Iran diz que foi eleito para ser oposição

Vereador mais votado da capital em 2012, o Professor Iran (PT) promete uma oposição dura ao prefeito João Alves Filho (DEM) – "Eu fui eleito para isso". Na primeira votação que participou este ano, para escolha da mesa diretora da Câmara Municipal, ele foi um dos dois vereadores que votaram em branco, não apoiando a chapa liderada por Vinícius Porto (DEM) e que tinha a participação do petista Emmanuel Nascimento (2ª secretaria). O outro voto em branco foi de Agamenon Sobral (PP).

Iran diz ainda que não viu nenhum problema em recomeçar a carreira política, depois de não ter obtido êxito à reeleição como deputado federal, em 2010. "Eu não considero a política uma carreira. Defendo que quem tem vocação para lutar por mudanças e por justiça social deve estar sempre preparado para ocupar os espaços que a própria luta determina. Quando foi necessário militar na sala de aula, fiz dela a minha trincheira", explica.

JORNAL DO DIA – O senhor foi vereador, fez um bom mandato como deputado federal e agora volta para a Câmara Municipal como o vereador mais votado de Aracaju. Não é frustrante ter que reiniciar como vereador?
Iran Barbosa – De maneira alguma. Eu não considero a política uma carreira. Defendo que quem tem vocação para lutar por mudanças e por justiça social deve estar sempre preparado para ocupar os espaços que a própria luta determina. Quando foi necessário militar na sala de aula, fiz dela a minha trincheira. Quando fui destacado para liderar a luta sindical, cumpri a tarefa com satisfação no Sintese, na CUT e na CNTE. Quando fui desafiado a assumir a Câmara Municipal de Aracaju, mais uma vez respondi afirmativamente ao desafio. No momento em que o povo me elegeu para representá-lo em Brasília, trabalhei para corresponder a tão honrosa confiança. Fui convidado para assumir, na condição de primeiro titular, a Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania e topei o desafio, enquanto ele não afrontou a coerência com aquilo que defendo. Depois disso, retornei, com muita satisfação, à sala de aula e, agora, reinicio o mandato de Vereador em Aracaju. A vida, para ter sentido, tem que ser dinâmica e não precisa ser cartesiana. Não há frustração em recomeçar. Tenho muito orgulho de ter sido o vereador mais bem aceito na última eleição e assumo essa tarefa com prazer e responsabilidade.

JD – O senhor volta na condição de vereador de oposição. É mais fácil ser um parlamentar de oposição ou de situação?
Iran Barbosa – Na realidade, nada foi muito fácil para mim na vida política. O meu perfil de rigor ideológico, de respeito aos princípios que defendo e de compromisso permanente com as causas populares e de classe que abracei, sempre me colocou em rota de colisão com as incoerências do Administrador Público, mesmo quando se tratava de Administradores que ajudei a eleger. É óbvio que há distinções entre ser parlamentar de situação e de oposição. A principal delas talvez esteja vinculada a um maior ou menor grau de identidade com o macro projeto de gestão que você defende. Quando estamos na oposição é porque o resultado eleitoral nos impôs a condição de atuar como parlamentar frente a um comando executivo que defendeu uma proposta de governo diferente da que defendemos. Isso agrega desafios diferentes. Estou pronto para enfrentá-los! E viva a dinâmica da Democracia!

JD – O prefeito João Alves Filho inicia a sua administração com uma ampla maioria na Câmara Municipal. Como o senhor vai traçar a sua linha de atuação?
Iran Barbosa – Ela já está traçada e anunciada publicamente. Cumprirei com rigor e fidelidade a tarefa para a qual fui eleito: ser um parlamentar de oposição. Isto significa dizer que manterei a minha linha de atuação parlamentar vinculada às lutas sociais, priorizando a produção e o debate legislativos voltados para as causas populares, fiscalizando, denunciando, debatendo criticamente e propondo. Não claudicarei. Serei firme no cumprimento da minha tarefa, mas não colocarei obstáculo e/ou dificuldades para propostas, projetos e programas encaminhados pelo Executivo para benefício da população. Enfrentarei e combaterei todas as vezes que for necessário. Mas apoiarei e contribuirei para o sucesso de medidas em favor do povo. Não tenho problemas com o fato de ser minoria. Minha preocupação está vinculada com o cumprimento do meu dever.

