Fuga de 39 internos gera nova crise no Cenam

Gabriel Damásio
gabrieldamasio@jornaldodiase.com.br

Um ano depois, as unidades socioeducativas da Fundação Renascer voltam a ser abaladas por uma sequencia de fugas e rebeliões de internos. Às 9h30 de ontem, 39 internos fugiram do Centro de Atendimento ao Menor (Cenam), depois de se rebelarem na quadra de esportes. A maioria dos fugitivos pulou o muro dos fundos e se embrenhou em um matagal situado nos fundos da unidade, e outros saíram correndo pela Avenida Tancredo Neves, no Capucho (zona oeste), assustando a muitos pedestres e motoristas.

O tumulto começou durante a revista das alas e se alastrou em poucos instantes para a Unidade Socioeducativa de Internação Provisória (Usip), que foi acessado por alguns adolescentes através do telhado. A outra unidade também entrou em rebelião, mas ninguém escapou. Os que ficaram no Cenamse armaram com pedras, paus, marretas, picaretas e outros objetos usados por pedreiros que trabalham em uma obra de reforma que estava em andamento. Um buraco chegou a ser feito na parede da Ala 2, que foi depredada na última quarta-feira, após a tentativa de fuga de outros 14 internos. Já na rebelião de ontem, a situação ficou tão tensa que as duas unidades tiveram que ser evacuadas pelos servidores e funcionários terceirizados.

Soldados do Batalhão de Polícia de Choque (BPChq) chegaram rapidamente às unidades e lá permaneceram por cerca de três horas, até que o tumulto fosse controlado. Outras unidades das polícias Civil e Militar foram mobilizadas para fazer buscas pelos menores fugitivos, com apoio de um helicóptero do Grupamento Tático Aéreo (GTA). Uma hora depois do estouro da confusão, equipes da polícia traziam alguns dos fugitivosde volta ao Cenam.

Ao todo, de acordo com a Fundação Renascer (órgão responsável pela administração das unidades socioeducativas do Estado), 11 internos foram recapturados. Boa parte deles estava escondida no matagal, próximo ao Condomínio Villa Vitória, a cerca de um quilômetro do Cenam. Na chegada, eles disseram aos jornalistas que fugiram da unidade porque estariam sendo espancados frequentemente pelos agentes socioeducativos, principalmente durante a noite e a madrugada. "Ficam batendo em nóis (sic) depois da rebelião. Eles fazem isso direto. Qualquer besteirinha, a gente apanha", gritavam os internos.

As acusações foram negadas pelo presidente doSindicato dos Agentes de Medidas Socioeducativas de Sergipe (Sindasse), Sidney Guarany, o qual, por sua vez, disse que alguns funcionários do Cenam chegaram a ser agredidos e ameaçados pelos menores. Eles reclamam que as unidades socioeducativas estão superlotadas e que os agentes, além de terem um baixo efetivo, não têm condições para se proteger de situações como o tumulto de ontem. "O plantão nosso tem de sete a oito agentes pra cuidar de 88 internos. E a unidade foi projetada para ter só 50 internos. E além do mais, nós não podemos usar nenhum tipo de arma pra nos defender, nem mesmo o spray de pimenta. Hoje, nós ficamos acuados nas salas da administração e eles [os adolescentes] tentaram invadir as salas", afirmou Guarany.

O sindicalista também argumenta que as obras realizadas no Cenam também podem ter facilitado o acesso dos adolescentes às ferramentas usadas para fazer a rebelião e depredar todo o resto do Cenam. No entanto, a direção da Fundação Renascer pediu que a Polícia Civil abra um inquérito policial para investigar a rebelião de ontem. Ainda em meio à rebelião, a delegada-geral KatarinaFeitoza esteve no Cenam com uma equipe da Superintendência do órgão. Ela também determinou que o Instituto de Criminalística faça uma perícia detalhada no local. "Nós já estamos investigando pra entender se houve ou não algum tipo de facilitação. Existe essa possibilidade. Já iniciamos as ouvidas, periciamos o local e pedimos as imagens do Circuito Interno de TV. Vamos analisar todos os detalhes e verificar as causas da fuga", falou Katarina.

O mesmo foi anunciado por representantes do Ministério Público Estadual (MPE) que também estiveram no Cenam para verificar de perto os estragos causados pela rebelião. "Alguns adolescentes que estavam aparentemente machucados já foram imediatamente encaminhados para fazer exames de corpo de delito no IML, e nós vamos continuar apurando e acompanhando, como sempre fizemos", garante o promotor Akel de Andrade Lima, ao confirmar que o MPE está apurando também os outros incidentes ocorridos no Cenam e na Usip, bem como as acusações de torturas possivelmente praticadas contra os internos.

A direção da Fundação Renascer só se manifestou ao início da noite, e mesmo assim por meio de uma nota encaminhada pela Secretaria Estadual de Comunicação, trazendo apenas a posição anunciada pela Polícia Civil. A diretoria do órgão foi destituída na última segunda-feira pela juíza Aline Cândido Costa, da 17ª Vara Cível de Aracaju, com base em uma ação civil pública movida pelo Ministério Público, que alegou a permanência destes mesmos problemas nas unidades socioeducativas, desde a crise das mais de 30 rebeliões e fugas enfrentadas em setembro e outubro do ano passado.

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