Guarda Municipal ataca sem-teto que ocupam sede da Prefeitura de Aracaju

Gabriel Damásio
gabrieldamasio@jornaldodiase.com.br

Permanece o impasse entre a Prefeitura Municipal de Aracaju (PMA) e as famílias sem-teto da ‘Ocupação Nasce a Esperança’, que estão acampadas desde a última segunda-feira no Centro Administrativo da Prefeitura Municipal de Aracaju (PMA), no Castelo Branco (zona oeste). Ontem, os manifestantes chegaram a entrar em confronto com soldados da Guarda Municipal, que haviam ensaiado uma tentativa de retirar os acampados da sede do Executivo. No começo da manhã de ontem, o acesso dos manifestantes começou a ser controlado de forma mais intensa pelos guardas e os que saíram para buscar alimentos e objetos foram impedidos de entrar.

Foi o começo de um grande impasse que se arrastou por toda a manhã. Os sem-teto que passaram a noite no local acusaram a Guarda – e a própria PMA – de restringir o acesso deles à água e a alimentação, como forma de vencê-los pelo cansaço. "Aqui tem mulher, tem criança, tem idoso, e os guardas trancaram tudo. Não tão deixando entrar nem água e nem fralda pras crianças. Elas estão sem tomar banho, sem comer, até passaram mal lá dentro. Cadê o direito do povo? Só tem direito pra bandido?", disse Jadson da Conceição, o ‘Buiu’, um dos líderes da ocupação, que estava do lado de fora com outros manifestantes.

A tensão foi crescendo na medida em que outros apoiadores do movimento eram barrados com os mantimentos. Os jornalistas que chegavam ao local também eram barrados e apenas os servidores eram autorizados a entrar. Com o aumento da polêmica, o diretor da GMA, coronel Enilson Aragão, surgiu para negociar com os acampados e negou a acusação de ter dado a ordem para barrar os mantimentos. O momento mais tenso foi quando as caixas com alimentos e roupas foram colocadas na área externa do Centro Administrativo, cercada por soldados do Grupo Tático Operacional da GMA.

Por volta do meio-dia, outro grupo de manifestantes que estava fora da Prefeitura tentou entrar, pulando a grade do muro. Os guardas reagiram e usaram gás de pimenta e cassetetes para forçar um recuo. Um fotógrafo ligado ao movimento foi agredido e o coordenador do Movimento Não Pago, Demétrio Varjão, foi detido pelos guardas, acusado pela tentativa de invasão. Os manifestantes que estavam dentro passaram a hostilizar os guardas, acusando-os de truculência, e também foram afastados com gás de pimenta. Meia hora depois do confronto, a alimentação começou a ser distribuída, em grupos de 10 pessoas e com prioridade para idosos, mulheres e crianças.

Enilson atribuiu o incidente a "grupos que tentam politizar" a luta das famílias por moradia e justificou que a área reservada para a alimentação seria mais confortável aos acampados. "Desde o início, há uma recusa dos manifestantes em receber a alimentação em uma área determinada por nós, que é coberta, arejada e tem mais espaço. Desde ontem [segunda] à noite que nós relutamos para que eles viessem para essa área, com tranquilidade, de forma organizada. Mas eles não tinham interesse, só queriam receber a alimentação na parte interna do Centro, onde estavam", argumentou o coronel. No entanto, ele era contestado pelos sem-teto, aos gritos de "mentiroso".

Um advogado ligado ao movimento e integrantes da Comissão de Direitos Humanos da OAB também foram ao local para negociar o fim do impasse. Eles criticaram a estratégia da GMA de isolar os acampados da alimentação e exigiram uma posição da Prefeitura para atender às reivindicações das famílias, que querem a desapropriação do terreno ocupado pelas famílias, no final de linha do bairro Santa Maria. Para o defensor público Alfredo Nikolaus, que acompanha os sem-teto, há omissão da parte dos gestores do Município em negociar uma solução. "O prefeito não se encontra aqui, o vice-prefeito não está aqui e a secretária da Assistência Social também não está. Não apareceu ninguém responsável que possa atender as necessidades destas famílias, que estão lutando por uma moradia digna", protestou ele.

Reintegração – A Prefeitura informou que a alimentação aos acampados foi fornecida por iniciativa dela própria, através da Guarda Municipal, e que eles já foram recebidos pela secretária de Assistência, Maria do Carmo Alves. Na ocasião, ela ressaltou que o Município já paga auxílio-moradia a 1.200 famílias na capital, com custo total de R$ 360 mil mensais em recursos próprios – o que soma um gasto anual de mais de R$ 4 milhões com a concessão do aluguel social. Disse também que o terreno reivindicado pertence a uma empresa particular e não pode intervir para suspender a reintegração de posse da área, marcada para hoje.

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