Janeiro em branco

* Andrei Albuquerque

 

Importante que se tenha um mês para que determinado tema seja debatido – e isso já acontece com o “setembro amarelo” em que trabalhamos a prevenção ao suicídio – pois silenciar com frequência sobre um incômodo, sobre um sintoma, não indica o caminho para uma solução.
O mês de janeiro ficou destinado como o mês para se falar sobre saúde mental, todavia se deve chamar atenção para o fato de que saúde mental não pode ter uma definição única e utilitarista, essa saúde seria fruto da construção de cada um, de um-a-um, e de difícil padronização, embora tenhamos marcadores que indiquem alguma estabilidade psíquica como sono, humor, disposição para as atividades, presença de ansiedade/angústia, entre outros.
Há pessoas, no entanto, que se movimentam pela vida de maneira diversa da concebida como saudável – e sim, são de alguma maneira funcionais na família, em suas atividades, no trabalho, mas enfim quem seria funcional o tempo todo?
Não devemos deixar passar em branco que o discurso meritocrático neoliberal tem por efeito sobrepesar o sujeito como CEO de seu próprio sofrimento como se ele estivesse fora de um contexto familiar, social e trabalhista. Assim, nesse discurso cada um que se arranje com a sua “dor elegante” – como canta Itamar Assumpção musicando um poema de Leminiski – cada um que se motive e se cure do adoecimento e da exaustão gerados pelas empresas, pelo trabalho doméstico, pela sua precariedade econômica, como se cada um fosse o único responsável por tornar a sua dor em algo elegante sem gerar mal-estar na família e em seu meio social.
Dessa maneira, o papel do Estado e das empresas restaria como um detalhe escondido sem maior responsabilidade pelo adoecimento de cidadãos e colaboradores, aqui não podemos desconsiderar que o trabalho e as condições socioeconômicas podem ser gatilhos de um sofrimento psíquico que a pessoa teria previamente em sua estrutura psíquica, em sua formação como sujeito.
Também não dá para desconsiderar o sofrimento que uma mãe pobre passa ao ver o seu filho doente não ter acesso a medicação e ao atendimento na rede pública onde ele pode ter o único acesso, nem podemos nos enganar que as condições são as mesmas de acesso a serviços de saúde que um morador de um condomínio de classe média teria ao recorrer a um atendimento, a uma emergência. E uma mãe pobre e periférica que se preocupa com a volta para casa de um filho jovem negro que pelo caminho pode ser alvo de bandidos e da truculência de certos policiais que adaptam a sua abordagem ao bairro, à cor da pele e à classe social. Ou o tapa conjugal que pode se tornar um feminicídio, a violência simbólica e física constante que um transgênero enfrenta simplesmente por existir em seu meio familiar e social.
Em seu recente livro, “Quem matou meu pai” – sem interrogação, pois parece que o autor sabe quem foi o agente – o escritor Édouard Louis relata como a baixa escolaridade, o trabalho, um acidente de trabalho e cortes de benefícios pelos governos de Jacques Chirac e de Nicolas Sarkosy afetaram a vida de seu pai, empregado em uma fábrica na França dos últimos anos.
O trabalho tem uma face terapêutica, de reconhecimento e de sustentação do laço social que é necessária, todavia não para todos, porque não há soluções universais e isso deve ser lembrado tanto por gestores quanto em nossa escuta analítica do sofrimento alheio. E não podemos deixar passar em brancas nuvens que a nossa época coloca o trabalho como um valor absoluto de reconhecimento e de sentido da vida, mesmo que para sobreviver e ser reconhecido se tenha que aceitar uma carga horária extensa e diversas formas de exploração, sim o trabalho também pode ser adoecedor.
Dessa maneira, um “janeiro branco” que não questione outras causas do adoecimento psíquico do sujeito seria meramente festivo e subserviente a um discurso que empacota a diferença e a história de vida de cada um. Embora tenha dito que as construções e soluções seriam feitas um-a-um não se deve prescindir de uma crítica quanto ao lugar do sujeito em relação ao seu meio familiar, social e produtivo.

 

* Andrei Albuquerque, psicanalista e psicólogo. Mestre em psicologia social/UFS. Publicou dois livros e diversos artigos.

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