Gabriel Damásio
gabrieldamasio@jornaldodiase.com.br
O caso de uma professora que foi encontrada morta no último domingo gerou graves acusações contra a Secretaria Estadual de Educação (Seed). Dirigentes da repartição estão sendo responsabilizados por supostos episódios de assédio moral que teriam motivado o possível suicídio de Jucélia Almeida Ferreira, 45 anos, cujo corpo foi achado em estado de decomposição na casa onde morava, no bairro Palestina (zona norte de Aracaju). O Instituto Médico-Legal (IML) classificou o caso como "morte a esclarecer". No entanto, a família da professora confirma que houve suicídio e afirmou que ela foi "perseguida" em seu ambiente de trabalho, chegando a ter o seu salário bloqueado por alguns meses.
Uma irmã de Jucélia, que preferiu não se identificar, relatou ontem, em entrevista à rádio Ilha FM, que a professora deixou uma carta relatando uma série de problemas criados pelo bloqueio de seu pagamento, pelas transferências de escola e pelas tentativas frustradas de resolução dos problemas junto à Secretaria. Além das dificuldades financeiras, Jucélia passou a ter problemas cardíacos e crises de depressão. "Foi uma perseguição clara o que fizeram com minha irmã e ninguém tomou providência. Minha irmã se suicidou devido ao sistema que é imoral, ilegal e desumano. É desumano o que fizeram com minha irmã. Tiraram a autoestima dela e agora tiraram a vida. Espero que as pessoas sejam responsabilizadas", desabafou ela.
A história foi mais detalhada em uma carta aberta divulgada pelo Sindicato dos Trabalhadores em Educação da Rede Oficial de Sergipe (Sintese), que convocou para hoje, às 9h, uma manifestação em frente à sede da Diretoria de Educação de Aracaju (DEA), na Rua Laranjeiras, e ao Centro de Referência em Educação Severino Uchôa, no Getúlio Vargas (zona centro), onde Jucélia estava lotada como professora de História. De acordo com o Sintese, ela teve faltas registradas de forma deliberada pela diretoria da unidade, com quem ela teria alguns atritos, mesmo tendo apresentado laudos e atestados que comprovavam o atendimento dela em internações e consultas médicas.
"Jucélia passou a ter o seu primeiro direito negado, não recebeu por vários meses a gratificação por regência de classe, mesmo estando em sala de aula. A queda na remuneração levou a professora a desencadear problemas de depressão e cardiovasculares, passando seguidas vezes a ter atendimento de urgência, cujos atestados médicos eram tratados com desdém pela senhora Jeane Góes, diretora do Centro de Referência Severino Uchoa, penúltima escola em que Jucélia lecionou, pois há um mês estava lecionando no Colégio Augusto Franco [bairro Santos Dumont]. As faltas eram registradas no ponto da professora com facilidade, mas a gratificação de regência de classe não retornava por ‘questões técnicas’", relata a carta.
Ainda de acordo com o Sintese e os familiares, a perícia médica da Secretaria de Planejamento e Gestão (Seplag) tinha lhe dado uma licença de 60 dias para tratamento, mas o salário da professora foi totalmente bloqueado pela Seed, que ainda alegava não ter recebido nenhum tipo de atestado. "(…) sem condições de subsistência e doente, a professora recorria à familiares para manter o sustento básico. (…) No entanto, o circo de horrores não tinha fim, em junho de 2016, a professora Jucélia voltou ao trabalho, e nutria a expectativa de no final do mês receber seu salário corretamente. Eis que junho terminou e seus vencimentos de novo não vieram. Aos prantos a professora se dirigiu à Seed, chegando inclusive a conversar com a superintendente da educação Marieta Barbosa, que prometeu resolver, mas que tinha questões técnicas a solucionar. Jucélia gritava para todos ouvirem na Seed que ia se matar. A professora não resistiu, e cumpriu o que sentenciou", diz o sindicato.
A professora Jucélia deixa uma filha de 21 anos. Ao anunciar que colocará seu departamento jurídico à disposição da família de Jucélia, o Sintese afirmou que ela "foi mais uma vítima do cenário infernal tão propagado pelo Secretário de Estado de Educação, Jorge Carvalho", a quem acusa de sustentar "um esquadrão de aço formado por chefes orientados e conscientes do seu papel de perseguir e provocar assédio moral sob o discurso do legalismo".

