A tomada do PTB pelo deputado federal Almeida Lima foi o fato mais comentado nas rodas políticas nos últimos dias. O partido que estava nas mãos do empresário Edivan Amorim foi tomado quase que de supetão, e agora integrará o bloco de sustentação do governo Marcelo Déda. "(o fato) Tem servido para baixar a crista da arrogância, o penacho da soberba, a aparência de dono do mundo e de que o dinheiro compra todas as consciências, ou de que, na política, todos se vendem", argumenta Almeida.
Ex-desafeto do primo Jackson Barreto, ele considera a reaproximação com o governador em exercício "um fato alvissareiro". Na entrevista concedida ao Jornal do Dia, Almeida Lima também fala das manifestações de rua ocorridas no país, de suas pretensões eleitorais e da proposta de reforma política. Leia na íntegra:
Jornal do Dia – Deputado, como foi a negociação para que o senhor assumisse o comando do PTB em Sergipe?
Almeida Lima- Não houve um negócio como se costuma falar em algumas hostes. Houve um entendimento político e, por isso, foi relativamente simples. Houve convergência de interesses. Eu já me sentia afastado do PPS, o que era do conhecimento de companheiros deputados do PTB. Por sua vez, ficou patente a insatisfação do PTB com o tratamento de "sigla de aluguel" que deram ao partido aqui em Sergipe. Confessaram-me que não era esse o papel que desejavam para o partido: uma sigla sem quadros, sem representação popular, sem candidaturas, sem projeto. Daí eu me reuni com o presidente nacional Benito Gama e nos entendemos quanto ao futuro do partido em Sergipe. Assumi a missão de organizá-lo como legenda que objetiva o poder, participando do processo eleitoral não como sigla de aluguel ou mero coadjuvante. O PTB estará inserido num processo eleitoral com candidaturas próprias para o parlamento e integrando alianças majoritárias, abrindo espaços que representem o fortalecimento da sigla, mas sempre em sintonia com o ideário do PTB nacional.
JD – O senhor quis dar um troco aos irmãos Amorim, que controlavam o PTB sergipano?
AL – Confesso que não tive em mente esse objetivo. Não pensei mesmo, mas, ao final, depois de concretizado, e, pensando bem, não é que serviu também para isso! Aliás, esse fato está funcionando como uma panaceia: o chá para todos os males. Tem servido para baixar a crista da arrogância, o penacho da soberba, a aparência de dono do mundo e de que o dinheiro compra todas as consciências, ou de que, na política, todos se vendem.
JD – É verdade que antes de seguir para o PTB o senhor tentou negociar o comando do diretório regional do MD, partido que está surgindo com a fusão do PPS e o PMN?
AL – Terminada a eleição de prefeito, e, de lá para cá, eu não falei com ninguém do PPS de Sergipe. Sigla de aluguel não me anima e nem faço política pensando em barganhar sinecuras, cargos para mim ou apaniguados. Faço política pensando em conquistar o poder pelo voto, nas ruas, para atender as demandas populares. Quanto ao sucedâneo, o MD, trata-se de um natimorto. Vem como mais uma sigla circunstancial, sem perspectiva de poder, sem projeto para o Brasil. Em Sergipe eu fui procurado por "não sei quem", figuras que nunca tinha visto na política, mas que, essa semana, numa reportagem de televisão, os vi batendo palmas para João. Tá aí a explicação: eu faço política, não faço de partido instrumento de negociata.
JD – O senhor já anunciou que o PTB estará na base do governo e poderá apoiar a candidatura de Jackson Barreto (PMDB) ao governo do Estado. Como estão essas negociações?
AL- Que fique claro: anunciei que esse é o caminho natural da sigla aqui em Sergipe, mas não significa que essa seja uma decisão automática. Estamos caminhando a passos largos para isso. O PTB nacional é um partido que está na base de sustentação do governo PT-PMDB, e essa é uma posição que, naturalmente, deve refletir em todo pais e, em especial, aqui em Sergipe. No mais, a minha reaproximação de Jackson Barreto e vice-versa é um fato alvissareiro, promissor para a política em Sergipe. O nosso afastamento ocorrido há 17 anos foi uma desinteligência que não deveria ter ocorrido, pois só fez bem aos nossos adversários que aplaudiram e gostaram muito, e muito ruim para Sergipe.
JD – O senhor já vinha conversando com Jackson há algum tempo. Há condições de o relacionamento voltar ao patamar das décadas de 80 e 90 quando os senhores eram aliados incondicionais?
