* Miguel dos Santos Cerqueira
Nada aponta que no horizonte do após o impeachment se verá brilhar o sol resplandecente. Que uma era futurística de Positivismo redivivo, com a emergência do dístico "Ordem e Progresso" se estabelecerá no país.
O que se terá por certo será o esfacelamento das forças de Esquerda, cada uma indo para o seu lado, numa verdadeira babel, provavelmente numa guerra de acusações sem fim. Tudo como se fora uma tragédia anunciada desde a primeira eleição de Lula, quando se alimentou expectativas de que os segmentos de Esquerda, fossem eles os socialistas, os comunistas, os sindicalistas, os trotskistas, ecologistas, e aqueles egressos da Teologia da Libertação, que formaram o PT ou estiveram espalhados por partidos como, por exemplo, PDT, PCB, PCdoB e alguns poucos gatos pingados do PSB, de fato estivessem representados ou ascendessem ao comando da administração federal e pudessem implementar reformas estruturais no modelo social e no sistema político, reformas que sempre foram adiadas, seja por golpes de estado, seja pela não formação de maiorias.
Porém o que se viu em seguida à eleição e posse de Lula na presidência da República foi a divulgação da famosa "Carta aos Brasileiros", uma espécie de aceno às elites, aos segmentos oportunistas e à Direita para uma espécie de conciliação e conformação, uma verdadeira guinada à Direita. Houve uma frustração de grande parte dos segmentos de Esquerda, dos que são verdadeiramente Esquerda, não oportunistas que buscam o poder a qualquer preço, haja vista que o governo eleito, embora egresso do seu meio, não apontava na direção nem mesmo do reformismo político.
Desde aquele momento que alguns já previam a deblace, tendo em vista que a inflexão à Direita, por governos que se diziam de Esquerda, uma vez eleitos, a concessão a esquemas fisiológicos e oportunistas, em outros momentos da história, sempre descambou para a desmoralização completa, a inviabilização de revoluções ou mesmo reformas e, posteriormente, a ascensão de segmentos conservadores ou mesmo reacionários ao Poder. De fato alguns temiam que uma vez cedendo ao pragmatismo, seriam todos tragados e as possibilidades de um verdadeiro governo de Esquerda ficariam adiadas por décadas, quem sabe por séculos.
Efetivamente, com a emergência da "Carta aos Brasileiros", não foram poucos os que deixaram as hostes da militância petista ou no seu entorno, se sentiam traídos. Por outro lado, foram centenas e até milhares que aderiam ao governo e ingressam no PT, os adesistas de sempre, como, por exemplo figurinhas egressas dos governos da ditadura empresarial-militar. Alguns até mesmo não coravam quando se diziam socialistas desde o ventre materno. O PT, que já vinha se adequando as regras do jogo, desde então passou a se parecer com todos os demais partidos do espectro político nacional. Não obstante os que compunha a sua cumeeira, como se quisessem enganar a si mesmo, ainda acreditavam ou pensavam acreditar que o partido, que nasceu a partir das lutas sociais e organizado em células, era um partido verdadeiramente reformista.
Embora admitido ou tolerado à frente da administração da República, sem, contudo, de fato exercer o Poder de fato, posto que administração não se confunde com o exercício efetivo do poder, o PT e os seus membros não eram e jamais foram de fato aceitos pela aristocracia e pelos verdadeiros donos do Poder, no caso o grande empresariado, os banqueiros, os latifundiários, a alta burocracia estatal e a grade mídia, que só tramavam e aguardavam o melhor momento histórico para a desmoralização e defenestração daqueles pés-rapados, sem origem nem berço do comando da República. Como neófitos, o PT e os seus membros, se viram inebriados pelo glamour, foram se deixando enredar pelos mimos, achavam que estavam que toda aquele queimar de incenso e bajulações era o desnudar de preconceitos e não hipocrisia e cinismo, até que por fim foram definitivamente tragados pelos que supostamente cooptara.
Com sua deblace o PT arrasta toda Esquerda Marxista, Socialista, Trabalhista e também o que convencionou chamar de Nova Esquerda, uma vez que tendo renunciado até mesmo ao reformismo mais tacanho, se direcionando ao centro do espectro ideológico, ainda assim o PT é tido como sendo a maior força majoritária da Esquerda brasileira.
Quanto ao manietar e escorraçar as Esquerdas do jogo jogado na verdadeira política, tudo foi devidamente orquestrado, com o encadeamento de episódios de esganiçada guerra política e que agora quase que se conclui com a vitória do impeachment, mas que efetivamente deve terminar com a mais completa destruição moral do PT e das suas lideranças políticas. O processo em tudo guarda paralelo com outros eventos de fraude judiciária e desconstrução política de adversário na história.
Todo esse enredo de captura de um determinado grupo para desmoralização, o método utilizado, não tem nada de novo, não existe originalidade no front. Contudo a farsa ou tragédia só foi possível porque aqueles que se dizem de Esquerda, quase sempre, não leem e não estudam, não passando de ventríloquos, desconsideram as sapientíssimas lições da história.
