Fazenda Tinguí vira Assentamento Marcelo Déda

Sem nem conseguir descrever a emoção, dona Iraci dos Santos Reis viu passar um filme pela sua cabeça ao receber das mãos do ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, e do presidente nacional do Incra, Carlos Guedes, o documento de posse do imóvel Fazenda Tinguí, agora Assentamento Marcelo Déda. Para ela, naquela fração de minuto, veio à sua mente todos os anos, desde a primeira ocupação da área, os conflitos, as lutas dos companheiros para que, finalmente, tivessem a tranquilidade de ter seu pedaço de chão para plantar e assim ter de onde tirar o sustento de sua família. "Estou muito feliz, não tenho nem palavras. Foram muitas lutas, me lembro de cada momento, a aflição de todos nós, os que não chegaram até aqui para ver esse momento. É uma história de vida, de muito sofrimento, mas que agora é de tanta alegria", declarou, bastante emocionada.
A felicidade de dona Iraci era o sentimento de cada uma das 250 famílias agora integrantes do Assentamento Marcelo Déda e também dos demais presentes ao ato de imissão de posse da Fazenda Tinguí, que aconteceu na manhã desta quinta-feira, 4, pessoas que de alguma forma acompanharam esses anos de luta. Nesse momento histórico para os trabalhadores rurais de Sergipe estiveram presentes o ministro do Desenvolvimento Agrário, o presidente do Incra, além do superintendente do Instituto em Sergipe, Leonardo Góes, os deputados estaduais João Daniel, Ana Lúcia e Conceição Vieira (todos do PT), o presidente da Emdagro, Jeferson Feitosa, representando o governador Jackson Barreto; os prefeitos de Malhador, Elaine de Araújo, de Itaporanga, Maria Das Graças, de Poço Redondo, Roberto Araújo; secretários de Estado e representantes de empresas estaduais e federais, dirigentes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a viúva do governador Marcelo Déda, Eliane Aquino, entre outros.
Há 17 anos as famílias acampadas na Tinguí aguardavam esse momento. Nessas quase duas décadas, viveram momentos de luta, conflitos, enfrentamentos e incertezas. "Esse momento marca 17 anos de luta e resistência. Muitas famílias que chegaram aqui viram seus filhos crescerem, esses já constituíram suas famílias e todos permanecem aqui. É um momento em que lembramos de muitos companheiros que já se foram. Para o MST nacional, a Tinguí é o primeiro caso de adjudicação, o que abre uma nova porta para a reforma agrária no país e em Sergipe", disse a dirigente nacional do MST em Sergipe, Gislene Reis.
O deputado estadual e federal eleito João Daniel (PT) acompanhou de perto a história das famílias na Fazenda Tinguí e considera que esse é um momento de grande conquista. Para ele, talvez a maior em termos de representação para o MST e os lutadores da reforma agrária em Sergipe. "Aqui vivem famílias que dedicaram 17 anos de luta, mas valeu muito a pena. Estou muito feliz. Para todos nós é uma grande conquista que vai trazer desenvolvimento econômico social para toda essa região, especialmente para os municípios de Malhador, Santa Rosa de Lima e Riachuelo, além de trazer dignidade às 250 famílias e, com certeza, fazer com que os que ainda não conquistaram suas terras acreditem e continuem lutando para que um dia tenhamos uma grande reforma agrária em Sergipe e no Brasil", disse, ao lembrar a justa homenagem feita pelo MST ao governador Marcelo Déda com a escolha do seu nome para o assentamento.
José Roberto Alves da Silva, sergipano hoje fazendo parte da direção nacional do MST por Alagoas, conhece bem a história da Fazenda Tinguí, pois esteve participando do início da ocupação, tendo sido inclusive preso em um dos conflitos. Para ele, a conquista da posse dessa terra é a reafirmação uma grande luta que o MST na fazenda há mais de 20 anos e fruto da insistência, persistência e determinação.

Compartilhe esta notícia