Gabriel Damásio
gabrieldamasio@jornaldodiase.com.br
"Somos policiais porque é necessário, porque sabe-mos a importância essencial do nosso trabalho e porque não vamos admitir que os cidadãos decentes fiquem sitiados, enquanto os maus prosperam. Quando estiver lendo este texto, a qualquer instante que o faça, lembre que policiais estarão lá fora lutando para garantir a sua paz". É um trecho do artigo escrito na última terça-feira pelo delegado-geral da Polícia Civil, Alessandro Vieira, para rebater às fortes críticas recebidas pela Secretaria da Segurança Pública (SSP), após os assassinatos do cobrador de ônibus David Barbosa e do delegado de polícia Ademir Melo Júnior.
Considerado um dos quadros mais experientes da SSP, defendeu firmemente o trabalho de planejamento e integração das polícias e ressaltou que tal diretriz conseguiu reduzir o ritmo de crescimento dos homicídios em Sergipe, conforme dados divulgados nesta quinta. E defende que este trabalho precisa ser mais conhecido pela sociedade, principalmente pelos críticos.
Alessandro recebeu o JORNAL DO DIA em seu gabinete logo após a divulgação dos dados e tratou destes assuntos. Um dos principais foi repercussão da frase "Não há motivo para pânico", referente ao aumento da criminalidade em Sergipe e dita na entrevista coletiva sobre as investigações da morte do delegado. Ela inspirou uma charge de capa publicada no neste jornal, em sua edição de quarta-feira. O desenho do chargista Edidelson foi até digitalizado pelo delegado, que garante ter se divertido com ela. "Foi uma crítica feita com humor, sou fã do trabalho do Edidelson", disse ele, com um leve sorriso.
A seguir, os principais trechos da entrevista.
ANÁLISE DOS DADOS
As reuniões de trabalho e planejamento estratégico são feitas semanalmente. Todas as terças-feiras, a cúpula da Polícia Civil e da Polícia Militar se reúnem com o comando da SSP, avaliam os dados e as ações realizadas, traçam novas metas e fazem as correções. O resultado desse trabalho integrado está sendo um ataque à criminalidade nos pontos onde rela se faz mais forte, com a consequente redução dos indicadores, principalmente de homicídios – que são o nosso principal alvo. Está muito longe do resultado que nós desejamos, mas a gente só vai chegar lá caminhando de forma estável e organizada, mostrando ao governo os recursos.
CRIMES DE
REPERCUSSÃO
São situações com as quais nós temos que lidar, mas temos os dados mostrando com clareza a forma como o trabalho está sendo realizado e o objetivo ao qual queremos chegar. Há poucos dias, teve uma reportagem de uma emissora de TV local, onde foram apresentados cinco ou seis casos de homicídios graves e trágicos que ocorreram na Grande Aracaju. Todos eles foram elucidados e todos os envolvidos foram presos, e isso a matéria não mostrou. Esse tipo de conduta da imprensa acaba fortalecendo o sentimento de insegurança do cidadão. É preciso que o cidadão tenha conhecimento de que, primeiro, a polícia está trabalhando de forma consistente e técnica. Esse trabalho é acompanhado. Temos reuniões periódicas com o Ministério Público e o Poder Judiciário, que nos fazem sugestões, acompanham o que estamos fazendo e têm dado seu aval ao nosso trabalho. No caso do crime que não consegue ser evitado pelo policiamento ostensivo, a Polícia Civil vai e faz seu papel de tentar trazer o criminoso às grades, o que vem acontecendo como rotina. Repito: o nosso objetivo é reduzir os indicadores e fazer com que menos pessoas morram no Estado de Sergipe. No ano passado, foram mais de 1.200 pessoas [assassinadas].
MAIS RECONHECIMENTO
(sobre o artigo escrito e publicado pelo delegado-geral logo após o enterro do delegado Ademir Melo, na última terça-feira, no qual diz que é preciso reconhecer a atividade policial)
Foi uma reflexão sobre a situação histórica das polícias no Brasil, principalmente, mas na América Latina em geral. Enquanto nos países ditos ‘mais desenvolvidos’, você tem a autoridade policial valorizada, no Brasil é diferente: o policial é chamado no momento de necessidade e desespero, mas não recebe apoio e aval das pessoas que têm poder para tratar de sua situação. A manifestação que fiz é uma tentativa de mostrar para a comunidade, para sociedade e também para os policiais a qualidade do que é feito, a decência das pessoas que estão envolvidas com isso e a possibilidade que todos têm de ter acesso às informações.
FALTA CONHECIMENTO
No dia em que eu me der, por exemplo, ao desfrute de opinar sobre o trabalho da imprensa, eu vou procurar entender como ela funciona. Tentarei saber quem são os profissionais de imprensa que estão trabalhando, se eles recebem os recursos adequados para fazer seu trabalho, e daí vou fazer uma opinião sobre o tema, se eu achar que eu posso. Com a segurança pública, vem sendo o contrário. As pessoas não sabem do que estão falando, ostensivamente e claramente não querem saber do que estão falando, querem apenas fazer uma manifestação midiática, ocupar espaço na imprensa, ‘aparecer um pouquinho mais’ na mídia, e fazer isso em cima da crítica vazia ao trabalho da Segurança Pública.
