A PRESENÇA DE LAETE

 

* Jackson Barreto de Lima
Maria Laete Fraga colou grau pela Faculdade de Direito de Sergipe, na turma de 1966, ao lado de Albano Franco, Carlos Britto e Maria do Carmo Alves. Era uma vitória importante da menina pobre, itabaianense, filha de um feirante que vendia cereais no mercado de Aracaju. Crescera no bairro Santo Antônio, morando na rua Dom Quirino. Inteligente, estudiosa, aplicada. Começou naquele 1966 a história profissional da mais importante advogada de Sergipe, que já no início dos anos 70 do século XX atraía todas as atenções do mundo jurídico sergipano, pela sua competência e pela altivez com que se postava em defesa dos interesses dos seus constituintes, diante dos magistrados, dos membros do Ministério Público e dos seus pares da advocacia. O êxito profissional de Laete a fez requisitada por empresários, políticos e outros homens públicos que demandavam os seus serviços, dando a ela uma destacada visibilidade social. Prestígio que utilizava também para defender com a mesma competência os seus conterrâneos itabaianenses e os amigos dos tempos difíceis da vida humilde no bairro Santo Antônio.
A militância política me aproximou de Laete e nos fez amigos. Contei com os serviços profissionais da advogada em diferentes oportunidades, mas duas delas me foram particularmente marcantes. Em 1976 eu exercia o mandato de deputado estadual, quando o Exército realizou em Aracaju a chamada Operação Cajueiro. A repressão foi desencadeada em fevereiro, sob o comando do general-de-Brigada Adyr Fiúza de Castro, à época comandante da Sexta Região Militar. Prenderam arbitrariamente 25 jovens militantes políticos sergipanos, críticos da ditadura. Do grupo, 19 foram processados pela Justiça Militar, na Auditoria da Sexta Região, em Salvador. Eu fui um deles. Dois anos depois, em 1978, o processo não havia sido julgado. Quando eu me apresentei como candidato a deputado federal, meus adversários viram no processo por delito de opinião a oportunidade de banir a minha participação na vida pública. O julgamento aconteceu no dia 16 de agosto, no Forte São Joaquim, em Salvador. Acusados pelo procurador militar Kleber Coelho, fomos defendidos pelos advogados Jaime Guimarães, Luiz Humberto Agle, Inácio Gomes, Ronilda Noblat e Laete Fraga. Eu, Clarivaldo Lima, João Francisco Ocea, Edson Sales, Edgar Odilon Francisco dos Santos, Antonio Bitencourt, Virgílio de Oliveira, Asclepíades José dos Santos, José Soares dos Santos, Luiz Mário dos Santos, Pedro Hilário dos Santos, Marcélio Bonfim, Jackson Sá Figueiredo, Milton Coelho Carvalho, Delmo Naziazeno, Faustino Alves de Menezes, Antonio José Góes, Rosalvo Alexandre Lima e Francisco José dos Santos fomos absolvidos. Me elegi deputado federal com uma votação reveladora do apoio que recebi do povo sergipano. 
Em 1988, outra vez Laete Fraga exerceu um papel importante na minha vida política. É conhecido dos sergipanos o modo perverso e sórdido pelo qual os meus adversários, liderados pelo então governador Antônio Carlos Valadares, tentaram destruir a minha carreira política, com processos que me afastaram do mandato de prefeito que recebi do povo aracajuano e que, em última análise tinham a pretensão de banir a minha participação na vida política de Sergipe. 
Desde o início previ o script que seria cumprido. Denúncias ao Tribunal de Contas do Estado, encaminhamento dos processos à Polícia Civil, à época sem a estrutura que existe atualmente, sem delegados concursados, comandada pelo governador Valadares. Tudo era muito acintoso. O delegado que me ouviu e presidiu os inquéritos foi premiado com um cargo na Defensoria Pública do Estado e depois efetivado sem se submeter a concurso público. Por trás de todos os indiciamentos havia a influência do governador Antônio Carlos Valadares. Por tudo isto, não descuidei da minha defesa e busquei Laete Fraga que se associou a um outro reconhecido profissional do Direito – Evaristo de Moraes Filho. O trabalho de Laete foi fundamental para frustrar toda a armação política que se produziu contra a minha presença na vida pública.
A advocacia, hoje, é um terreno no qual a mulher exerce importância imprescindível. Laete desbravou este terreno num momento em que era rara a presença feminina. Com a morte dela, a advocacia sergipana perde o seu mais importante ícone das últimas décadas. Sou grato a Laete pelo seu trabalho como advogada, pela sua presença na vida sergipana, pela amizade, pelo convívio saudável que mantivemos durante tantos anos. Ficam as saudades. Ficam as boas lembranças. 
* Jackson Barreto de Lima, advogado, foi governador e vice-governador de Sergipe, prefeito de Aracaju por dois mandatos, deputado federal durante quatro mandatos, deputado estadual e vereador na capital do Estado.

