Sem receber salários, médicos que atuam em 43 unidades de atendimento administradas pela Prefeitura de Aracaju decidiram cruzar os braços e interromper 70% do atendimento aos pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). Conforme aprovado em assembleia da categoria e comunicado à Secretaria Municipal de Saúde (SMS), 30% dos profissionais realizaram apenas atendimentos de urgência e emergência nas unidades Nestor Piva, zona Norte da capital, e na unidade Fernando Franco que fica no conjunto Augusto Franco. Em decorrência da paralisação, populares enfrentaram filas de até oito horas para serem atendidos; outros, cansados de tanto esperar, migraram para o Hospital de Urgência de Sergipe (Huse).
Segundo estatísticas apresentadas pela administração municipal, os primeiros dias úteis da semana – segunda-feira e terça-feira – são apontados como os mais movimentados em termos de pessoas em busca de atendimento médico. Essas elevações correspondem a 20% a mais se comparado aos demais dias da semana, sendo assim, diante desse cenário de problemas gerados com o impasse entre prefeitura e servidores, não fica difícil imaginar os transtornos enfrentados por milhares de pacientes. Por volta das 10h de ontem, aqueles que transitavam nas proximidades da Unidade de Atendimento Nestor Piva puderam perceber o grande movimento de pessoas na entrada principal da UPA. Das 7h às 16h30, pelo menos duas mil pessoas dirigiram-se para o local a fim de assistência profissional.
Enfrentando fila desde as 8h, a auxiliar de cozinha Regina dos Santos estava acompanhando a filha de 14 anos. Com febre alta e dores pelo corpo, a adolescente aguardou o final de semana para ser atendida logo nas primeiras horas de ontem, mas ao chegar na unidade se deparou com a greve. Indignada, Regina lamentou a situação e protestou contra o serviço de saúde da prefeitura. "Nenhum serviço público de saúde presta aqui em Sergipe, mas esse da Prefeitura de Aracaju vou te contar, é um descaso total com o cidadão. Até que horas vou ter que aguentar ver minha filha sofrendo de dores e ver que mesmo aqui na porta ninguém vem me ajudar?", indagou a denunciante.
Além de reclamar contra o não repasse do salário referente ao mês de maio, os médicos ainda destacam a não abertura de diálogos sobre a campanha anual de reajuste salarial, e sobre as precárias condições de trabalho enfrentadas diariamente por mais de dois mil profissionais da área de saúde. Ao todo, 400 médicos decidiram cessar as atividades por tempo indeterminado.
Também prejudicado pela fila que se formou no dia de ontem, o bancário Edgar Nunes disse estar esperando pelo serviço médico há mais de três horas. "No final de semana já estava ruim e hoje pela manhã passei mal no trabalho. Cheguei aqui no Fernando Franco às 11h e até agora, 14h30, nada de atendimento", destacou.
Garantia – Segundo relatos do secretário municipal de Fazenda, Luciano Paz, ontem foi o quinto dia útil do mês – período ainda dentro da constitucionalidade para pagamento do salário trabalhista. A expectativa e garantia apresentada pela Prefeitura de Aracaju era que todos os servidores e aposentados recebessem o respectivo salário até as 23h59 de ontem. Apesar da confirmação oficial, os médicos garantem realizar outras mobilizações, caso os salários voltem a atrasar, ou os pleitos apresentados pela categoria permaneçam sem serem debatidos junto ao prefeito João Alves Filho.
Atuante na atividade grevista, o especialista Marcos Antônio destacou a necessidade de o prefeito se alertar para a demanda dos médicos e evitar problemas ainda mais representativos para a saúde pública. "Não dá para ficar nessa de esperar a boa vontade do prefeito. É preciso e primordial que João Alves, ou José Carlos Machado se reúnam logo com o Sindicato dos Médicos e decidam atender as nossas reivindicações, ou até apresente contrapropostas. Infelizmente dessa forma que estamos é que não temos condições de continuar. Se não houver entendimento a greve será mensal", afirmou. Até o final da tarde de ontem a direção do Sindimed não recebeu nenhuma resposta positiva por parte do governo municipal.


