Gabriel Damásio
O sargento Edgard Menezes, dirigente da Associação dos Militares de Sergipe (Amese), vai responder em liberdade ao processo judicial que foi aberto ontem contra ele na 6ª Vara Criminal de Aracaju (Auditoria Militar), sob acusação de ter abandonado seu posto de trabalho – o que é considerado crime militar. Preso na manhã de sábado por oficiais ligados ao comando da Polícia Militar, durante uma reunião com dirigentes das associações de classe, Edgard chegou a ser mandado para o Presídio Militar (Presmil), no Getúlio Vargas (zona central), mas foi solto na tarde de domingo, por força de um habeas-corpus expedido pela juíza plantonista Hercília Maria Fonseca, da Comarca de Aracaju. O processo segue agora para a análise do representante do Ministério Público.
Antes de ser mandado ao Presmil, o sargento havia passado a tarde de sábado na sede da Corregedoria da PM, bairro Siqueira Campos (zona oeste), prestando depoimento e aguardando os relatos de testemunhas e dos policiais que fizeram a detenção – incluindo o major Eliziel Rodrigues, chefe de operações do Comando de Policiamento da Capital (CPMC). Após estes depoimentos já no começo da noite, o corregedor-geral da PM, tenente-coronel Márcio Daltro de Almeida, deu voz de prisão a Edgard e mandou-o para os exames de corpo delito no Hospital da Polícia Militar (HPM), bairro 18 do Forte. No HPM, o sargento teve uma crise de pressão alta e ficou internado até a tarde de domingo, quando recebeu alta e passou pelo Presmil.
Durante esse tempo, ele foi acompanhado por colegas de farda, representantes das outras associações militares, dois advogados, políticos de oposição ao governo estadual e pela esposa, Karla, que está grávida de sete meses. Todos eles protestaram contra a prisão do dirigente da Amese e a atribuíram o fato ao que foi classificado como "perseguição" do governo e da cúpula da polícia. Alguns até culparam o "militarismo exacerbado" da corporação pelo que consideram como "injustiça".
Ontem, o próprio sargento Edgard afirmou que foi à sede da Amese naquele horário para aproveitar o horário de almoço – de duas horas – e deixar um documento com ideias referentes ao andamento do projetos de lei que estão em discussão no âmbito do governo do estado. "No meu horário de almoço, eu peguei o meu carro particular e, ao invés de ir logo almoçar em um restaurante, resolvi passar na sede da Amese, deixar estas ideias, para depois eu ir almoçar ou pedir um lanche na companhia. Mas fui surpreendido pelo oficial de operações que me levou para a Corregedoria", disse o sargento, frisando que até comunicou a um aspirante, pelo celular, que não poderia ir à reunião dos dirigentes por estar de serviço. O sargento preferiu não comentar a informação de que a denúncia ao Comando da PM teria sido feita por outros militares, com o intuito de prejudicá-lo.
"Abandonar meu serviço seria se eu saísse do meu posto, tirasse minha farda e ficasse passeando por aí, tomando cerveja, e não voltasse pro quartel. Eu iria retornar para almoçar. Eu não abandonei meu serviço, nem participei de reunião. Transformaram uma coisa tão simples em um maremoto. Que outro trabalhador iria para um presídio apenas por usar sua hora de almoço para ir comprar um sapato na loja?", criticou, comparando seu caso ao da sargento Ediana Barbosa, presa em abril de 2011 por usar o banheiro de sua residência, no conjunto Eduardo Gomes (São Cristóvão), em horário de serviço, por falta de estrutura no Posto de Atendimento ao Cidadão do bairro. A Justiça Militar absolveu a policial em dezembro do ano passado. "Parece que eles não aprenderam com o Caso Ediana", dispara Edgard.
Já o Comando da PM manteve a acusação de abandono de posto e alegou que o sargento estava em horário de serviço quando foi encontrado na sede da Amese, na Rua Boquim, Centro. "O sargento deveria estar na 3ª Companhia do 1º Batalhão, cuja sede é no Leite Neto. Ele foi flagrado no Centro da cidade, que é área do 8º Batalhão. E ele foi avistado por quem fez a denúncia às 10h40. Ninguém almoça às 10h40. Foi com base nestes fatos em que o corregedor da polícia formou a convicção de que havia um flagrante crime de abandono de posto. E tudo isso foi analisado e homologado pela juíza de plantão", disse o porta-voz da PM, tenente-coronel Paulo César Paiva, destacando que a decisão de deter o sargento Edgard foi fundamentada por questões legais e militares, sem qualquer relação com questões políticas.
A defesa mais dura foi feita pelo comandante geral da PM, coronel Maurício Iunes, que considerou "absurda" a acusação de que o episódio teria a participação do governador Jackson Barreto. "Nem sequer conversei com o governador esses dias, acredito que o governador tomou conhecimento desse caso pela imprensa. Tenho certeza que o nome do governador foi ventilado para criar um fato político. Se alguém quiser fazer um comentário que faça com meu nome, coronel Maurício da Cunha Iunes, que assumo minha responsabilidade perante à tropa. O governador não tem responsabilidade nenhuma e não poderia tê-lo até porque como é que ele saberia onde está fulano, beltrano. O fato é que estamos diante de um abandono de serviço e tivemos que cumprir a legislação", destacou, em nota divulgada pela PM.


