José Fernandes traveste personagens com alma caipira

* Luduvice José

José Fernandes é um artista pontual. Não algo ligado a minutos, horas, dias, semanas meses, anos. Até porque é um assíduo ficante dos locais que frequenta, aonde fideliza companheiros pela amizade e o bom papo, distribuindo bom humor e rememorando sempre fatos pitorescos, na sua maioria ligados à cultura e arte sergipanas. Quando destaco-o como pontual me refiro à pontuações que faz pela arte e com a arte, pela sintonia visceral com sua própria pintura, por meio da qual insculpe seu modus vivendi, enraizado na vida campestre, transpirando o que ele chama de matutice, mesmo que sua figuração rescenda n~]ao apenas a cheiro de mato, mas a cheiro de beira de praia onde pescadores colhem o pão de cada dia, ou mesmo enlameados na caça aos caranguejos e siris de mangue, traduzidos numa visão alegremente policrômica de matizes quentes e animados.

José Fernandes vem conseguindo animar sua figuração, com espírito caipira, conforme se denomina. Mudou as vestes despojando os trapos surrados dos campesinos e pescadores, trocando pela indumentária ritualística das vestes casamenteiras inculcadas nos pagodes interioranos do ciclo junino, acendendo seus matizes fidelizados e imprimindo em traços rápidos e bem compostos, o cenário comum das cerimônias casamenteiras que emprenham as veredas nordestinas durante o mês de junho, como se fosse uma forma respeitosa de homenagear o Lula Gonzaga, provocando em cada expectador desta sua fase caipira, a sensibilidade de praticamente ouvir o ronco da sanfona, o tilintar do triângulo e a marcação da zabumba, evocando a força socializante da música de Gonzagão.

Percuciante e aquilinamente rápido na criação, José Fernandes abriu uma clareira no seu imaginário pictórico para deixar fluir as caracterizações que passaram a incorporar o gibão multifacetário de Luiz Gonzaga, adicionado ao cotidiano dos vaqueiros, aboiadores formatando um fardamento que praticamente amalgamou-se em cada homem do campo, como segunda pele, essa atração singular que o nosso campesino nutre pela musicalidade de Luz Gonzaga, que foi o arauto maior nos protestos contra o sofrimento do meio rural.

Essa vertente que José Fernandes promove, mostra-se apenas como mais uma forma de valorização do campo e de seus integrantes, sempre retratados na diuturna criação do artista, que desta feita troca qpenas a roupagem das madonas, pescadores e pés descalços do mato, encarapaçando-os de caipiras festeiros do ciclo junino, encaixando-os entre bandeirolas, desfiles e casamentos na roça, como se os atores de sempre do seu figurativo vibrante continuassem em cena apenas com personagens diferentes.

Nesse saracoteio artístico, José Fernandes veste e traveste suas figuração alegre numa policromia esfuziantemente forte e fiel às origens, deixando como sempre a opacidade corriqueira do lugar comum reinante entre os nativos, buscando sempre os altiplanos reta gulares das telas que se transformam em arte vivo e vívida, oportunizando a cada expectador escutar na surdez ds telas o forrofiar cadenciado nas musicais firulas nordestinas do ariar fivela, do bate coxas que encantam a brasilidade embandeirada dos arraiais no evocar a musicalidade autêntica da região na mesclagem do xote, xaxado, baião, herança indelével do querido e imortal Luiz Gonzaga e seus seguidores.

Assim sendo é um deleite, uma prazerosa realização acompanhar essa alternância de José Fernandes na produtiva inspiração, tendo tirocínio suficiente para prosseguir com sua multifacetária capacidade de criar dando vida a seus personagens, ao mesmo tempo travestí-los pra inserí-los na nossa festa maior que sintetiza o ciclo junino. Mais contundente e curioso ainda, é que essa feição caipira se coaduna com o próprio artista, caipirão assumido, tornando seu trabalho prenhe de alma, como se fora um auto retrato.

* Luduvice José é jornalista e crítico de arte

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