Anestesistas do Cirurgia não recebem e podem parar

Milton Alves Júnior

A crise financeira e administrativa instalada há mais de um ano no Hospital de Cirurgia tem causado preocupação para milhares de usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) que assistem com ansiedade delicadas discussões públicas entre gestores e profissionais das mais diversas áreas que ainda seguem prestando serviço para a unidade hospitalar. Incomodada com possíveis críticas feitas por diretores do Hospital de Cirurgia (que é uma empresa privada – embora filantrópica), contra os anestesistas, a Cooperativa dos Anestesiologistasde Sergipe publicou nota oficial na manhã de ontem exigindo respeito junto à categoria. No comunicado os profissionais alegam que desde julho do ano passado enfrentam dificuldades no repasse de proventos referentes à produtividade, além da falta de pagamento salarial desde o último mês de dezembro.

No documento apresentado pela cooperativa, os trabalhadores lamentam que mesmo diante do desequilíbrio com o não recebimento de salários desde dezembro/2014 e produção por mais de seis meses, em que as famílias dos anestesiologistas estariam sendo penalizadas, a diretoria do Hospital Cirurgia divulgou informações esta semana com teor tendencioso e inverídico, criando descrédito relativo à atuação dos anestesistas que, pelo exposto, tem cumprido mais que as obrigações a despeito da grave crise financeira imposta pela direção do Hospital Cirurgia. Este impasse entre as partes têm causado medo aos pacientes que estão à espera de procedimentos cirúrgicos. O receio é que os anestesistas cruzem os braços e interrompam as demandas diárias por tempo indeterminado.

Moradora do município de Nossa Senhora das Dores, a costureira de renda Nívea Maria Pereira Lima disse já ter sido informada que atrasos na escala de produção cirúrgica podem afetar a programação da unidade. Essa notícia de corredores, segundo ela, vem aterrorizando todos os pacientes da capital e interior. Hoje, mais de 80% dos serviços realizados pelo Hospital Cirurgia correspondem a demandas do SUS. "Quem é que não fica preocupado com uma situação dessa? Até quem não está precisando do atendimento fica com medo porque pode necessitar e ao chegar aqui não ter assistência. O lugar não para de chegar carro do interior trazendo gente pra algum tipo de atendimento, e se realmente essa classe parar, a saúde ficará um caos, maior do que já está", declarou.

Conforme estatísticas dos anestesiologistas, mesmo diante dos constantes problemas estruturais e administrativos enfrentados pela categoria há mais de seis meses, diariamente os especialistas realizam mais de 20 procedimentos anestésicos no hospital. Ainda sobre os proventos de produtividade, a cooperativa enalteceu que no último mês de janeiro a Secretaria Municipal de Saúde, de Aracaju, realizou uma coletiva à imprensa onde garantiu ter repassado para o HC todas as verbas de serviços prestados com a participação dos recursos federal, estadual e municipal. Durante a apresentação o secretário de saúde, Luciano Paz, garantiu inclusive que os pagamentos referentes aos meses de outubro e novembro de 2014,mediante aferição,conforme Portaria 3410/2013 do Ministério da Saúde, foram pagos em janeiro.

Também aguardando atendimento, o agente de segurança particular, José Elias dos Santos, afirmou ter recebido a mensagem de possível interrupção dos serviços. Ele lamenta o fato e reivindica ajuda do Ministério Público Estadual (MPE). "Não se pode aceitar que esse tipo de situação continue tirando o sossego de nós trabalhadores que pagamos impostos altíssimos e não temos um atendimento que preste. Coisas de um país onde muitos erros são recorrentes e a justiça tenta tapar o sol com a peneira. Se continuar assim, onde vamos parar? Espero que alguma punição seja feita aqui porque se os anestesistas pararem, nada funciona no Cirurgia, e só quem vai sofrer é o povo, inclusive eu que espero ser atendido", destacou.

Por fim, a entidade ressaltou que possui 25 anos de atuação na rede pública e privada do Estado de Sergipe e que desde o último domingo, 01, teve seu contrato encerrado com o Hospital Cirurgia. Entretanto, em respeito à população e à diretoria da unidade, não houve nenhuma redução no quantitativo de profissionais. Não foi confirmado nenhum ato grevista ou fim imediato dos serviços. Até o fechamento desta matéria a direção do Hospital Cirurgia não se pronunciou sobre a réplica da Cooperativa dos Anestesiologistas de Sergipe.

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