Crônicas da Musicais:Band'Auê

 

O Jornal do Dia pu
blica a partir de 
hoje, sempre às quartas, uma série de artigos assinados pelo jornalista Antonio Passos. São textos ambientados nos anos de formação de uma empolgante cena musical sergipana, tão modesta quanto barulhenta,nos quais Passos relata o que viu e viveu de perto, no calor do momento.
***
No segundo semestre de 1983, um grupo de alunos da Escola Técnica Federal de Sergipe resolveu apresentar um show no auditório da escola, com o objetivo de arrecadar grana para a realização de uma festa de despedida do ano letivo.
Depois de aproximadamente um mês de ensaios diários, o grupo, ainda sem nome, subiu ao palco no dia 06 de dezembro. A abertura do show ficou por conta da música "Anunciação", de Alceu Valença, iniciada por um violão adequado para o uso de cordas de nylon, porém munido de cordas para violão folk, que na tentativa de reproduzir o som de um contrabaixo soou como um berimbau. Nesse ritmo prosseguiu a apresentação, com uma mistura de composições dos integrantes da banda e de sucessos da MPB.
Devido à total inexperiência dos músicos e a uma grande deficiência em relação aos instrumentos usados durante o show, o som produzido não correspondia completamente às expectativas da banda, mas, mesmo assim, conseguiu derreter o gelo do ambiente escolar e arrancar aplausos da plateia.
Uma vez que o objetivo maior da apresentação era conseguir uma boa arrecadação na bilheteria e ainda não existia a pretensão de formar uma banda permanente, todas as colaborações foram aceitas. Muitas pessoas participaram, cada um tentando impor seu estilo ou influências, de maneira que o show não atingiu uma uniformidade musical.
Alguns dias depois, houve uma reunião, com a participação de Sergival, Joaby, Passos (o autor deste texto), Marcos e Gilberto, que foram os organizadores e mais ativos participantes do show, onde o assunto em pauta foi a continuação do trabalho de maneira estruturada.
Iniciaram-se novos ensaios, e no dia 04 de maio de 84, o grupo voltou ao mesmo palco, desta vez anunciado como: Grupo Musical Banda’Auê. Outras apresentações, em outros locais, foram acontecendo. Porém, as discordantes concepções musicais dos componentes, herança da forma como surgiu a banda, provocavam muitos conflitos e atrapalhavam o desenvolvimento do trabalho.
Nesse período, passaram brevemente pela Banda’Auê: Ribamar, Elcyr e Sílvia (alunos da ETFSe). Zelda (compositora que tem participado de festivais locais) e João Batista (percussionista e compositor, com participação anterior em shows do circuito alternativo local). Afastei-me logo em seguida do grupo e, quase simultaneamente, passou a integrar a banda Joao Sena. Veio um período de quase inatividade total. Saiu por último Joaby.
Uma nova fase de estruturação estava iniciada, tanto em nível de trabalho quanto de instrumentação, que foi fortalecida com as entradas de Emerson e, posteriormente, Reginaldo. Finalmente, a Banda’Auê parece agir em conjunto, o que ficou claro quando todos responderam em coro "sim", ao lhes ser perguntado se o regionalismo chega a ser a proposta principal da banda.
Atualmente eles têm feito várias apresentações em eventos promovidos pelos órgãos governamentais responsáveis pela cultura e pelo turismo, com o objetivo principal de divulgação do trabalho, uma vez que: "os cachês pagos são ínfimos" – afirmou Emerson – não dando para pagar, na maioria das vezes, nem as despesas e nem a manutenção dos instrumentos.
A Banda’Auê reclama ainda da indiferença direcionada a eles por parte dos responsáveis pela organização dos eventos, que insistem em taxá-los de iniciantes e, apoiados nessa afirmação, não dão chance para a participação da banda nas melhores oportunidades para um grupo regional, como por exemplo, representar Sergipe em nível nacional.
Isso fica resumido na seguinte frase pronunciada por Marcos: "simplificando tudo, os órgãos culturais usam a Banda’Auê como tapa-buracos. O futuro é obscuro". Os sonhos são comuns à maioria das bandas: divulgar o trabalho por meio do disco, o reconhecimento por parte do público e consequentemente a profissionalização. Mas, por enquanto, a preocupação maior é com o presente. "No momento, é só tocar", diz Gilberto.
No repertório, eles ainda cultivam a manutenção de alguns sucessos da MPB, pois acham que o público local, em geral, não tem estrutura para escutar e valorizar um trabalho inédito. Mas, a confiança nessa possibilidade é total, como afirma Senna: "só falta espaço, pois trabalho, nós temos pra mostrar".
Publicação original em:
Pipiri – O Jornal da Cultura, Aracaju, maio de 1987.

