Inocêncio Nóbrega
D. Pedro não se preocupava em cuidar de sua saúde. De natureza impulsiva, extravagante fora da conta, em muitos atos de sua vida, especialmente particular, tornar-se-ia presa fácil da tuberculose, da qual tardiamente se defendia, já na cidade do Porto, para onde seguiu, forçado pelas circunstâncias políticas, medindo forças contra seu irmão, D. Miguel.
Em 1834 a moléstia se apossava, definitivamente, de seu combalido corpo, quando residia no Paço, de uma forma forte e rebelde, comprometendo a elegância adquirida quando de outros tempos. De olhar sem brilho, sua face pálida e magra, somava-se à fadiga do organismo. Ainda assim, preocupava-se com os negócios de Estado, também conturbado pelos rastros de uma guerra civil, embora a seu favor, impressionavam sua barba, agora mais enegrecida, e o porte mais enfraquecido.
Bastante diferente de seu estilo irrequieto, desfrutando uma mocidade de aventuras amorosas, causando-lhe atropelos morais e de vigorosidade, advindo a bronquite. Eram abundantes os sintomas, sem que fossem detectados pela medicina, fatores que ocasionaram repetidas crises. Pulmões comprometidos, incessantes tosses, de mãos trêmulas e magras, quadro que se apressou, rapidamente, rumo a sua morte, a 24 de setembro daquele ano, sendo sepultado três dias depois.
Reportagem especial do jornal “Estado de S. Paulo”, alusivo ao Sesquicentenário da Independência, nos traz o respectivo laudo da autópsia, sobre o qual resumimos. Diz, então: “gravíssimas lesões; hidrotórax do saco pleurítico direito, contendo duas e meia libras de um líquido turvo e sanguinolento. A pleura esquerda, nada se continha de líquido; aderência de pleura pulmonar à costa, em grande extensão; pulmão esquerdo aderente à pleura costal, de cor denegrida; sem aparência vesicular. Coração um pouco maior que o estado normal, flácido e decorado, com alguma aderência na sua parte posterior; as válvulas examinadas, sem alterações; rins um tanto esbranquiçados, se apresentavam em estado de amolecimento, encontrando-se um cálculo no rim esquerdo”.
O coração do Imperador esteve em visita ao Brasil, nestas festas bicentenárias. Em 1972, não foi fácil a extração dos restos mortais, transladados e aqui repousam. Usou-se uma chave, que só a Câmara Municipal tinha o poder de guardá-la, para retirada dos parafusos fixados na pesadíssima placa, que os encobria. Antes, duas chaves, a fim de romperem a grade de ferro, que fez girar as dobradiças, abrindo-se, com cuidado, o lado direito do recinto. Novos procedimentos, até alcançar-se o pretendido alvo, assistidos pelo Mesário de Nª Srª da Lapa, devidamente paramentado, em cuja igreja se achava.
Inocêncio Nóbrega, jornalista.

