Rian Santos
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Uma dúvida atroz tira o sono de ACM Neto, herdeiro de siglas e consciências pesadas na comarca da Bahia. O sujeito jamais sofreu um baculejo. Ainda assim pergunta aos botões do terno bem cortado, com a cara mais lisa do mundo: Eu sou neguinha?
Gastura tão incisiva, a fina flor do existencialismo soteropolitano, é privilégio de gente bem nascida. Os pretos, pobres e mulatos na batalha, versados no pregão dos camelôs, habilitados no sacolejo do busão, sabem a resposta de cor e salteado, carregam essa certeza marcada na carne, na ponta da língua.
ACM Neto declarou-se branco, depois examinou bem a sua tez no espelho sem manchas do closet imenso, maravilhado com o próprio bronzeado. Preto ele não é, claro. Mas o que é um homem pardo, ele filosofa. E abraça a baianidade nagô, orgulhoso como um legítimo filho de Gandhi.
Desde então, a ladainha desatada no Largo do Pelourinho especula sobre as razões para a inesperada investigação ancestral de Netinho. Conversa solta, os maliciosos lembram: o Tribunal Superior Eleitoral decidiu que a distribuição dos recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha e o tempo de propaganda eleitoral gratuita devem ser proporcionais ao total de candidatos negros de cada partido. Esta não seria, portanto, uma questão de pele. Mas de fazer contas.
ACM Neto declarou-se preto, igual a toda menina baiana. Sem outros encantos para chamar de seus, ele garante aos incrédulos: Foi Deus que deu.


