Chico Freire
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A deputada estadual Ana Lúcia (PT) acusa o grupo do empresário Edvan Amorim, que controla 11 partidos no Estado, da tentativa de transformar o governo refém da sua própria visão. "Edvan tem o conceito de grande empresário, mas que não possui grandes empresas em seu nome, não ocupa nenhum cargo público, mas consegue liderar um agrupamento político que pertence a diversos partidos e que não apresenta à sociedade qual a sua concepção de Estado, qual o seu projeto estratégico, e quais são os seus programas. Essa é uma liderança política que atrai liderados de forma mágica", censura a deputada.
Em entrevista ao Jornal do Dia, ela lamenta que o governo Marcelo Déda não venha tendo capacidade de divulgar as ações positivas realizadas, permitindo que a oposição dê relevo às contradições e aos pontos negativos da gestão.
Leia a integra da entrevista da deputada estadual Ana Lúcia:
Jornal do Dia – Quais os pontos do Proinveste que a senhora discorda?
Ana Lúcia – Eu sou defensora desde o primeiro momento do Proinveste enquanto política pública de fomento ao financiamento de investimentos estruturais para o desenvolvimento do estado e, consequentemente, à geração de emprego e renda. Entendo que o Governo do Estado e a Assembleia Legislativa precisam ouvir a sociedade sergipana e os movimentos sociais através da realização de audiências públicas para ouvir as demandas e sugestões de todos os segmentos da sociedade. Para que não seja algo definido por poucos e que trará impacto para a vida de milhares. A exemplo disso, eu entendo que não pode ficar de fora do Proinveste a construção de equipamentos da Universidade Federal de Sergipe no Sertão, voltados para as áreas das ciências agropecuárias; em Estância, voltados à engenharia, por se tratar de um polo industrial; e em Propriá, nas áreas de piscicultura, pesca e aquicultura. Isso permitirá que, de fato, se tenha desenvolvimento a partir da pesquisa, do trabalho de extensão universitária e do ensino.
JD – Por que a senhora é contra a construção da rodovia que vai ligar Pirambu a Pacatuba?
Ana – Eu não sou contra a construção dessa rodovia. O que eu defendo é a preservação da reserva biológica Santa Isabel. Além do mais, até agora os estudos de impacto ambientais apresentados são superficiais e muitos frágeis em suas justificativas.
JD – Quando a bancada de oposição defende essa obra e a senhora se posiciona contra não passa a impressão que a senhora, mesmo sendo da bancada do governo, esteja trabalhando contra o governo?
Ana – Eu trabalho para romper os conceitos provincianos, simplistas e reducionistas do papel do parlamentar, que tradicionalmente impõe aos parlamentares sergipanos a atrasada lógica dual de ser contra ou a favor, dos defensores do bem contra o mal, ou das bancadas do "sim senhor" e do "não senhor". Eu quero exercer em toda a sua plenitude um mandato parlamentar que, consciente e livremente, o povo me confiou. Eu sou petista, apoio o Governo de Marcelo Déda, mas tenho uma ação política propositiva.
JD – Nos meios políticos já se discute as eleições de 2014. Qual será a posição da agremiação política da qual a senhora faz parte com relação ao processo eleitoral?
Ana – A Articulação de Esquerda, na condição de tendência interna do Partido dos Trabalhadores, terá candidatura própria à Assembleia Legislativa e à Câmara Federal. Nós somos uma organização política de esquerda, com capilaridade e inserção em todo o estado de Sergipe, por isso queremos participar ativamente da discussão e definição da composição da chapa majoritária e da definição da política de alianças para 2014.
JD – Pelo o que vem se apresentando, o PT não terá candidato a sucessão do governador Marcelo Déda. O grupo da senhora vai "brigar" para que o partido tenha candidatura própria?
Ana – A articulação de Esquerda trabalha para o fortalecimento do Partido dos Trabalhadores. Esse debate sobre ter candidatura própria ou não deverá ser uma das pautas do Processo de Eleições Diretas do PT, que ocorrerá no segundo semestre deste ano.
JD – O Sintese tem nos últimos anos atribuído nota baixa ao governo com relação a Educação no Estado. O que leva o Sintese a "bater" de frente com um governo que ajudou a eleger?
Ana – As notas dos gestores públicos municipais e estadual não são atribuídas pela direção do Sintese. Em 2012, as notas foram conferidas por 3.244 professores da rede estadual e 7.054 das redes municipais de ensino do interior, ou seja, um universo extremamente representativo. O Sintese, enquanto instituição sindical, não elegeu nenhum governo. Os professores e professoras possuem constitucionalmente assegurados direitos políticos e título de eleitor, portanto, são livres para votar consciente ou inconscientemente em quem quiser. O Sintese é um sindicato educador, a sua prática do exercício cotidiano de liberdade e autonomia sindical está fazendo história em Sergipe, o que acaba desagradando diversos grupos políticos de plantão, sejam de direita, de centro ou de esquerda.
JD – Esse posicionamento do Sindicato que chegou a elaborar uma cartilha que acabou pautando a oposição não acaba contribuindo para colocar em cheque o governo do PT?