O Jornal do Dia pu blica a partir de  hoje, sempre às quartas, uma série de artigos assinados pelo jornalista Antonio Passos. São textos ambientados nos anos de formação de uma empolgante cena musical sergipana, tão modesta quanto barulhenta,nos quais Passos relata o que viu e viveu de perto, no calor do momento.

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No segundo semestre de 1983, um grupo de alunos da Escola Técnica Federal de Sergipe resolveu apresentar um show no auditório da escola, com o objetivo de arrecadar grana para a realização de uma festa de despedida do ano letivo.
Depois de aproximadamente um mês de ensaios diários, o grupo, ainda sem nome, subiu ao palco no dia 06 de dezembro. A abertura do show ficou por conta da música "Anunciação", de Alceu Valença, iniciada por um violão adequado para o uso de cordas de nylon, porém munido de cordas para violão folk, que na tentativa de reproduzir o som de um contrabaixo soou como um berimbau. Nesse ritmo prosseguiu a apresentação, com uma mistura de composições dos integrantes da banda e de sucessos da MPB.
Devido à total inexperiência dos músicos e a uma grande deficiência em relação aos instrumentos usados durante o show, o som produzido não correspondia completamente às expectativas da banda, mas, mesmo assim, conseguiu derreter o gelo do ambiente escolar e arrancar aplausos da plateia.
Uma vez que o objetivo maior da apresentação era conseguir uma boa arrecadação na bilheteria e ainda não existia a pretensão de formar uma banda permanente, todas as colaborações foram aceitas. Muitas pessoas participaram, cada um tentando impor seu estilo ou influências, de maneira que o show não atingiu uma uniformidade musical.
Alguns dias depois, houve uma reunião, com a participação de Sergival, Joaby, Passos (o autor deste texto), Marcos e Gilberto, que foram os organizadores e mais ativos participantes do show, onde o assunto em pauta foi a continuação do trabalho de maneira estruturada.
Iniciaram-se novos ensaios, e no dia 04 de maio de 84, o grupo voltou ao mesmo palco, desta vez anunciado como: Grupo Musical Banda’Auê. Outras apresentações, em outros locais, foram acontecendo. Porém, as discordantes concepções musicais dos componentes, herança da forma como surgiu a banda, provocavam muitos conflitos e atrapalhavam o desenvolvimento do trabalho.
Nesse período, passaram brevemente pela Banda’Auê: Ribamar, Elcyr e Sílvia (alunos da ETFSe). Zelda (compositora que tem participado de festivais locais) e João Batista (percussionista e compositor, com participação anterior em shows do circuito alternativo local). Afastei-me logo em seguida do grupo e, quase simultaneamente, passou a integrar a banda Joao Sena. Veio um período de quase inatividade total. Saiu por último Joaby.
Uma nova fase de estruturação estava iniciada, tanto em nível de trabalho quanto de instrumentação, que foi fortalecida com as entradas de Emerson e, posteriormente, Reginaldo. Finalmente, a Banda’Auê parece agir em conjunto, o que ficou claro quando todos responderam em coro "sim", ao lhes ser perguntado se o regionalismo chega a ser a proposta principal da banda.
Atualmente eles têm feito várias apresentações em eventos promovidos pelos órgãos governamentais responsáveis pela cultura e pelo turismo, com o objetivo principal de divulgação do trabalho, uma vez que: "os cachês pagos são ínfimos" – afirmou Emerson – não dando para pagar, na maioria das vezes, nem as despesas e nem a manutenção dos instrumentos.
A Banda’Auê reclama ainda da indiferença direcionada a eles por parte dos responsáveis pela organização dos eventos, que insistem em taxá-los de iniciantes e, apoiados nessa afirmação, não dão chance para a participação da banda nas melhores oportunidades para um grupo regional, como por exemplo, representar Sergipe em nível nacional.
Isso fica resumido na seguinte frase pronunciada por Marcos: "simplificando tudo, os órgãos culturais usam a Banda’Auê como tapa-buracos. O futuro é obscuro". Os sonhos são comuns à maioria das bandas: divulgar o trabalho por meio do disco, o reconhecimento por parte do público e consequentemente a profissionalização. Mas, por enquanto, a preocupação maior é com o presente. "No momento, é só tocar", diz Gilberto.
No repertório, eles ainda cultivam a manutenção de alguns sucessos da MPB, pois acham que o público local, em geral, não tem estrutura para escutar e valorizar um trabalho inédito. Mas, a confiança nessa possibilidade é total, como afirma Senna: "só falta espaço, pois trabalho, nós temos pra mostrar".

Publicação original em:Pipiri – O Jornal da Cultura, Aracaju, maio de 1987.

 

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