foi igual. É isso que os números do TSE nos obrigam a enxergar. Não é uma discussão sobre quem merece ganhar ou quem merece perder. Isso cabe ao eleitor. É uma discussão sobre as condições em que cada candidatura consegue chegar até ele.
No fim das contas, dez pessoas podem disputar a mesma cadeira no Senado, mas não necessariamente tiveram os mesmos meios para apresentar suas ideias, mostrar seus nomes e pedir o voto. A urna é igual para todos. A caminhada até ela, não. E, neste caso, basta abrir o site do TSE para perceber a distância.
* Emanuel Rocha é Historiador, poeta popular, escritor e repórter fotográfico


