Os papéis se inverteram em Sobral, próspera comuna cearense, onde policiais amotinados, potencialmente armados, longe de uma reivindicação civilizada dispararam contra o senador Cid Gomes. A causa salarial, justa, portanto, foi diluída pela solidariedade ao desmonte da democracia
* Inocêncio Nóbrega
Dois momentos, distantes no tempo entre si, porém bem próximos pelas circunstâncias históricas em que viveram. O primeiro deles, Três de Março de 1964, quando vicejava o golpe de abril seguinte, nos traz uma história bastante peculiar, balançando a sociedade de João Pessoa. Na manhã desse dia, um grupo de jovens estudantes secundaristas, do Lyceu Parahybano, procurou o Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito, que funcionava, à época, numa das praças centrais da cidade.
Logo cedinho corria a notícia de que o governador do então estado da Guanabara, Carlos Lacerda, nada menos que o "Corvo da Olaria", viria à capital paraibana, a fim de arregimentar correligionários, de extrema direita, visando a candidatura presidencial, por ele postulada. Ainda pela manhã, no saguão do estabelecimento de ensino superior, instalou-se um serviço de som, denunciando a anunciada visita, procedente de Salvador, onde se encontrava. Não demorou a participação de outros companheiros: sindicalistas, jornalistas, pessoas do povo, como nós, somavam-se a uma plêiade de 26 universitários, dentre eles eu, depois feridos nas nossas liberdades, tivemos de submeter a IPM, além dos direitos de estudo suspensos, quando adveio a ditadura. Entretanto, inflamáveis discursos, aos poucos irritavam os adversários, que se arregimentavam defronte ao prédio da Faculdade.
A reação foi coordenada por dois ex-deputados, Joacil de Brito Pereira e Marcus Odilon Coutinho, já falecidos, este, há poucos dias. Juntos a um terceiro personagem pretenderam, com um enorme ariete, arrombar a porta, na intenção de nos massacrar, mas foram dispersos pelos homens da segurança pública e do Exército. Nossa única arma era a voz em defesa da Petrobrás, pela democracia e contra a conduta de um governante, responsável pela matança de mendigos, no Rio de Janeiro. JK acenava sua reeleição, o golpe de 1964 barrou tal pretensão, de igual forma, a deposição de Dilma Rousseff foi uma escalada com vistas evitar o retorno das alas progressistas ao Poder.
Os papéis se inverteram em Sobral, próspera comuna cearense, onde policiais amotinados, potencialmente armados, longe de uma reivindicação civilizada dispararam contra o senador Cid Gomes. A causa salarial, justa, portanto, foi diluída pela solidariedade ao desmonte da democracia, ora imperante, casado com a doutrina de desestabilizar governos estaduais nordestinos, pondo em perigo o princípio republicano do federalismo. Vejo semelhança e coerência nos dois episódios, a começar pela sintonia histórica entre duas figuras nacionais, com amplas forças de arregimentaçãocom objetivos impatrióticos, disseminando o ódio, destruindo a educação, calando a imprensa, entregando o País.
* Inocêncio Nóbrega, jornalistainocnf@gmail.com

