* Antonio Passos
A notícia correu solta, feito va zamento de água em tubu- lação da Deso, pelos grupos de WhatsApp. Havia variedade quanto às localizações: alguns davam conta de incidência na grande Socorro, outros falavam de assalto a uma casa na Atalaia, em Aracaju… Houve ainda quem denunciasse ter sabido de ocorrência lá pras bandas de Estância… Enfim, a ação ou sua repercussão ampliou-se rápida.
No dia anterior ao que as postagens chegaram à tela do meu celular chinês, um sábado à tarde, saindo da casa da minha mãe e ao segurar o volante do carro e abrir os vidros, antes de virar a chave para ligar o motor, aproximou-se da janela um homem de pele clara, vestido em roupas de um padrão classe média e com as mãos em posição de aceno (como se quisesse evidenciar que não escondia nenhum objeto – faca ou revólver, por exemplo). Aquela atitude prévia, procurando demonstrar com gestos que não havia perigo, suscitou em mim um efeito contrário e encrespou um receio. Não houve tempo para outra atitude além de deixá-lo falar. E assim prosseguiu o camarada com um sotaque que não identifiquei bem se seria sulista ou estrangeiro:
– Boa tarde, senhor. Tudo bem?
– Sim, tudo bem. Respondi.
– Nós somos (nesse momento ele fez um breve sinal para trás como se estivesse apontando outras pessoas) comerciantes e viemos a uma feira aqui em Sergipe, mas as vendas não foram boas. Por isso estamos andando assim, pelas ruas, oferecendo nossos produtos, para não voltar com tanta mercadoria. São óculos, roupas… O senhor tem interesse em olhar?
Do outro lado da rua, na entrada de um restaurante desativado há poucos meses, estavam sentados em uma mesa, conversando, um dos filhos da proprietária e um amigo. Toda a família é dada ao empreendedorismo e uma possível conexão de interesses por mim imaginada me deu o caminho da resposta:
– Não, obrigado. Eu não tenho interesse nesses produtos, mas, um daqueles dois rapazes ali na mesa é comerciante e talvez tenha. O homem fez um agradecimento com a cabeça e caminhou na direção dos rapazes. Eu liguei o carro, acenei para minha mãe que estava de pé do lado de dentro do portão e saí.
No dia seguinte, foi exatamente essa a descrição dos assaltantes que me chegou alardeada pelo WhatsApp: homens brancos, com sotaque de fora, circulando em um carro de luxo, oferecendo produtos à venda e praticando assaltos contra quem abrisse a casa. Pela primeira vez eu havia me deparado, cara a cara, com uma ameaça de violência divulgada em rede social.
Consultei minha mãe e ela contou que, após minha saída, o homem foi até a mesa dos rapazes e conversaram um pouco. Em seguida afastou-se e retornou com uma mala. Abriu a mala sobre a mesa, os três manusearam o conteúdo da mala, conversaram mais um pouco e o homem saiu sem mais retornar.
Relatando todos esses acontecimentos em uma mesa de bar, um amigo muito vivaz ofereceu uma explicação engenhosa para a história, a qual considerei fértil fantasia. Argumentou Augusto:
"Há um circo na cidade. No circo há atores de procedência estrangeira e de outras partes do país, com sotaques bem diferentes do nosso. Há comerciantes incomodados com a venda de produtos de porta em porta, por ambulantes. Há vendedores de produtos e serviços de segurança sempre interessados em demonstrar as vulnerabilidades da sociedade frente ao crime. Há multidões aterrorizadas nas redes sociais. Feiras para promoção do turismo estão sempre acontecendo. Uma trupe circense foi contratada para fazer a encenação do grupo de vendedores ambulantes (oferecendo bugigangas por preços altos, impraticáveis) – uma corruptela da técnica de representação muito experimentada por Boal e conhecida como teatro invisível. Com os artistas já recolhidos sob a lona, a notícia sobre os assaltantes foi jogada no WhatsApp como bolinhas de miolo de pão em um lago com peixes famintos…". Após um instante preenchido por caras de susto e silêncio, Augusto arrematou a conversa com uma pergunta: – E vocês o que acham?
* Antonio Passos é jornalista