JD – O senhor não aceitou o acordo do PT com o DEM na composição da mesa diretora da Câmara e votou em branco. Qual a razão desse voto? O senhor acha que o vereador Emmanuel Nascimento, que participa da mesa, não deveria ter feito o acordo?
Iran Barbosa – Primeiro, permita-me corrigi-lo: Não houve acordo do PT com o DEM na composição da Mesa Diretora da Câmara. O PT, nos seus fóruns deliberativos, definiu, nacionalmente, através de resolução congressual, que não deverá haver composição com o DEM, o PSDB e o PPS, nossos adversários políticos. Em âmbito municipal, a direção Executiva do PT recomendou que deveria haver uma chapa encabeçada por petista para a disputa na eleição da Mesa Diretora da Câmara Municipal de Aracaju e que não votaríamos em chapas encabeçadas pelo DEM e por comandados do "Grupo dos Amorim". Caso não se configurasse alternativa de votação, a recomendação partidária foi pelo voto em branco. Portanto, se houve algum acordo, é preciso identificar quem o fez. Aí talvez sejam identificadas lideranças partidárias que, de forma autoritária e equivocada, se acham superiores às instâncias deliberativas do partido e posturas pessoais comprometidas com seus próprios interesses ou reféns daquelas lideranças. Eu votei em branco porque não concordo com este tipo de visão político-partidária. Eu não atendo a caciques. Eu me guio pelos meus princípios, pelos meus compromissos com os meus apoiadores e eleitores e pelas decisões coletivas e estatutárias do meu partido. Quando fui consultado pelo vereador Emanuel Nascimento sobre a sua participação na chapa encabeçada pelo DEM, disse-lhe, respeitosamente, que achava que aquela alternativa não era a correta.

JD – O senhor integra o movimento dos professores do Estado, liderado pelo Sintese. Como vereador, o senhor tem uma avaliação da situação dos professores da rede municipal?
Iran Barbosa – Claro que sim! Não apenas como vereador, mas como professor concursado da Rede Municipal de Aracaju há exatos dez anos. Vivo e sofro, como profissional do Magistério, as consequências do desmantelo estrutural das unidades de ensino; das dificuldades para o avanço da Gestão Democrática na rede; da negação da política de implantação do Piso Salarial nos moldes da Lei Federal; do rebaixamento da carreira, especialmente para os mais novos nela, como eu; da falta de debate sobre a formulação da macro política educacional; da precarização dos serviços escolares, pela via da terceirização e da contratação temporária; da falta de um Plano Municipal de Educação e de tantos outros problemas que enfrentamos cotidianamente. Como professor tenho essas avaliações e, na condição de vereador, combaterei todos esses problemas, junto com a minha categoria.

JD – O Governo Déda vem sendo muito criticado pelos servidores, principalmente pelos professores, em função do piso. Quais os maiores problemas que o senhor enxerga na administração de Déda. É uma gestão petista?
Iran Barbosa – O principal problema talvez seja, exatamente, a falta de habilidade para dialogar com os servidores, com os professores e com os movimentos sociais vivos em Sergipe. Quem analisa o atual governo não poderá nunca defini-lo como uma gestão estritamente petista. Trata-se, isto sim, de um governo de coalizão, que trouxe para si inúmeras contradições, apesar de o comando ser de um petista histórico.
 
JD – Quais os exemplos que o PT deve tirar da condenação dos réus do chamado Mensalão?
Iran Barbosa – Eu diria que o PT não deve ter nesse episódio e especialmente nas causas que conduziram a ele nenhum tipo de referência. Não devemos tirar daí nenhum exemplo. Nossas referências sempre foram e devem continuar sendo a ética, o zelo pela coisa pública, o cuidado e o respeito com os anseios populares, o compromisso com os princípios da democracia e da Administração Pública, a vocação para a busca de soluções para os problemas do povo mais humilde e a disposição para enfrentar os problemas de exclusão, autodestruição e competitividade do modelo capitalista, buscando a construção do Socialismo, princípio fundador do nosso partido. Alguns claudicaram. Miraram-se em exemplos de políticos e partidos que antecederam o PT na gestão da coisa pública. Deixaram-se seduzir por práticas que sempre foram condenadas e continuam sendo repudiadas pelos verdadeiros petistas. Esses não devem ter nosso respeito.

Deles não devemos tirar nenhum exemplo. Por causa deles eu copio o bonito dizer de Elisa Lucinda: "Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesto ainda vou ficar". Simples assim!

Compartilhe esta notícia