* Jackson Barreto de Lima

Maria Laete Fraga colou grau pela Faculdade de Direito de Sergipe, na turma de 1966, ao lado de Albano Franco, Carlos Britto e Maria do Carmo Alves. Era uma vitória importante da menina pobre, itabaianense, filha de um feirante que vendia cereais no mercado de Aracaju. Crescera no bairro Santo Antônio, morando na rua Dom Quirino. Inteligente, estudiosa, aplicada. Começou naquele 1966 a história profissional da mais importante advogada de Sergipe, que já no início dos anos 70 do século XX atraía todas as atenções do mundo jurídico sergipano, pela sua competência e pela altivez com que se postava em defesa dos interesses dos seus constituintes, diante dos magistrados, dos membros do Ministério Público e dos seus pares da advocacia. O êxito profissional de Laete a fez requisitada por empresários, políticos e outros homens públicos que demandavam os seus serviços, dando a ela uma destacada visibilidade social. Prestígio que utilizava também para defender com a mesma competência os seus conterrâneos itabaianenses e os amigos dos tempos difíceis da vida humilde no bairro Santo Antônio.
A militância política me aproximou de Laete e nos fez amigos. Contei com os serviços profissionais da advogada em diferentes oportunidades, mas duas delas me foram particularmente marcantes. Em 1976 eu exercia o mandato de deputado estadual, quando o Exército realizou em Aracaju a chamada Operação Cajueiro. A repressão foi desencadeada em fevereiro, sob o comando do general-de-Brigada Adyr Fiúza de Castro, à época comandante da Sexta Região Militar. Prenderam arbitrariamente 25 jovens militantes políticos sergipanos, críticos da ditadura. Do grupo, 19 foram processados pela Justiça Militar, na Auditoria da Sexta Região, em Salvador. Eu fui um deles. Dois anos depois, em 1978, o processo não havia sido julgado. Quando eu me apresentei como candidato a deputado federal, meus adversários viram no processo por delito de opinião a oportunidade de banir a minha participação na vida pública. O julgamento aconteceu no dia 16 de agosto, no Forte São Joaquim, em Salvador. Acusados pelo procurador militar Kleber Coelho, fomos defendidos pelos advogados Jaime Guimarães, Luiz Humberto Agle, Inácio Gomes, Ronilda Noblat e Laete Fraga. Eu, Clarivaldo Lima, João Francisco Ocea, Edson Sales, Edgar Odilon Francisco dos Santos, Antonio Bitencourt, Virgílio de Oliveira, Asclepíades José dos Santos, José Soares dos Santos, Luiz Mário dos Santos, Pedro Hilário dos Santos, Marcélio Bonfim, Jackson Sá Figueiredo, Milton Coelho Carvalho, Delmo Naziazeno, Faustino Alves de Menezes, Antonio José Góes, Rosalvo Alexandre Lima e Francisco José dos Santos fomos absolvidos. Me elegi deputado federal com uma votação reveladora do apoio que recebi do povo sergipano. 
Em 1988, outra vez Laete Fraga exerceu um papel importante na minha vida política. É conhecido dos sergipanos o modo perverso e sórdido pelo qual os meus adversários, liderados pelo então governador Antônio Carlos Valadares, tentaram destruir a minha carreira política, com processos que me afastaram do mandato de prefeito que recebi do povo aracajuano e que, em última análise tinham a pretensão de banir a minha participação na vida política de Sergipe. 
Desde o início previ o script que seria cumprido. Denúncias ao Tribunal de Contas do Estado, encaminhamento dos processos à Polícia Civil, à época sem a estrutura que existe atualmente, sem delegados concursados, comandada pelo governador Valadares. Tudo era muito acintoso. O delegado que me ouviu e presidiu os inquéritos foi premiado com um cargo na Defensoria Pública do Estado e depois efetivado sem se submeter a concurso público. Por trás de todos os indiciamentos havia a influência do governador Antônio Carlos Valadares. Por tudo isto, não descuidei da minha defesa e busquei Laete Fraga que se associou a um outro reconhecido profissional do Direito – Evaristo de Moraes Filho. O trabalho de Laete foi fundamental para frustrar toda a armação política que se produziu contra a minha presença na vida pública.
A advocacia, hoje, é um terreno no qual a mulher exerce importância imprescindível. Laete desbravou este terreno num momento em que era rara a presença feminina. Com a morte dela, a advocacia sergipana perde o seu mais importante ícone das últimas décadas. Sou grato a Laete pelo seu trabalho como advogada, pela sua presença na vida sergipana, pela amizade, pelo convívio saudável que mantivemos durante tantos anos. Ficam as saudades. Ficam as boas lembranças. 

* Jackson Barreto de Lima, advogado, foi governador e vice-governador de Sergipe, prefeito de Aracaju por dois mandatos, deputado federal durante quatro mandatos, deputado estadual e vereador na capital do Estado.

 

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