Fobia se cura com saudade

* Paulo F.T.Morais  

O vento bate na folhagem da amendoeira  descobrindo a lua. O farfalhar das folhas espanta dois morcegos.  Seu Biná, do Facão, velho e anêmico, está sentado no alpendre da frente da casa sede da fazenda ao lado do feitor Nuna.  A robusta amendoeira estica seus galhos até o beiral do alpendre.  É a véspera da planejada viagem a Aracaju, onde o velho fazendeiro  cumprirá um programa de restabelecimento da saúde , tomando vinho reconstituinte Silva Araújo, na chácara do filho Jacinto na praia de Atalaia.

A noite avança. Defronte, a manga onde as vacas ruminam na noite fresca. – Será que ainda tem  mais, Nuna?  Daqui não dá pra ver – O velho fica inquieto,  cobra do feitor explicação; afinal de contas  Nuna  prometeu limpar a fazenda  desses bichos chupadores de sangue e transmissores da raiva. – São uns diabos, mas não vou dar descanso, o senhor fique tranqüilo. Quando voltar, não vai encontrar nenhum.
Seu Biná não suporta morcego. Para um homem de sua cepa, nascido e criado no meio da bicharada, era uma falha de envergonhar. Fobia que o deixava descontrolado. Sabia das pândegas  que corriam pela redondeza sobre o medo incontrolável. As troças incomodavam-no, mas o pavor era letal. – Na volta, vou cobrar de você, Nuna.  – O senhor vai ver, patrão.  O ninho não é na amendoeira, é no depósito velho.

Estavam de penca. O serviço foi bem feito. Depois de fechar tudo, eu e Lô Chico atochamos as gretas com cansanção. Penduramos uns galhos nos caibros, abrimos um buraco na parede pra passar uma lanterna, e começamos a piscar. Ficaram doidos. Guinchavam que nem ratos acuados, perderam o rumo e ficaram se batendo nas  paredes. Foi uma pancadaria dos diabos, tanto que a gente ouvia cair no chão lascas de reboco, e houve até uma hora que deu pra temer que as paredes não fossem agüentar. Dos tufos do cansanção  escorriam sangue e cal. Depois que a zoada acabou, abrimos a porta devagarinho. Esses dois devem ter escapado nessa hora. Vosmecê viaje sem sobrosso, tome seus fortificantes lá no Aracaju, porque os que fugiram não vão render. Sossegue.

Seu Biná enquanto ouve o relatório do feitor aproveita o restinho de tempo no Facão apreciando os primeiros movimentos das vacas tangidas para a ordenha, aspira os cheiros úmidos dos pastos cobertos pela neblina da madrugada. É quando uma imensa  tristeza se espalha pelo corpo deixando-lhe pernas e braços pesados. Aquela viagem a Aracaju era uma dessas coisas que só acontecem com velhos. Não desiste porque sente a saúde descalibrada; ainda bem que ficará na chácara do filho, distante do centro da cidade, que detestava.

Nuna olha de lado a figura miúda, que tanto admira e respeita, desfalcada de energia, um fiapo. O empregado  lembra de Seu Biná no cimo da força. Agora não tem quase mais nada, casca e miolo jogados fora. Sente-se inseguro, um calafrio lhe sobe dos pés à cabeça, já cheia de pensamentos ruins . – Não é melhor o senhor entrar e descansar um pouco? – Pra quê? Quero aproveitar o que me sobra disso tudo. Já vou descansar demais. Ô Nuna, você pode ir me visitar, de vez em quando. Fico mais tranqüilo. Vai ser um aperreio pro Jacinto vir ver as coisas. Ele não gosta de terra. – O senhor é quem manda. É só me chamar. – As palavras saem semitonadas, os olhos piscam. O homão está à beira de desmoronar. O velho observa e engole saliva. Pergunta com uma linha de voz: – Você acha que saio dessa? –  Seu Biná é atacado na cabeça por imagens terríveis:  a sala, gente chorando, velas,  dona Pequena, a mulher, dentro do caixão. A lembrança  funesta  empina-lhe o tronco; segura com força os braços da cadeira,levanta-se um pouquinho inclinando  o dorso  na direção de Nuna,  os olhos fixos nos rosto do feitor, um olhar desesperado de quem pede socorro. – O senhor?! E o senhor tem nada? Já ouvi falar desse vinho. Umas três garrafas dele vão deixar vosmecê tinindo. Não se lembra que uma vez, quando a gente vinha da Unha do Gato, o patrão teve uma dor  bem em riba daqui do lado direito? Ficou amarelo, mas não esmoreceu, e quando chegou aqui  já havia passado? Quantos anos tem isso? De dez pra cima. Aquilo, sim, me deu um susto danado.  O que o senhor tem  hoje  chega aos pés daquele cerco da maldita? Quanto aos morcegos, vá sossegado, já disse:  na  volta não vai encontrar mais nenhum.

Ajudado por Nuna, Seu Biná se levanta. Santaninha mexe nas panelas. Antes de entrar no quarto para trocar de roupa, chega até a cozinha e olha angustiado a empregada  de toda a  vida. Chegou ao Facão menina, era ainda aparentada da finada dona Pequena. Sentindo-se observada, mas sem olhá-lo para não passar vexame num desate de choro, diz: – O café sai já. É o tempo do senhor se aprontar.

