Milton Alves Júnior
Faltando apenas uma semana para o Dia das Crianças o comércio central de Aracaju assiste ao retrocesso de vendas mais significativo dos últimos cinco anos. Paralelo à crise econômica que assusta os brasileiros, a alta inflação dos produtos tem contribuído para afastar os consumidores das lojas e permitir que os estoques permaneçam aglomerados de brinquedos. Como se não bastassem as ações nacionais que mexem com o bolso do consumidor, o parcelamento dos salários dos servidores públicos estaduais e da Prefeitura de Aracaju ajuda a gerar mais prejuízos para o setor comerciário que, por se tratar de uma data representativa, acreditava em aumento nas vendas.
As lamentações expostas verbalmente por vendedores e empresários de lojas instaladas no Centro de Aracaju se contextualizam com as perspectivas apresentadas pela Câmara dos Dirigentes Lojistas de Aracaju (CDL). Com base em estudos da Confederação Nacional do Comércio (CNC), a previsão para as vendas dedicadas ao Dia das Crianças deste ano é de queda real na casa dos 2,8%. Ciente do momento de ampla vulnerabilidade econômica dos lojistas sergipanos, a direção da CDL destaca este período de outubro como o quarto mais importante do calendário do varejo nacional, devendo movimentar R$ 4,3 bilhões neste ano. Em 2014 a queda nas vendas já havia registrado a casa dos 1,5% se comparado ao mesmo período de 2013.
Para evitar problemas ainda maiores, os comerciantes começam a apresentar descontos que chegam à casa dos 70% para compras à vista. Já no caso das compras parceladas, na tentativa de não perder vendas o setor apresenta melhores condições de pagamento, inclusive com aceitação de cheques. Fato esse extinguido por empresários há mais de dez anos em decorrência do alto índice de inadimplência. Atuante no mercado central há 42 anos, Maria Nancy Ramos, proprietária de duas lojas de calçados, disse não entender o motivo de sucessivas regressões nos lucros. Diante do atual cenário vivenciado pelo setor, a empresária disse já ter demitido quatro funcionários nos últimos três meses.
"Antes a gente contratava profissionais temporários para tentar atender a demanda de clientes, mas hoje o que vemos é a necessidade de demitir alguns dos funcionários com carteira assinada para tentar não decretar falência. As vendas estão ruins agora e já estamos nos segurando para o período de final de ano. Talvez outro período de vendas sem lucro a gente não aguente", afirmou. Desde 2010, o comércio vem desacelerando o respectivo ritmo de crescimento para esta data. Nos anos anteriores, as expansões foram de 3,15% (2013), 4,83% (2012), 5,91% (2011) e de 8,5% (2010). Ainda segundo estudos realizados pela CNC, outros setores comerciais devem apresentar significativas reduções nas vendas.
Desde o final dos anos 90 as unidades de hipermercados estão se fortalecendo para conquistar os clientes que buscam, por exemplo, presentes de artigos como: roupas, calçados, material escolar e os tradicionais brinquedos. Apesar dos esforços administrativos e midiáticos, este ano a perspectiva é de redução em 2,8%, se comparado a 2014. A Câmara dos Dirigentes Lojistas ainda acredita em redução de 3,2% no vestuário, e surpreendentes 12,3% nos departamentos de livrarias. Caso os consumidores permaneçam se poupando na hora de comprar e estes estudos financeiros se concretizem, 2015 pode apresentar a maior queda nas vendas infantis dos últimos oito anos.
Em meio às dores de cabeça dos empresários, a greve dos bancários chega para atormentar aqueles mais otimistas. Sem fluxo financeiro nas agências bancária em atuação no Estado de Sergipe, com exceção do Banese, a tendência é de ampliação na evasão de clientes. A decisão de paralisação geral foi a notícia menos aguardada por lojas que já amargam prejuízos. Sem muitas opções a adotar em caráter de urgência o empresário Valmor Sampaio apela para medidas pouco utilizadas nos 38 anos de mercado. "Estou realizando cadastros e cadernetas para pagamento posterior. Faço isso com pessoas próximas, mas mesmo assim nunca havia feito. Se a situação já é preocupante, o jeito é arriscar. Quando a greve acabar estes clientes de confiança me pagam", lamentou.