Ana – Existe um erro na formulação dessa pergunta, pois a cartilha que gerou polêmica foi produzida pela Articulação de Esquerda. Sindicato deve ser livre e autônomo, não é correia de transmissão de partidos políticos ou de governos. Por que exercer plenamente a liberdade de expressão e o direito de pensar está virando um estorvo em Sergipe? Que tipo de sociedade democrática queremos construir para as novas gerações em Sergipe?
JD – Como a senhora avalia esse segundo mandato do governo Marcelo Déda?
Ana – O governador Marcelo Déda tem trabalhado para criar as políticas estruturantes para o desenvolvimento do estado de Sergipe. Um exemplo disso é a geração de empregos formais, que atingiu o número de 87.867 entre 2007 e setembro de 2012, o que representa um salto de 10.785 empregos/ano gerados em 2006 para 19.213 em 2011. Além disso, o rendimento médio da família sergipana, por membro familiar, vem crescendo acima da taxa média do Brasil e do Nordeste. Em 2011, na comparação com o Nordeste, o rendimento médio de Sergipe já superou em 22% o da região. O acesso a bens por parte das famílias sergipanas também teve um crescimento significativo: o número de pessoas com acesso a internet era 71 mil em 2006 e passou para 176 mil em 2011 e a quantidade de domicílios com televisão saltou de 421 mil, em 2006, para 637 mil em 2011. Esses são apenas alguns dos exemplos que demonstram que o Governo Marcelo Déda planejou o modelo de desenvolvimento do estado e que seus investimentos têm sido revertidos em geração de emprego, distribuição de renda e acesso a bens, aspectos que trazem mudanças reais na vida das famílias sergipanas.
JD – Na avaliação da senhora, o que precisa mudar para que o governo atenda os anseios do seu programa?
Ana – É visível o esforço no trabalho desenvolvido pelo Governo de Sergipe para buscar adotar medidas que possam resolver os problemas críticos nas áreas da saúde e segurança pública, onde os desafios são imensos, os gargalos extremamente complexos e de difícil superação. O mesmo não se pode dizer da educação, pois nessa área as ações da Seed estão desconectadas das ações do Ministério da Educação e das formulações educacionais históricas dos educadores petistas. Para atender os anseios do seu programa, ele precisa também dialogar melhor com o servidor público, que é o grande implementador das políticas públicas, além de priorizar as demandas dos territórios, que é um trabalho fruto do orçamento participativo do seu governo.
JD – Em seis anos de gestão, o que o governo Déda deixou a desejar?
Ana – O governo Marcelo Déda não tem tido capacidade de divulgar as ações positivas realizadas e, portanto, a oposição tem dado relevo às contradições e aos pontos negativos da gestão. Outra questão é que o modelo de coalisão adotado pelo governo, sem nenhuma identidade ideológica entre os partidos aliados, fracassou. O que temos visto e assistido são as manobras do grupo liderado pelo Sr. Edvan Amorim, para transformar o governo refém da uma visão de um cidadão, o próprio Edvan, que tem o conceito de grande empresário, mas que não possui grandes empresas em seu nome, que não ocupa nenhum cargo público, mas que consegue liderar um agrupamento político que pertence a diversos partidos e que não apresenta à sociedade qual a sua concepção de Estado, qual o seu projeto estratégico, e quais são os seus programas. Essa é uma liderança política que atrai liderados de forma mágica. Parafraseando Cecília Meireles, talvez ele tenha um "doce mais doce que o doce da batata doce".
JD – Qual a avaliação da senhora sobre o governo de Dilma Rousseff?
Ana – A melhor avaliação é a do povo brasileiro, pois Dilma Rousseff é a presidenta melhor avaliada na história da república brasileira. Mesmo reconhecendo a competência da presidenta Dilma e todos os avanços da sua gestão, para que esta avaliação seja feita em sua totalidade, é preciso que se compreenda que ela faz parte de um projeto político e de governo do Partido dos Trabalhadores, iniciado com o governo Lula. Nos últimos 10 anos, os governos petistas trouxeram avanços e melhorias reais para o povo brasileiro e mudaram a história do país. Nesse período, o salário mínimo teve um aumento real de 70,7%, a taxa de desemprego registrou uma redução de 38,9%, houve uma queda de 37,3% na taxa de pobreza absoluta e um crescimento de 79,1% na taxa de geração de emprego formal. Esses dados refletem uma gestão que governa para o povo.
JD – O agrupamento da senhora foi contra a aliança do PT com o PSC e o grupo dos irmãos Amorim em 2010. Hoje se caminha para um possível entendimento entre PT e o DEM do prefeito João Alves Filho. Como vai se portar o seu agrupamento diante de uma possível aliança para as eleições de 2014?
Ana – Água e óleo não se misturam. As decisões do 4º Congresso do PT proíbem expressamente uma aliança do PT com o DEM. No Brasil, nós temos agremiações políticas com siglas de partidos e muito poucos partidos com perfis ideológicos definidos nos seus estatutos e documentos partidários. O PT se define como um partido de esquerda, socialista, democrático, de massa e comprometido com a defesa dos trabalhadores, enquanto que o DEM se apresenta como um partido de direita, neoliberal e comprometido com a manutenção dos privilégios das elites brasileiras. As alianças políticas do Brasil não podem continuar sendo movidas por interesses pessoais ou pontuais da conjuntura. A Articulação de Esquerda vai trabalhar politicamente para que as resoluções e deliberações do PT sejam respeitadas e cumpridas em Sergipe.


