DO PALÁCIO ELISEU AO PALÁCIO DO PLANALTO

O palácio do Eliseu é, como se sabe, a sede de governo da República francesa. A França, como também se sabe, tem uma espécie de presidencialismo disfarçando de parlamentarismo. O Presidente da República da França exerce, quase integralmente, as funções de Chefe de Estado e de governo e, então, quando o Primeiro Ministro é uma figura acanhada, o presidente ocupa todos os espaços.

É o que sucede, exatamente agora, com o presidente Macron, um jovem de 38 anos que se misturou ao povo na euforia das comemorações pelo bicampeonato. Fez selfies, deu autógrafos às crianças e a idosos, e quase divide a cena com o esfuziante Pogba. O triunfante atleta afro-francês, no momento de união festiva dos franceses, era, ele mesmo, um argumento eloquente do que é o melhor modelo para uma Nação: o acolhimento a todas as etnias.  
O Palácio do Planalto, como se sabe, fica em Brasília e é a sede do governo presidencialista (da República?) brasileira. Foi inaugurado em 1959 e, nele, se instalou o maior de todos os presidentes de uma República que, então, aproximava-se de ser efetivamente República.

Antes, para acompanhar a vertiginosa aventura que foi a epopeia brasileira da construção de uma nova capital, o presidente visionário instalava-se numa cabana de madeira a que deram o nome de Catetinho, embora não tivesse nenhuma semelhança física com o Palácio do Catete, sede do governo na capital, Rio de Janeiro.
O Brasil era o país do futuro que encetava a marcha para alcançar os objetivos, com a rapidez de quem constrói 50 anos em 5, o lema de Juscelino, síntese de um ambicioso e factível projeto, para dar um salto da herança semifeudal até um um país moderno. Os brasileiros andavam estufando o peito de tanta esperança e otimismo que guardavam. Naquele tempo, quando conquistamos pela primeira vez o Copa do Mundo de Futebol na Suécia, no Brasil, Juscelino, como fez agora o presidente francês Macron, misturou-se ao povo, festejando a conquista heroica, que parecia um presságio benfazejo de tantas outras que viriam. E elas realmente foram chegando, na música, na literatura, na ciência, no crescimento econômico, no emprego, na política externa, tudo convergia para a evolução transformadora.

E aí veio Jânio, demasiadamente bêbado, veio o tumulto da renúncia e os subsequentes. Então, perdemos o rumo, a sensatez, o equilíbrio, e veio o golpe que intitularam de revolução.  O marechal Castello Branco num ato de mesquinhez e ingratidão, cassa Juscelino, alvo dos ódios dos ressentidos, e o levam também à cadeia e ao exílio. Sem julgamento, naturalmente.
Andamos a vaguear, sofremos sintomas cíclicos de euforia e depressão. Agora, andamos com motivos suficientes para estar desesperançados e revoltados.
 Como já era esperado, a Seleção não foi longe. Perdemos a sintonia goleadora entre o meio de campo e o ataque; perdemos a capacidade de inventar, e ficamos correndo por um lado só, dependendo, para avançar, de algumas quedas a menos de um jogador estrela.

 Alguma semelhança com o cenário maior do Brasil?
 Imaginemos então o clima pós hexa, se o tivéssemos conquistado.  
 A cena que certamente incendiaria de indignação o país aconteceria se Temer conseguisse quebrar a resistência dos jogadores, do técnico e os levasse ao Planalto para fazer a comemoração; e ousasse erguer a taça.
Na França, o Palácio do Eliseu nunca foi varejado pela polícia federal francesa, nenhum presidente foi alvo de dois pedidos de impeachment e nenhum foi acusado de chefiar uma organização criminosa, nem ter uma parte dos seus ministros na cadeia.
Na França, Macron não é um presidente desmoralizado, e os franceses, dele, não sentem nojo. A França mereceu o bicampeonato, o seu povo e o seu presidente podem festejá-lo juntos.

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