A maniçoba poética de Edgar

 

Quando, em 2018, Ed
gar assombrou a cena 
trazendo verdades como "o futuro é uma criança com medo de nós", nem nos piores pesadelos era possível imaginar o que estava reservado para a humanidade. Pouco mais de um ano após a estreia do primoroso e premiado ‘Ultrassom’ (Deck/2018), o planeta seria varrido pela pandemia.
Edgar apresenta agora ‘Ultraleve’ (Deck/Natura Musical), álbum que enfileira nove faixas produzidas mais uma vez pelo parceiro Pupillo Oliveira. 
"Ultraleve é uma maniçoba poética, demora mais de cinco dias no fogo da vaidade, com a panela cheia de água e empatia, cozinhando todos os sentimentos atravessados por um corpo negro em uma sociedade programada para o excluir e o matar", diz o multiartista no texto de apresentação do trabalho.
Prato originário dos povos indígenas, maniçoba é a metáfora perfeita para as sensações que ‘Ultraleve’ provoca, desde a primeira audição. Tal qual a maniva (folha da mandioca), cujo preparo pode levar até uma semana, ‘Ultraleve’ requer calma e atenção. Assim como outras iguarias, não é no consumo rápido que se absorve suas propriedades: este é um disco que exige ouvidos abertos e sistema digestivo preparado. As palavras de Edgar são acidez pura, abrasivas, deboche curtido em PH baixíssimo.
Os beats e percussão de Pupillo acompanham esse cozimento, criando ambiências sonoras ora irônicas, ora melancólicas, mas sempre enérgicas. É bonito prestar atenção em como ele responde aos plot twists narrativos de Edgar, surpreendendo também na estrutura de cada faixa, criando transições inesperadas. É como se eles estivessem construindo a trilha sonora de um game distópico, subvertendo o passado do funk, desde Afrika Bambattaa, e desenhando paisagens que alternam climas de acordo com cada fase do jogo.
Os materiais recicláveis que aparecem nas criações visuais de Edgar surgem em ‘Ultraleve’ de outra maneira: objetos encontrados nas ruas de São Paulo por Edgar foram transformados em instrumentos e amplificados, adicionando efeitos à produção de Pupillo.
É desnecessário teorizar sobre a lírica de Edgar – cada um seus versos bate de um jeito. Mas há um discurso oculto em que vale botar reparo: ‘Ultraleve’ diz muita coisa nas entrelinhas de seus feats: Kunumi MC rima em guarani na faixa ‘Que A Natureza Nos Conduza’, e a cantora canadense Elisapie, uma artista e ativista inuíte, participa em ‘A Procissão dos Clones’ cantando em seu idioma nativo. Não é difícil ligar os pontos.
Não, não se sabe o que eles estão cantando. Nem Edgar sabe. E essa falta, esse diálogo ausente, ou interrompido, á exatamente o que está por trás da escolha das participações. A ausência também tem o seu lugar no discurso, exige tempo, atenção e digestão.
Foi avisado que levava tempo para a manic?oba ficar pronta. 

Quando, em 2018, Ed gar assombrou a cena  trazendo verdades como "o futuro é uma criança com medo de nós", nem nos piores pesadelos era possível imaginar o que estava reservado para a humanidade. Pouco mais de um ano após a estreia do primoroso e premiado ‘Ultrassom’ (Deck/2018), o planeta seria varrido pela pandemia.
Edgar apresenta agora ‘Ultraleve’ (Deck/Natura Musical), álbum que enfileira nove faixas produzidas mais uma vez pelo parceiro Pupillo Oliveira. 
"Ultraleve é uma maniçoba poética, demora mais de cinco dias no fogo da vaidade, com a panela cheia de água e empatia, cozinhando todos os sentimentos atravessados por um corpo negro em uma sociedade programada para o excluir e o matar", diz o multiartista no texto de apresentação do trabalho.
Prato originário dos povos indígenas, maniçoba é a metáfora perfeita para as sensações que ‘Ultraleve’ provoca, desde a primeira audição. Tal qual a maniva (folha da mandioca), cujo preparo pode levar até uma semana, ‘Ultraleve’ requer calma e atenção. Assim como outras iguarias, não é no consumo rápido que se absorve suas propriedades: este é um disco que exige ouvidos abertos e sistema digestivo preparado. As palavras de Edgar são acidez pura, abrasivas, deboche curtido em PH baixíssimo.
Os beats e percussão de Pupillo acompanham esse cozimento, criando ambiências sonoras ora irônicas, ora melancólicas, mas sempre enérgicas. É bonito prestar atenção em como ele responde aos plot twists narrativos de Edgar, surpreendendo também na estrutura de cada faixa, criando transições inesperadas. É como se eles estivessem construindo a trilha sonora de um game distópico, subvertendo o passado do funk, desde Afrika Bambattaa, e desenhando paisagens que alternam climas de acordo com cada fase do jogo.
Os materiais recicláveis que aparecem nas criações visuais de Edgar surgem em ‘Ultraleve’ de outra maneira: objetos encontrados nas ruas de São Paulo por Edgar foram transformados em instrumentos e amplificados, adicionando efeitos à produção de Pupillo.
É desnecessário teorizar sobre a lírica de Edgar – cada um seus versos bate de um jeito. Mas há um discurso oculto em que vale botar reparo: ‘Ultraleve’ diz muita coisa nas entrelinhas de seus feats: Kunumi MC rima em guarani na faixa ‘Que A Natureza Nos Conduza’, e a cantora canadense Elisapie, uma artista e ativista inuíte, participa em ‘A Procissão dos Clones’ cantando em seu idioma nativo. Não é difícil ligar os pontos.
Não, não se sabe o que eles estão cantando. Nem Edgar sabe. E essa falta, esse diálogo ausente, ou interrompido, á exatamente o que está por trás da escolha das participações. A ausência também tem o seu lugar no discurso, exige tempo, atenção e digestão.Foi avisado que levava tempo para a manic?oba ficar pronta. 

 

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