Rian Santos
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Eu não sei nada das preferências de Lula Ribeiro. Pouco me importa com quem o artista dorme, se acredita em Deus, em quem vota. ‘Vida haverá’, álbum recém lançado, fruto de profícua parceria com o escritor Sérgio Rodrigues, entretanto, serviu-me de lenitivo para a ressaca eleitoral de uma segunda-feira com bafo de derrota.
Fora de minha bolha, o País arde. O distanciamento é tamanho, a ponto de evocar a tirinha mais amarga de André Dahmer, autor de Os Malvados. O personagem no interior de uma garrafa de conhaque se pergunta sobre as circunstâncias da realidade exterior e conclui, num gole seco, curto e grosso: Lá fora há Dor!
Assim sentimo-nos, nós, os progressistas mais crédulos, certos da vitória do presidente Lula em primeiro turno, temerosos de despertar, um dia, sob o cajado nodoso de um talibã tropical, moralista, reacionário, como sonha a extrema direita, aqui e alhures. A música de Lula Ribeiro, o Lula cantor, no entanto, realiza uma afirmação vital de leveza quase etérea. A voz mansa, a cadência mansa das canções, embala tristezas e esperanças. Um alento.
O álbum – Com dez canções inéditas (a romântica, ‘Primeiro amor’, foi lançada como single em dezembro de 2021), ‘Vida haverá’ é álbum puro-sangue, uma novidade na carreira do cantor e compositor sergipano. Pela primeira vez, todas as faixas de um trabalho de Lula resultam de parcerias com um único letrista, o escritor mineiro-carioca Sérgio Rodrigues, autor do premiado romance ‘O drible’.
‘Vida haverá’ possui uma coesão autoral rara. Fruto artístico dos anos pandêmicos, concebida em uma atmosfera de angústia e isolamento, o álbum passa ao largo das circunstâncias para se ater à ordem própria da composição. Daí o respiro.
Lula e Sérgio trabalharam à distância, mediados pelo Whatsapp, mas com tanto entusiasmo que, em menos de dois anos, haviam composto 32 canções. “Foi muito difícil escolher as dez que estão no álbum”, conta Lula. “Mesmo porque as gravações já tinham começado e a gente continuava compondo, uma melhor que a outra” acrescenta, entre sorrisos imodestos.
A gravação de cada instrumentista também seguiu os melhores protocolos de segurança. Longe de se curvar à tristeza do distanciamento social e ao luto por tantas vidas perdidas, o resultado foi uma obra que levanta desde o título um grito de alegria e desafio: Vida haverá.
Cada uma a seu modo, as canções apontam o futuro, festejando a vida em suas múltiplas dimensões: amor, dor, paixão, trabalho, sonho, poesia. Acima de tudo, o disco é uma celebração de som e palavra, de letra e música – do poder que têm as canções de acender lanternas na escuridão.
Com produção e direção musical do próprio Lula Ribeiro, ‘Vida haverá’ conta com participações luxuosas de nomes como Sérgio Chiavazzoli, Marcelo Mariano, Enéias Xavier, Federico Puppi, Luiz Cláudio Ramos, Marco Lobo, Cláudio Infante, Wilson Lopes, Guilherme Gê, Fernando Nunes, e muitos outros.