AL – Claro que sim, e isso é fácil de acontecer, pois ambos se conhecem e conhecem os defeitos e as virtudes recíprocos. Acho até que ambos se completam.
JD – No ano passado quando o senhor desistiu de sua candidatura a prefeito de Aracaju, o senhor disse que iria repensar a carreira política. Seus planos para 2014 já estão definidos? O senhor vai disputar vaga para a Assembleia Legislativa ou a reeleição?
AL – Repensei muito e o meu desolamento com o povo vinha sendo enorme. Não aceitei nem compreendi a omissão do povo de Aracaju, o seu desinteresse pela discussão essencial da política que se resume ao debate da eficiência no atendimento das demandas sociais, e é para isso que serve o poder, e a questão ética e moral na vida pública. Nada disso o povo quis discutir e afirmou que isso era baixaria. Fiquei desolado. Confesso que para mim a política tinha perdido o sentido de ser. Quem me conhece e convive comigo sabe que falo a verdade, pois nesse período chutei muitos "paus de barraca". Agora sinto um alento vendo o povo exigindo o que eu defendia na eleição passada. A frase que estamos lendo e ouvindo diariamente é que "O BRASIL ACORDOU!" Fico feliz! Afinal, antes tarde do que nunca! Mas será mesmo que o nosso povo acordou? Vamos aguardar a próxima eleição e conferir, pois se se diz que alguém ACORDOU, pressupõe-se que esse alguém estava dormindo. Ou não é verdade? Nesses tempos de manifestações populares, o Hino Nacional é peça recorrente do arsenal patriótico. Mas nele está o verso "deitado eternamente em berço esplêndido", e isso me deixa preocupado, pois dormir nesse país é histórico. Quem não se lembra da canção "Vai Passar" do Chico Buarque quando diz "Dormia a nossa pátria mãe tão distraída sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações". Portanto, dois fatos novos: o povo nas ruas e o PTB. Logo, repenso o repensar e a política volta a ser, para mim, um ideário de vida.
JD – Qual a avaliação que o senhor faz desses protestos pelo País. A presidente Dilma está entendendo o recado das ruas?
AL- Os protestos são essenciais para a democracia. A mediocridade da elite dirigente levou à falência as nossas instituições. Refiro-me não apenas aos políticos, mas à elite sindical, à do judiciário, acadêmica, intelectual, artística, religiosa, econômica… O povo tem que dar essa injeção de ânimo e apontar o norte a seguir. Tudo no Brasil deve ser repensado, a partir da refundação do próprio Estado. Carecemos de um modelo de estado que atenda à nossa realidade de país (território) e de nação (povo, cultura…) e, por isso, o povo deve continuar nas ruas da mesma forma que se encontra: sem a organização ou o patrocínio de partido político, nem de central sindical, nem de centro acadêmico, nem de intelectuais. Todas essas organizações estão fora porque estão falidas, não representam ninguém. A verdade é que não souberam ser vanguarda, pois "quem sabe faz a hora e não espera acontecer", lembrando Geraldo Vandré. Aí foram para a retaguarda, seguem a reboque, na rabeira. Quanto a entender o recado eu acho que essa elite ainda não entendeu ou se faz de desentendida. Uns estão querendo "mudar" apenas na expressão de Tomasi di Lampedusa: "mudar para continuar como está".
JD – O senhor defende a realização de plebiscito para definir a reforma política?
AL- Defendi há mais de um ano. A mediocridade não ouviu. Justiça se faça ao deputado Miro Teixeira que na comissão que presidi também defendeu. A Câmara dos Deputados registra vários pronunciamentos que fiz fazendo a defesa de plebiscito por entender que os interesses pessoais e de grupos não permitirão alcançar maiorias no parlamento para deliberar a respeito. Nesse caso somente o povo é que pode decidir e determinar que o parlamento regulamente de acordo com a sua vontade preestabelecida. Portanto, defendo o plebiscito vinculante, sempre obediente à vontade do povo.
JD – Qual seria a reforma política ideal?
AL- A que estabeleça as condições necessárias para que a manifestação popular através do voto seja a mais democrática e legítima. Somente dessa forma é que se estará cumprindo o princípio democrático que afirma que o poder emana do povo. A reforma precisa atender a esse objetivo. Assim eu entendo que o eleito deve ser aquele que recebe o maior número de votos; que não haja influência do poder econômico; que não exista a molecagem das pesquisas; que o poder público não seja instrumento eleitoral, e assim por diante…


