Gabriel Damásio
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A repetição dos discursos do programa eleitoral dividiu espaço com a tensão e a troca de acusações entre os três principais candidatos ao governo do estado, durante o debate ocorrido entre a noite de sexta e a madrugada de sábado na TV Atalaia, com retransmissão das rádios Liberdade 930 AM e Atalaia AM. Os temas abordados foram centrados principalmente em problemas de saúde, segurança pública, educação e geração de empregos, mas estes dividiram espaços com críticas envolvendo a gestão dos candidatos em cargos que ocuparam no passado.
O encontro durou quase três horas e contou na última hora com uma surpresa: o candidato Airton Costa Santos, o "Airton da CGTB" (PPL), conseguiu uma liminar do desembargador José Alves Neto, do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) para participar do debate, alegando o princípio do tratamento igual aos candidatos. Antes, conforme o que já determina a Lei Eleitoral, participariam apenas os candidatos Eduardo Amorim (PSC), Jackson Barreto (PMDB) e Sônia Meire Azevedo (PSOL), cujos partidos possuem representantes eleitos no Congresso Nacional. "Eu quero agradecer à Justiça por permitir que eu participasse. Abre um precedente e prova que a democracia realmente existe", ironizou Airton em sua apresentação. A entrada de Airton só foi notificada oficialmente pelo TRE por volta das 17h, causando transtorno e muita irritação nos bastidores.
A assessoria jurídica da Atalaia ainda tentou mover um recurso, mas não houve tempo para julgamento. Por isso, a direção de jornalismo da TV foi obrigada a ajustar as regras programadas anteriormente e só conseguiu fazê-los meia hora antes do debate, após um acordo com as equipes dos candidatos, os advogados da emissora e a coordenação nacional de programação da Rede Record, em São Paulo, que cedeu 12 minutos além do tempo previsto. Três rodadas de perguntas foram eliminadas, alguns sorteios foram refeitos e um quinto púlpito foi colocado no estúdio – o quarto foi ocupado pelo jornalista Gilvan Fontes, que demonstrou muita experiência na mediação do debate.
Três blocos do programa tiveram seis rodadas de perguntas entre os candidatos e com tema livre. Os principais embates aconteceram nos dois últimos blocos de perguntas. Sônia Meire foi a mais incisiva e acuou duramente os três candidatos, afirmando que os três "representam o projeto das oligarquias e dos exploradores". Isso forçou Amorim a mudar a estratégia, até então centrado nos ataques a Jackson, para responder à candidata do PSOL com mais força.
O candidato à reeleição, por sua vez, conseguiu manter a tranquilidade e procurou a todo o tempo destacar as obras e realizações do governo, mas também disparou contra Eduardo em alguns momentos, principalmente em perguntas sobre saúde pública. O maior choque entre eles aconteceu no fim do segundo bloco, quando o candidato do PSC cobrou o oponente pelo aumento abrupto dos homicídios no Estado. "Nos últimos cinco anos, mais de cinco mil pessoas morreram em Sergipe, e as famílias sergipanas sofrem demais. O senhor dorme tranquilo ao ver tantas mortes causadas pelas falhas do seu governo?", atacou Amorim.
O governador aproveitou e devolveu com força as críticas feitas à gestão da Saúde no estado, ao longo do debate. Na resposta, Jackson citou que o atual senador foi demitido do cargo de secretário estadual de Saúde em 2004, durante o governo João Alves (2003-2006). "Eu durmo tranquilo, mais do que o senhor dorme desde o dia em que deixou a Secretaria de Saúde, e até hoje não explicou porquê. O senhor não tem autoridade nenhuma pra falar de saúde, por que muitos problemas que enfrentamos hoje são reflexo do caos que o senhor deixou", rebateu.
O tom aumentou na tréplica, quando Jackson disse que "Amorim pensa que a população é desinformada" e citou que sua demissão foi causada por compras de remédios que causaram prejuízo aos cofres do estado, além do fechamento de 12 hospitais no interior. "O povo não esquece", rebateu. Durante um tempo extra de 30 segundos, concedidos após um erro na contagem da rodada anterior, Amorim negou que tenha sido demitido e admitiu que fez compras emergenciais "para salvar vidas das pessoas nos hospitais".
Indecência – O senador do PSC se estranhou com Sônia Meire no segundo bloco, quando, ao perguntar sobre a saúde, ela classificou como "uma indecência" a proposta da "Operação Salva-Vidas", anunciada por Amorim para regularizar os problemas de atendimento no Hospital de Urgência de Sergipe (Huse) em um prazo de 100 dias.
O senador sentiu o golpe e, na outra rodada, lembrou que a oponente já foi filiada ao PT e secretária-adjunta de Educação durante o primeiro mandato governo Marcelo Déda. "Vamos agir com sinceridade e coerência. A professora Sônia gosta de criticar, mas esquece que já fez parte do governo que aí está", afirmou ele. A candidata do PSOL voltou a tocar na história da demissão de Amorim e disse que deixou o governo e o PT por discordar das políticas adotadas pelo governo na área de educação, sobretudo na relação com os professores.
Ainda segundo ela, outro motivo foi a aliança firmada entre Amorim e Marcelo Déda nas eleições de 2012, quando ele foi eleito senador. "Eu fiz uma carta pública explicando os motivos da minha saída. Diferente do senhor, que até agora não explicou porque saiu da Secretaria de Saúde pela porta dos fundos", fustigou. Um novo embate aconteceu no terceiro bloco, quando Sônia disse que Amorim é o quarto candidato que mais gastou no país, insinuando que o seu eventual governo ficaria em "situação de dívidas" com os doadores da campanha. Eduardo pediu direito de resposta, mas a assessoria jurídica da Atalaia não o concedeu.
O intruso – A atuação mais apagada e limitada do debate foi, contudo, a de Airton da CGTB, que repetiu o discurso de que pretende "fazer de Sergipe um estado industrial", mas passou a maior parte do tempo falando de política nacional, criticando a presidente e candidata Dilma Rousseff (PT) – a quem acusou de "trair os trabalhadores".
O candidato não escapou da mira da franco-atiradora Sônia Meire, que o acusou de atuar como "auxiliar" de Eduardo Amorim na defesa de seu projeto "contrário ao povo". Foi o bastante para Airton "subir na mesa" e reagir irritado: "Com todo respeito, mas linha auxiliar é uma ova! A senhora desrespeitou o meu partido", devolveu, repetindo uma frase dita pela candidata à presidente Luciana Genro (PSOL) contra o rival Aécio Neves (PSDB", há duas semanas, durante debate presidencial promovido pelas emissoras católicas brasileiras.