Dr.Jacinto chega. É um homem agitado, com pressa de cidade grande, fala em atividades comerciais de nomes estranhos, na vida corrida que leva: – Uma azáfama, minha gente! – Entala-se, querendo ar. – Vamos lá, meu pai? – Vai até o quarto. Lentamente, Seu Biná vai separando o que deve levar.  O filho segura a impaciência , mas chama Santaninha: – Dê um pulinho aqui.- O velho passa-lhe um olhar de lancinante  desespero e abandono. – São as tais reuniões, meu pai. Mas não precisa fazer muito esforço. Que me esperem ou se danem.   
– Já? E aí, podemos ir? – Seu Biná remancha um pouco, fica parado, cismando, como quem se esqueceu de alguma coisa. Balança a cabeça desanimado, caminha  arrastado, sussurra "até a volta" para os que estão na varanda, "agüente firme o batente, viu Nuna!", mas não encara o empregado. Ajudado por Jacinto, mete-se no banco traseiro do carro, e fecha os olhos.
A chácara fica perto do mar. O diabo é que a praia do velho não tem mar, a água é doce, e no lugar da areia solta a liga do massapé.

A nora o recebe com forçada complacência, mas é mulher determinada. Mostra-lhe o quarto, ordena ao empregado que arraste para dentro uma mala e duas sacolas. Com voz inflexível, chama o caseiro e a mulher. – Este é Seu Biná, pai do Jacinto. Não deixem  faltar nada pra ele. – O casal meneia a cabeça, espantado com o que vê: um velho nas últimas. A nora recomenda-lhe: – Se o senhor precisar de alguma coisa o telefone está bem ao lado da cama, sobre uma lista contendo meu número e o de Jacinto, bem como outros que lhe poderão ser úteis. Se tiver dificuldade, chame esses dois, Piau e Lena. Ah, e o vinho? Traga logo uma dose pra ele, Lena. O senhor vai-se dar bem. Aqui é bem fresco, não é como no apartamento lá na cidade. Uma beleza para a saúde. O ar. A vista. Até os navios da Petrobras. Não esqueça de tomar os remédios na hora certa, muito menos o vinho. Ô Lena traga logo uma garrafa e deixe aqui no quarto. Não se acanhe, Seu Biná, pode ligar à vontade, caso precise de alguma coisa. Vou indo porque ainda tenho que pegar os meninos no colégio. Até mais.

O velho fica atordoado, o choro trancado, capaz de papocar. Sente-se um estranho na casa do filho. Diabo. A que ponto nos leva a vida! Cadê Jacinto? O filho despejara-o e saíra. Nem se despediu. Os negócios, as reuniões;  sei, sei. Um fardo pesado, eis o que sou. Rumina idéias tristes, saídas pavorosas.  A saudade do Facão se intromete nas cogitações penosas, com imagens tão nítidas que o entontecem.
 Passou a noite suando, um sono cortado, pesadelos. Logo cedinho estava acordado, arriado na cama, a fraqueza não o permitindo levantar-se. O que estaria  Nuna fazendo àquela hora? Será que o pessoal chegou cedo para a destoca?
 Mais tarde, depois de tomar um café de pouca sustância, porções de passarinho,  pois o que engolia refluía até o gogó, custando-lhe imenso esforço segurá-lo até aí,  vai ao portão  de entrada da chácara, de onde avista  banhistas e pescadores. O mar. O mar, plataformas. Tudo bonito, mas não tem graça. Volta para o quarto. Calça a cabeceira da cama com alguns travesseiros. Não quer ficar estirado, somente as pernas, os cambitos finos, palitos de fósforo queimados. Olha-os com vergonha.

 Nuna a esta hora – que hora será essa? -deve estar correndo os pastos. Santaninha botou o feijão no fogo e está varrendo a casa. Zé Aleijado está indo apanhar água na fonte da Maniçoba. A saudade pega forte. Engole o choro. Dois morcegos cruzam sua cama em rasante, e se penduram na algeroz do quarto. Casa sem forro, lá estão  os bichos que lhe são tão repugnantes,  mas agora não;  não sente pavor, a fobia sumiu. Engraçado este mundo.  O caseiro os viu, vai até o quarto de Seu Biná tranquilizá-lo: – Daqui pra boca da noite acabo eles. –  Seu Biná sorri, pede ao outro que não faça aquilo. Está-se lembrando dos dois sobreviventes do Facão; a amendoeira, o depósito, conta a história ao caseiro.  Diverte-se. Os olhos começam a pesar, surpreende-o uma  tranquilidade  jamais sentida, que vai amolecendo o  corpo  suavemente. De repente, tudo muda:  senta-se na cama, tronco espigado, os olhos bem abertos voltados para o teto: – Ô Piau, são os dois do Facão; estou reconhecendo os pobrezinhos.  Vieram me visitar.                

* Paulo F.T.Morais é jornalista e escritor (pftmorais@ig.com.br )

O vento bate na folhagem da amendoeira  descobrindo a lua. O farfalhar das folhas espanta dois morcegos.  Seu Biná, do Facão, velho e anêmico, está sentado no alpendre da frente da casa sede da fazenda ao lado do feitor Nuna.
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