SUGESTÕES
BEM-VINDAS
Os dados estão aí mostrando, a forma como esses dados vêm sendo conseguidos e os resultados sendo construídos, nos mostram que existe um planejamento, um trabalho inteligente de definição de alocação de recursos humanos e materiais. Isso tudo precisa ser visto pela sociedade, até para que ela possa fazer correções. A gente não está imune a falhas. Podemos ter várias coisas erradas e que podem ser solucionadas. Pode ter alguém de fora do corpo da Polícia que tenha uma ideia maravilhosa e nos ajude, qualquer ideia vai ser bem-vinda. Eu acabei de receber um professor-doutor da Universidade Federal de Sergipe [UFS] que ofereceu um melhor mecanismo de análise dos nossos dados. Vamos abraçar a ideia dele. O cidadão de bem, de boa vontade, que tiver qualquer cobrança ou interesse em saber o que está acontecendo e em colaboração, será bem-recebido. O oportunista terá sua resposta na forma e no momento mais apropriado. Judicialmente, quando for necessário.
PRIORIDADE
NO INVESTIMENTO
É efetivamente indispensável que o governo estadual, o federal e os municipais também, em suas searas, compreendam a urgência de se priorizar investimentos na área de segurança pública. Precisamos garantir que o policial vá às ruas em condição de fazer frente à criminalidade crescente em todo o Brasil. Para isso, precisamos de recursos. É preciso frisar, para não ser injusto, que foi este governo [Jackson Barreto] quem realizou os concursos públicos da Polícia Militar, da Polícia Civil e da Perícia [Coordenação Geral de Perícias, Cogerp], que aguardavam por mais de uma década pela realização. É este governo que está fazendo as nomeações destes profissionais. Então, isso precisa ser reconhecido, porque se eu parto da premissa falsa de achar que nada está sendo feito, estou cometendo injustiça, e isso não é do meu feitio. Só que mais precisa ser feito e estamos na convicção de que o governo terá todo um esforço esse ‘mais’ seja feito e que a gente possa trazer, o mais rápido possível, mais segurança para o sergipano.
OUTRAS MORTES
DE POLICIAIS
No caso da morte do cabo Arnaldo [Mendonça, morto em junho de 2015 no bairro Coqueiral], temos uma situação de possível latrocínio. Indivíduos que têm provável envolvimento com o crime foram presos ao longo tempo, mas ainda não existe definição específica. Vários outros casos que infelizmente vitimaram policiais militares foram elucidados. Se tivemos quatro ou cinco militares vítimas de violência com a perda de suas vidas, em mais da metade dos casos nós tivemos sucesso na investigação, prendemos marginais ou marginais acabaram morrendo em confronto. O seio da Polícia Militar sabe perfeitamente do empenho que se tem. Então, é preciso verificar essas investigações a fundo. O Departamento de Homicídios tinha cinco equipes e aumentou para nove, sem nenhum custo aos cofres públicos. O resultado de 100% a gente busca, mas nem sempre se consegue sucesso.
DELEGADOS X OFICIAIS
(sobre a crítica feita pelo presidente da Associação dos Delegados de Polícia, Paulo Márcio Cruz, aos oficiais da Polícia Militar, acusados de não se engajarem no policiamento de rua)
Não afeta em nada o trabalho de integração que as polícias Civil e Militar vêm fazendo. É a manifestação de uma opinião individual, que não reflete o entendimento da gestão e nem reflete o entendimento da maioria das pessoas. A gente vê isso dentro da normalidade democrática, como que algo não corresponde à nossa ideia. As pessoas são livres para se manifestar.
MOTIVOS PARA PÂNICO?
Continuo com a mesma opinião e a frase permanece intacta: ‘Não há motivo para pânico, há motivo para muito trabalho’. Acho até que faltou essa parte da frase na charge (risos). Pânico não serve para nada. Tomado pelo pânico, o cidadão fica imobilizado ou toma a decisão errada. Aqui, nós somos profissionais e não podemos entrar em pânico, temos que trabalhar e é isso que estamos fazendo, em prol da segurança do cidadão sergipano. Eu vejo [a repercussão da frase] como uma crítica normal. A violência está presente no cotidiano das pessoas, elas se sentem agredidas diariamente. Elas abrem o jornal, ligam a TV, ouvem o rádio e o tempo inteiro tem notícias violentas de todo o estado, do país, às vezes do mundo. E isso vai contaminando o ambiente do cidadão. Compreendo perfeitamente isso, mas a minha função aqui é profissional, e como profissional de segurança, eu tenho que dar uma resposta sóbria e eficiente no trabalho.


