JANIO, O VISIONÁRIO

Inocêncio Nóbrega

Em 1961, o mundo ainda se encontrava sob dois hemisférios políticos, a chamada Guerra Fria: no Ocidente, sob o bastão de John Kennedy, dos Estados Unidos, e o outro lado, Nikita Khrushev, comandava a extinta URSS, com seus países alinhados. Porém, a China Popular, de Mao Tse Tung, sai do domínio geopolítico soviético, passando a construir, inicialmente, o bloco dos povos não atrelados a nenhum daqueles, com olhos voltados para a América Latina, especialmente o Brasil. A nação asiática já dava caras de poderio econômico, sem perder o vínculo com o socialismo, aos poucos saindo da clausura, desde sua Revolução de 1949.
Entre nós, o pres. Janio Quadros, não obstante eleito pelos segmentos mais conservadores brasileiros, adotou uma posição de autonomia em relação às duas potências, numa atitude de defesa de autodeterminação entre os povos, pelo que merecia elogios por parte do líder chinês. Carlos Lacerda via nesse posicionamento uma provocação, o que poderia ocasionar uma crise interna, com reflexos na política externa, entendimento comungado por setores reacionários e das forças armadas, protetores do ocidentalismo.
Afinal, uma vez convidado para visitar Pequim o governo indicou seu vice, João Goulart, a fim de chefiar uma comitiva entre políticos e alguns empresários, os quais, contando, para tanto, com o aval do Congresso Nacional. Jânio, acabara de reatar relações diplomáticas com a Rússia. Para Leonel Brizola, andava junto ao processo de restabelecimento dos princípios federativos.
Durante o ineditismo da viagem, após protocolares palavras de Jango, encetaram negociações, comprometendo-se a China de nos enviar um crédito de US$ 50 milhões, para financiamento das primeiras transações comerciais. Percorrem os visitantes principais cidades daquele território. Não suportando as pressões, renuncia Janio Quadros, sob a pecha de tendência comunista. Na verdade, o Brasil foi o primeiro país latino-americano a desafiar o alinhamento com os EUA.
Os ministros militares vetam a posse de Jango, num franco desrespeito à Constituição; nasce a Campanha da Legalidade. Em discurso, vocifera Rivadávia Correia: “Cada Lacerda tem seu Brizola”. O trio golpista cede, Jango assume, num negociado parlamentarismo. Vêm a ditadura de 1964 e a Redemocratização. Os atos antidemocráticos, desta vez, surgem bem antes, 8/janeiro; cada novo “lacerda” tem seu novo “brizola”. O pres. Lula viaja à China, de Xi Jinping, acompanhado de técnicos, políticos e dezenas de empresários, assinando vários acordos de mútua cooperação. Nada de visionário, todos acreditando num mandatário que os tempos levaram, mas sua doutrina de autodeterminação ainda persiste.

Inocêncio Nóbrega, jornalista

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