CULTURA, ARTE E TRANSFORMAÇÃO SOCIALNA BAHIA DE TODOS OS SANTOS

Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos

Entre os dias 29 de novembro e 1 de dezembro, o Grupo de Pesquisa “O Som do Lugar e o Mundo”, liderado pelo Prof. Dr. Milton Moura (Universidade Federal da Bahia – UFBA), realizou o “I Colóquio de Cultura, Arte e Transformação Social”, nas dependências do Café Teatro Nilda Spencer (Fundação Gregório de Mattos – Rua do Couro, Barroquinha – Salvador-BA). Um lugar histórico, rústico e muito bonito, reformado e inaugurado no dia 7 de outubro de 2019. Nilda Oliva César (1923-2008) foi uma atriz soteropolitana, de grande destaque na cena cultural da capital baiana, entre os anos 50 e 80, além de participações marcantes em filmes a exemplo de “Dona Flor e seus Dois Maridos” (1976), no papel de Dinorah.
Em razão de outros compromissos de trabalho, só puder estar no evento no dia 29, quando pude ser agraciado de várias formas. Primeiro, em rever e voltar a conviver presencialmente com meus amigos e colegas do grupo “O Som do Lugar e o Mundo”, aqui representados por Milton Moura e Magnair Barbosa (PMSFC). Em seguida, por conhecer pessoalmente, cerimoniado pelo Prof. Dr. Armando Castro (UFRB), o Prof. Dr. Fred Góes (UFRJ), uma das minhas principais referências, desde 2016, quando desenvolvo pesquisa no campo da música e do Carnaval Trieletrizado da Bahia, particularmente, da banda Trio Elétrico Armandinho, Dodô e Osmar.
Fred Góes fez uma riquíssima fala sobre a autorreferencialidade do samba, notadamente do Rio de Janeiro, desde suas origens oficiais, enquanto produto cultural da indústria fonográfica, com “Pelo telefone” (1917), de Donga, até o tempo presente. Góes, autor de vários livros, dos quais destaco “O país do Carnaval elétrico”, de 1982, falou de sua relação com a Bahia, sobre o momento salutar que a UFBA vive sob a reitoria do professor Paulo César Miguez de Oliveira e de sua parceria musical com Moraes Moreira.
Inspirado na canção “O samba de minha terra”, de Dorival Caymmi (1940), a fala de Fred Góes “boliu” com os presentes. À luz de suas memórias de infância, quando foi influenciado por sua cuidadora a gostar de samba, frequentando a Rádio Nacional, no Rio de Janeiro, levou seu interesse por música para o mundo acadêmico, defendendo uma tese de doutorado sobre Gilberto Gil, para a resistência e antipatia de muita gente: “Gil engendra em Gil rouxinol, a letra da canção em Gilberto Gil” (Doutorado em Teoria Literária pela UFRJ).
Fred Góes disse que aprendeu samba na cozinha, e que, via de regra, esse tipo de gênero musical se traduz por ser uma espécie de grande guarda-chuva ou pálio, aberto e sujeito à transformações. Por isso mesmo, não pode ser o lugar de chegada e tão pouco de saída, mas de atravessamento, de trânsito, como numa roda de samba, que é, para ele, absolutamente democrática e inclusiva.
Seu interesse em sua comunicação “Todo mundo bole: samba e autorreferência” foi o de provocar perguntas, posto que é um trabalho ainda em construção. Mas, em geral, inquieta nele o interesse em saber como e por que o samba faz de suas canções o assunto de si mesmo, como se fosse uma autoanálise, a exemplo de “A Voz do Morro”, de Zé Keti (1955), que me veio à mente enquanto Fred falava, sobretudo em razão dos versos: “Eu sou o samba / a voz do morro, sim senhor!”.
À tarde, sob a coordenação da Prof. Dra. Miranice Moreira (UFOB), lamentando a ausência da Profª. Drª. EdileceCoutro (UFBA), com COVID-19, tive a oportunidade de participar de uma mesa redonda fiz a seguinte comunicação “Balança o chão da praça”: a rua como lugar de afirmação cultural do Carnaval Trieletrizado da Bahia”. O evento contou ainda com participação de diversos pesquisadores e convidados do grupo “O som do lugar e o mundo” e reabriu as atividades presenciais, na esperança que a pandemia, enfim, dê espaço à produção do conhecimento, às artes e à cultura.

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