Kátia Azevedo
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As sucessivas intervenções humanas no Baixo São Francisco, principalmente às relacionadas à construção e operação de barragens, preocupam pesquisadores que foram surpreendidos esta semana com noticias relacionando à diminuição de vazão do rio por causa da longa estiagem que assola a região.
Para especialistas, a frequência de baixas no rio tem sido um fato antigo e muito preocupante, desde a criação das barragens ao longo do curso do rio na década de 70. Luiz Carlos Fontes, coordenador do Laboratório de Geo, Rio e Mar (Georioemar) do Departamento de Engenharia de Pesca da Universidade Federal de Sergipe, lembra que estas mudanças romperam o equilíbrio dinâmico natural do sistema fluvial no São Francisco. "Estamos passando por um período de inversão do regime natural do Rio São Francisco, fato muito preocupante", observa.
Luiz Carlos destaca que devem ser levadas em conta as mudanças provocadas a partir da construção e operacionalização do complexo e barragens no São Francisco, como o desencadeamento de processos de erosão marginal acelerada no curso do rio, o que causa sérios impactos ambientais.
Sobre a influência da seca em relação ao índice pluvial do rio, Luiz Carlos pondera. "Há uma coincidência entre a estiagem e a baixa vazão nos reservatórios. A vazão baixa é decorrente da decisão sobre a operação das barragens, com a retenção da água para a geração de energia", explica. Ele lembra que março é o período natural de cheias, mas com o controle de vazão nas barragens para a energia elétrica, o rio apresenta baixa vazão.
Cerca de 75% do deflúvio do São Francisco é gerado em Minas Gerais, cuja área da bacia responde por apenas 37% da área total. A área compreendida entre a fronteira Minas Gerais-Bahia e a cidade de Juazeiro, na Bahia, representa 45% do vale e contribui com apenas 20% do deflúvio anual, máxima pluvial a partir de março, e mínima em setembro, dois meses após o mínimo pluvial de julho.
O período das cheias ocorre de outubro a abril, com altura máxima neste mês, no fim da estação chuvosa. As vazantes são observadas de maio a setembro, condicionadas à estação seca.
Situação do rio – O que seria um período de cheias, se vê um rio com baixa vazão. Na região do baixo São Francisco, entre os estados de Sergipe e Alagoas, onde o rio era caudaloso, a paisagem mudou. Ilhas surgem ao longo do Velho Chico, que está cada dia mais raso. A navegação está comprometida. As balsas que fazem a travessia entre os dois estados já não seguem em linha reta, precisam mudar o roteiro para não encalhar.
Os bancos de areia se espalham por quase toda extensão do baixo São Francisco, mas há trechos em que a imagem é ainda mais impressionante. Em plena foz, onde agora existe um imenso banco em formação, a profundidade era de nove metros.
O rio virou pasto para os animais das fazendas próximas e pescadores caminham com a água no joelho. As lagoas que ficam às margens do rio secaram e algumas espécies de peixes ficaram sem lugar para reproduzir. O cenário representa tristeza para os ribeirinhos que têm na pesca o único sustento. A previsão é que o Rio São Francisco vai baixar 9 metros em alguns pontos.
Em janeiro deste ano, o rio São Francisco apresentou o menor nível de vazão dos últimos 82 anos, de acordo com a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf). No perímetro Propriá, o mais afetado deles, foi realizado o desassoreamento do canal de adução das estações de bombeamento para colocar em operação mais um conjunto de eletrobomba. Segundo a Companhia Hidroelétrica do São Francisco, o Reservatório de Sobradinho atingiu sua pior afluência naquele mês, com um armazenamento de apenas 23,4% de seu volume útil.