De fato, se olharmos pelo retrovisor da história, apreenderemos que um dos mais emblemáticos exemplos de desconstrução, se deu nos meados da Idade Média, trata-se da desmoralização, o julgamento e a extinção da Ordem dos Templários, pelo Rei Felipe, o Belo, de França. Com o julgamento e condenação da Ordem o Rei pretendeu se apossar do Tesouro dos Templários e salvar a França da bancarrota financeira. De sorte que os Templários, sendo a mais forte, mais organizada e mais rica Ordem Religiosa Católica à época fora acusada injustamente dos piores crimes de então, a exemplo de, sodomia, práticas judaicas e islâmicas, usura, blasfêmia. Sob o comando do Rei e do Papa Clemente V, que fora "sequestrado" e se encontrava prisioneiro em Avignon, a Ordem dos Templários fora considerada herética e dissolvida, seus bens passaram para o domínio do governo da França e membros, após tortuoso processo, após submetidos a toda sorte de torturas, foram levados à fogueira. Assim o Rei Felipe, o Belo, pode se livrar dos seus mais fortes adversários assenhorar dos bens da Ordem e consolidar o seu poder à frente de um Estado Nacional fortalecido.
Também os chamados "Processos de Moscou", aqueles que aconteceram na Rússia no final da década de 1920 e na década de 1930, orquestrados por Josef Stálin e seus fiéis escudeiros, os mesmos guardam paralelismo com o nosso quadro político atual, com o impeachment. Todos aqueles episódios, aquelas farsas de julgamentos jurídico-políticos, que culminaram com a eliminação física de toda cúpula do antigo Partido Bolchevique, foram embasados em suposições e provas falsas ou acusações forjadas, inclusive, de colaboração com os nazistas. Tudo para que um grupo que efetivamente detinha a maquina partidária e controle do Estado, um grupo centrista e consorciado com remanescentes da burocracia do antigo regime, pudesse se desvencilhar daqueles que eram seus adversários.
Tanto nos chamados "Processos de Moscou" como agora no impeachment o que acontece e se persegue é um grande expurgo, uma defenestração de um determinado grupo que foi adjutório de um grupo centrista no domínio da administração. O desvencilhar-se é para que permaneça incólume o establishment. Para que se possa assegurar o do domínio e sobrevivência de uma velha aristocracia, que se via ameaçada pela formação de uma nova.
A similitude é grande entre o atual momento histórico e aqueles do passado próximo ou remoto, a exemplo do Processo de Proscrição dos Templários e dos Processos de Moscou. Também os grupos envolvidos naqueles e no atual processo do Impeachment, guardadas as devidas proporções e o distanciamento histórico. O que se revela gritante em todos eles é a ingenuidade ou o inebriamento dos que são defenestrados da esfera pública ou do domínio, daqueles que acreditavam serem os detentores da permanência ou do "carro das mudanças", uma vez tendo favorecido e assegurado favores ou transformações em benefício das maiorias.
Esses agrupamentos, ou pelo menos alguns dos seus líderes, sendo conscientes e estando convictos de que não incorreram nas acusações injustas que são arrostadas contra si, sempre as piores possíveis, acreditam piamente que ganharão a simpatia do povo, que esse prontamente se erguerá para defendê-los. Contudo se veem em palpos de aranha. Em nenhum momento, nunca foi assim. O que se vê nesses momentos de manipulação, mistificação e guerra política é que aqueles mesmos que anteriormente aplaudiam os que caíram em desgraças, são os que possam a acossá-los, ou como diria o poeta paraibano, Augusto dos Anjos: "a mão que afaga é a mesma que apedreja".
Não nos enganemos. Em seguida aos extermínios políticos e morais, aos expurgos, as e desmoralizações coletivas, a morte civil e expulsão da vida pública e até mesmo as extermínios físicos de adversários, conforme se pode depreender das lições da história, não se deu um arriar das armas, mas sim uma audaciosa caça às bruxas. Para as forças do establishment, para toda a camarilha que ascende ao comando da administração, que são na verdade os representantes dos verdadeiros donos do Estado e do Poder, a morte civil e política dos adversários não é o suficiente, se faz necessário o mais completo e eficaz extermínio, uma verdadeira limpeza, a fim de que não lhes ronde quaisquer ameaças.
De fato, salvo o engano, até porque não somos pitonisas ou algum Profeta de Baal, o que se seguirá após o impeachment, será um verdadeiro caça as bruxas e não um arriar das armas. Com delações, processos forjados, prisões arbitrárias e condenações com bases em provas falsas ou com base exclusivamente no domínio do fato, desfechados contra adversários e perdedores de sempre, ou seja, os militantes e apoiadores da Esquerda, uma vez que o impeachment nada mais é do desfecho de um enredo cujo "avant premiere" se iniciou com a eleição de Lula, aquele que foi consentido, porém jamais aceito, posto que não fosse um dos iguais àqueles da minoria que ocupar o andar de cima, além de tudo um "esquerdista", embora lhes fizesse todas as concessões, para ser tido como um daqueles ocupantes do andar de cima.
* Miguel dos Santos Cerqueira, Defensor Público, estudioso de filosofia, história e política e militante de Direitos Humanos, titular da Primeira Defensoria Pública Especial Cível do Estado de Sergipe. Telefone (79) 8874-0039- E-MAIL: migueladvocate@folha.com.br


