Gabriel Damásio
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Os funcionários da Itaguassu Agroindustrial, ligada à empresa Cimentos Nassau e situada em Nossa Senhora do Socorro (Grande Aracaju), começam 2016 com incertezas sobre a permanência dos seus empregos. Boatos e rumores sobre a crise da empresa e o fechamento da unidade ressurgiram com força ao longo dos últimos meses, após uma sequência de demissões, atrasos de pagamento de salários, impasses trabalhistas e até uma decisão judicial que bloqueou as contas da empresa. O assunto deve ser discutido em uma reunião marcada para esta segunda-feira, 4 de janeiro, na Superintendência Regional do Trabalho (SRT), entre representantes da Nassau e do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria do Cimento, Cal, Gesso e Cerâmica de Sergipe (Sindicagese).
Segundo a entidade, mais de 100 funcionários já foram demitidos ao longo de 2015 e outros cortes estão previstos para este ano, culminando com o possível fim da fábrica. Alguns funcionários deixaram a empresa nesta semana. Fontes do setor ouvidas pelo JORNAL DO DIA garantem que a produção da Itaguassu está parada há cerca de três meses e que a unidade sergipana deverá desativar a sua produção de matéria-prima para o cimento, devendo ficar apenas com a moagem e o ensacamento do produto. Ainda de acordo com as fontes, a movimentação de caminhões no pátio da fábrica caiu drasticamente, apenas o material de estoque está sendo liberado e a venda média do produto caiu de 50 mil sacos por mês para menos de 8 mil sacos.
O presidente do sindicato, Djenal Prado, conta que os problemas se arrastam há cerca de três anos, quando os salários e alguns benefícios, como a Participação nos Lucros e Resultados (PLR) começaram a ser pagos com atraso, mas se agravaram em julho, quando começaram as primeiras demissões. Segundo ele, a Nassau tinha planos para encerrar as atividades da fábrica agora em dezembro, por causa de uma crise financeira que a empresa enfrenta nacionalmente. "A empresa gera hoje 380 empregos diretos, mas já chegou a ter mais de 500. Muita gente foi demitida pela empresa, mas a situação ficou tão grave, tão insustentável, que alguns companheiros nossos resolveram pedir demissão. Nem mesmo os acordos coletivos da categoria estão sendo cumpridos. Como é que eu vou ficar em uma empresa que não dá segurança para o trabalhador?", questiona.
Em 14 de outubro último, os funcionários da fábrica de Socorro entraram em greve por tempo indeterminado, após duas paralisações de advertência. O movimento foi suspenso sete dias depois, após uma audiência de conciliação no Tribunal Regional do Trabalho da 20ª Região (TRT-20). No entanto, não houve acordo e veio a decisão mais grave: uma liminar que bloqueou as contas bancárias da Itaguassu e de outras empresas do Grupo João Santos, conglomerado pernambucano que controla a Nassau e outras 23 empresas nas áreas de cimento, celulose, energia, agroindústria e comunicação. "A decisão bloqueou todas as contas do grupo no Brasil inteiro e determinou que todo o dinheiro que entrasse em caixa fosse destinado ao pagamento dos funcionários. A empresa alegava que não tinha como garantir os salários da fábrica", diz Djenal.
Conforme o sindicalista, o bloqueio judicial foi mantido para as contas da fábrica sergipana, que atrasou os salários de dezembro e as parcelas da PLR de 2015, além dos retroativos equivalentes aos reajustes salariais concedidos pelos últimos acordos coletivos. Apenas a folha de dezembro seria equivalente quase R$ 1,7 milhão. Mesmo com a decisão, a incerteza continua, pois os funcionários não têm informações claras sobre quando os seus vencimentos serão pagos. "É tanto que, além da audiência do dia 4 no Ministério [SRT], vamos ter outra audiência no dia 20 pra verificar se a empresa está cumprindo a decisão, porque a gente não sabe quem recebeu, quem não recebeu, nem como a empresa está pagando", explicou. Já sobre a reunião desta segunda-feira, Djenal é taxativo: "A expectativa e tentar garantir o mínimo, o básico dos direitos para os companheiros que ainda estão lá. Repito: os que ainda estão lá".
Fatores externos – Os problemas na Itaguassu são o desdobramento da crise enfrentada pela Nassau, que tem 12 fábricas em todo o país e, apesar de dominar 13% do mercado nacional, faturando cerca de R$ 2,5 bilhões, foi bem afetada com a queda nas vendas do cimento e a desaceleração das obras na construção civil – o que é atribuído ao mau momento atual da economia brasileira. Dados do setor aponta que, entre janeiro e setembro de 2015, as vendas foram 7,7 % menores que as do mesmo período de 2014, podendo fechar o índice do ano em mais de 10% de queda. A imprensa nacional especializada cita ainda outros dois fatores para os problemas do grupo: uma disputa interna no Grupo João Santos, onde os herdeiros do fundador morto em 2009 brigam pelo controle das empresas, e a recente fusão das empresas franco-suíças Lafarge e Holcim, que detêm a liderança do mercado brasileiro.
O JORNAL DO DIA entrou em contato com a sede da Cimentos Nassau, em Recife (PE), mas a informação é de que não houve expediente no local nesta quinta-feira e que os responsáveis pela empresa só estarão disponíveis a partir de segunda.


