Brigas, bebedeira, muita baderna, feridos e um assassinato em Capela

Jornalistas que faziam a cobertura da festa também foram atacados. Foto: Reprodução/TVAtalaia

Gabriel Damásio

Brigas, poluição sonora, bebedeira, muita baderna, gente ferida e uma morte violenta. Esse foi o saldo do último dia da Festa do Mastro, tradicional festa de comemoração ao São Pedro, em Capela (Agreste). Durante todo o dia de domingo, foram dezenas de relatos de lutas corporais e agressões físicas entre grupos de foliões que aparentavam estar embriagados e descontrolados, além de ataques a jornalistas que cobriam a festa. Uma das brigas resultou no assassinato do representante comercial Denisson Marques Melo, 38 anos, morador da cidade, que morreu após ter o pescoço cortado com uma garrafa quebrada.
O crime aconteceu por volta das 16h30 de domingo na Avenida Benjamin Constant, em Capela, numa área que estava um pouco afastada do cortejo do Mastro, mas estava tomada por paredões de som alto. No meio da rua, grupos de foliões começaram a se provocar e atirar lama uns contra os outros. A rixa evoluiu para três momentos de enfrentamento, onde os arruaceiros trocavam socos e corriam. Imagens gravadas por telefones celulares mostraram que Denisson estava tentando apartar a briga quando recebe um violento empurrão acompanhado de um soco no rosto. O vendedor caiu desmaiado, mas foi logo cercado por pelo menos oito homens, que lhe dão vários chutes. Um dos envolvidos se agacha e golpeia o pescoço da vítima com a garrafa. As pessoas se desesperam e tentam socorrer Denisson, que perdeu muito sangue e acabou morrendo no local.
Após o crime, a Polícia Militar obrigou todos os paredões de som alto e trios elétricos a desligarem seus aparelhos, determinando o encerramento da festa em toda a cidade. Alguns baderneiros chegaram a ser detidos. Em seguida, os primeiros suspeitos de participação na morte de Denissoncomeçaram a ser identificados e presos por equipes do Comando de Policiamento Militar do Interior. Ao todo, 11 suspeitos foram presos em endereços de Capela e de Aracaju. O último deles, Pablo Alexandre Cerqueira Santos, o ‘Zóio de Gato’, 25, foi encontrado na casa dos pais, no bairro Santa Maria (zona sul da capital), e confessou o crime. Em depoimento ao delegado Wanderson Bastos, na sede do Centro de Operações Policiais Especiais (Cope), Pablo alegou que estava bêbado na festa e que teria acertado a garrafada em Denisson para “se defender” de uma agressão que sofreu durante a briga. O suspeito foi autuado em flagrante e é investigado como o principal autor do homicídio.
O corpo de Denisson Marques foi velado e sepultado ontem em Capela, cidade onde nasceu e morou por toda a vida. Em um texto publicado nas redes sociais, a filha mais velha do representante, Emmily Marques, afirmou que o pai sempre participava da Festa do Mastro e curtia a festa pacificamente, mas se envolveu na briga para defender uma pessoa dos arruaceiros. “Esse B.O. não era seu, painho, mas você com a mania de defensor assumiu ele. Hoje ouvi que tudo tem um propósito, que a Justiça vai ser feita e que isso é provação. Qual propósito de levar um pai de quatro filhos, sendo três deles criança? A Justiça vai ser feita? Qual Justiça? Vão prender quem tirou a vida dele e tá tudo certo? A vida do meu pai vai provar o quê? Que não deve se meter em briga dos outros? Por que, se for, realmente essa provação é irrelevante, porque ele se meteu, agiu na bondade e na coragem e mesmo assim pagou com a vida. Se provar algo, só prova que não vale a pena ter um bom coração”, lamentou ela.

Agressões – O assassinato de Denisson Marques está sendo investigado pela Delegacia de Capela, que também abriu inquérito para investigar o ataque sofrido por equipes de jornalistas que faziam a cobertura da Festa do Mastro. Profissionais da TV Sergipe e da TV Atalaia estavam no alto de um minitrioe acabaram atingidos por pedras, garrafas, cacos de vidro e calçados atirados por outros arruaceiros infiltrados entre os foliões. O repórter Genildo Góes, que atuava para os programas de entretenimento da Atalaia, teve a camisa rasgada e levou uma a pedrada na testa. Já a repórter Jessika Cruz, da equipe de jornalismo da mesma emissora, foi atingida no olho com outra pedra. Ambos tiveram apenas ferimentos leves.
O delegado Wanderson Bastos relembrou que já foi advogado de profissionais da imprensa e irá atuar para a elucidação das agressões sofridas pelos jornalistas em Capela. “A imprensa livre significa a democracia em sua essência. A maior expressão da liberdade é a de expressão. Não há democracia sem a imprensa livre”, disse ele. As duas emissoras cederam imagens gravadas pelos cinegrafistas no momento do ataque, o que já permite a identificação de alguns agressores. Mas a Polícia pede a colaboração de pessoas que tenham mais informações sobre eles, através do Disque-Denúncia, no telefone 181. O sigilo do denunciante é garantido.
Em nota, o Sindicato dos Jornalistas de Sergipe repudiou as agressões e criticou a falta de segurança durante o andamento da festa. “Seguindo no sentido contrário daquilo que é historicamente aguardado por milhares de pessoas, em determinado trecho do trajeto, populares deram início ao arremesso de pedras, pedaços de madeira e garrafas de vidro em meio à lama e barro contra jornalistas. (…). Este tipo de atitude não é cultura, não é folclórico, e não é compatível com o brilho histórico que a festa do mastro de Capela proporciona há mais de oito décadas”, diz a entidade, lamentando ainda “o perceptível baixo efetivo da Segurança Pública” no local.

Compartilhe esta notícia