CENAS DA DITADURA PARA QUEM NÃO A CONHECEU E A DESEJA DE VOLTA

Ditaduras têm uma característica bizar-ra, quase surrealista: Sofrem de permanente síndrome de pânico. Quando, mais poderes discricionários a ditadura acumula, ou seja, ao se exacerbar a ânsia totalitária, mais medos e suspeitas existem entre os seus integrantes. O ditador desconfia da própria sombra, os que o cercam, desconfiam-se entre si. A surda competição por mais espaço na hermética estrutura autoritária faz com que todos se empenhem numa disputa que acaba em autofagia coletiva. Como animais ferozes na selva, uns vão engolindo os outros.
Quando em 73 chegou a Sergipe o capitão de corveta Eduardo Pessoa Fontes, atravessávamos o auge da ditadura, que, desde 13/12/68 estava entrincheirada no Ato Institucional nº 5.  Retrocedíamos ao absolutismo com a supressão das garantias e liberdades individuais, o Congresso e algumas Assembleias, entre elas a de Sergipe, em compulsório recesso. O Ato previa confisco sumário de bens, banimento de brasileiros ou estrangeiros indesejáveis, e até estabelecia a pena de morte.
Após o AI -5 criou-se a Comissão Geral de Inquérito, que tinha subcomissões em cada estado.
Ao Capitão dos Portos, além das tarefas rotineiras, acrescentava-se uma outra: a chefia da CGI. O capitão Eduardo padecia de algum distúrbio psíquico.  Transformou a Capitania dos Portos numa réplica furiosa de soturno Tribunal da Inquisição. Cercado de promotores, contadores e advogados requisitados entre servidores públicos, começou a convocar pessoas vistas como suspeitas para serem ouvidas em inquéritos que instaurava. Os promotores públicos Heli Soares Nascimento e Carlos Leite, todavia, conseguiram evitar que o ensandecido militar ampliasse o rol das suas arbitrariedades.
O truculento oficial mandou trazer, preso, da sua casa até à Capitania, no dia 8 de dezembro de 73, um jornalista, acusando-o de estar a serviço do senador Leandro Maciel, porque, no Diário de Aracaju, jornal dos Diários Associados, do qual era editor, houve, ao que se constatou depois, um erro de impressão cometido por um dos linotipistas e engolido pelo revisor.  Na matéria intitulada ¨Comissão Apura Venda de Terrenos de Marinha¨, produzida pelo hoje desembargador Osório Ramos, que era um dos principais redatores do jornal, em vez de ¨de marinha¨, saiu ¨da marinha¨. O comandante entendeu que o jornalista o chamara de ladrão, e que isso seria resultado das artimanhas do senador Leandro, cujo mandato ele queria cassar. O jornalista nunca, em qualquer tempo, sequer conversara com Leandro, e ao ser ameaçado pelo militar furibundo, os promotores Carlos Leite e Heli Nascimento conseguiram aplacar-lhe a ira, explicando-lhe certos aspectos da política sergipana que ele, obviamente, desconhecia.
O capitão desesperara-se por ter convocado Leandro à Capitania e recebido de volta um bilhete ríspido e altivo, assinado pelo senador. Demorou, até o oficial de patente inferior compreender que Leandro era ¨homem da revolução¨, amigo do Marechal do Ar Eduardo Gomes e do general sergipano Humberto Melo, comandante do 2º Exército.
Revoltado por não ter podido punir a todos que desejava, retornou à rotina numa base naval do Rio de Janeiro. Ajeitou uma pistola Colt-45 na boca e disparou, pondo fim aos seus atormentados e atormentadores dias.
Antes, porém, imaginando-se senhor do feudo sergipano, entrou em colisão com os comandos militares, mais duramente com a agência local do SNI, o temido Serviço Nacional de Informações, chefiado pelo general reformado Graciliano Nascimento. A briga foi feia, e só terminou quando Cazuza, como era conhecido, valeu-se das suas amizades ¨estreladas¨, das quais constava um contemporâneo na escola Militar do Realengo, o poderoso general Figueiredo.
Foi do general Cazuza a frase que correu o Brasil: ¨Em Sergipe quem entende de teatro é a Polícia¨, dita quando ele era secretário de Segurança em 65, após prender um grupo de teatro carioca do qual fazia parte o artista plástico sergipano Luiz Adelmo.
Os ¨tempos revolucionários¨ que alguns pedem de volta, foram sempre pontilhados de barbaridades misturadas com sandices e episódios grotescos. 21 anos de poder militar-civil em bases autoritárias, teriam de revelar, também, aspectos positivos na administração e desenvolvimento do país, mas isso não justifica a opressão, a força, o império das baionetas. Nenhuma conquista material compensa a perda da liberdade, a renúncia ao direito de pensar e agir livremente.
Ditadura é o regime onde só se grita quando se está apanhando, e se apanha porque se grita, por coisa fundamental: o direito de reclamar contra tudo o que se achar errado.
As democracias se desencaminham, às vezes nos metem vergonha, mas nelas a gente grita, e não aparecem aqueles, pagos pelo Estado para nos sufocar o grito.
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Para entendimento do autoritarismo no Brasil e em Sergipe, é fundamental a leitura dos 4 volumes do jornalista Élio Gaspari: A Ditadura Envergonhada, A Ditadura Escancarada, A Ditadura Encurralada e A Ditadura Derrotada. A Tutela Militar em Sergipe, do historiador Ibarê Dantas, Os Ícones de um Terremoto, do professor Paulo Barbosa, e o AI-5 em Sergipe, do advogado Gilton Garcia.

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