Julgamento de capitão é adiado pela 3ª vez

Gabriel Damásio
gabrieldamasio@jornaldodiase.com.br

Um fato novo que foi levantado somente no final da manhã de ontem, em pleno Tribunal do Júri, adiou, pela terceira vez, o julgamento do capitão da Polícia Militar Denisson Santana do Nascimento Silva, acusado de matar o auxiliar de serviços gerais Rodrigo de Jesus Santos e ferir outras duas pessoas a tiros. O crime aconteceu em 5 de dezembro de 2010 e dentro do Espaço Emes, na Avenida Tancredo Neves, bairro Inácio Barbosa (zona sul), durante um show de pagode. O julgamento chegou a ser iniciado às 9h no Fórum Gumercindo Bessa, Capucho (zona oeste), mas, por volta das 11h30, o corpo de jurados foi dissolvido e o julgamento foi remarcada para o próximo dia 12 de junho.

A nova informação surgiu no depoimento da segunda testemunha convocada, Monique Pereira de Oliveira, freqüentadora que foi baleada durante o episódio e que passou por um parto dias antes da data anterior do julgamento, 12 de dezembro de 2012. Monique relatou ter sido ameaçada de morte por um homem identificado como Paulo Vítor Cardoso Teles, apontado pelos advogados do policial como traficante de drogas e amigo de Rodrigo. Paulo foi morto meses depois, em uma possível troca de tiros com a polícia. A jovem disse também à juíza Olga Silva Barreto, da 5ª Vara Criminal, que a vítima foi vista usando cocaína em grande quantidade com amigos no meio do show, antes do crime. As declarações caíram como uma bomba no Tribunal e quebraram a estratégia do Ministério Público, que pediu o adiamento.

O promotor Rogério Ferreira da Silva, responsável pela acusação, disse ao JORNAL DO DIA que as afirmações precisam ser investigadas e que houve uma mudança em relação aos depoimentos anteriores prestados por Monique à Polícia Civil, em dezembro de 2010, e à 5ª Vara Criminal, em março de 2011. "Ela nunca disse nos autos que tinha sido ameaçada por traficantes, nem que viu a vítima cheirando cocaína no show, e nem que Rodrigo e os amigos dele estavam armados no show. Então, nós pedimos esse tempo para analisar quem é esse Vítor, qual é a real relação dele com a vítima, se esse Vítor foi realmente morto pela polícia… São coisas que nunca foram ditas durante a instrução, apareceram só agora e precisam ser checadas, pra saber se eles são realmente verdadeiras", disse Ferreira.

A apuração poderá ser feita pelo próprio Ministério Público ou mesmo por diligências pedidas à polícia. O promotor admitiu que "poderá haver surpresas" no julgamento de Denisson, a depender do que foi confirmado ou desmentido. Rogério também não descarta que estes fatos novos sejam uma estratégia da defesa. E desconfia que o depoimento tenha sido mudado após a libertação do capitão, que estava detido no Presídio Militar (Presmil) e foi solto em 19 de dezembro de 2012 por meio de um habeas-corpus concedido pela juíza convocada Maria Angélica França e Souza, do Tribunal de Justiça de Sergipe (TJSE). "Por que essas informações foram ventiladas só agora, depois que o capitão foi solto? Quer dizer, é algo muito estranho", suspeita.

O advogado de defesa do capitão, Evaldo Fernandes Campos, não comentou as declarações do promotor, mas disse, durante a audiência, que o nome de Paulo Vítor já consta nos autos do processo e que "a defesa juntou oito folhas de sua história criminal, sempre com envolvimento em tráfico de drogas". "Ele não é portanto um estranho, é conhecido da policia, é conhecido de judiciário, é conhecido do Ministério Público, inclusive desta 5ª Vara Criminal", sustenta Evaldo, citando ainda outros quatro nomes como traficantes de drogas e amigos de Rodrigo que o acompanhavam no Emes.

"Das testemunhas que o Ministério Público arrolou, três estão mortas, sendo duas em trocas de tiros com outras quadrilhas e uma em tiroteio com a polícia. E duas outras estão presas, cumprindo pena por tráfico. Denisson está crucificado como o grande bandido, o perigoso. Mas pra mim, há uma visão muito clara, nunca foi tão fácil julgar: ou se defende o tráfico, condenando Denisson, ou se combate o tráfico, absolvendo Denisson", disse o advogado, ao reafirmar a tese de que o militar atirou em legítima defesa ao ser abraçado e identificado pela vítima como "alemão" (gíria de criminosos que significa policial), e que os acompanhantes da vítima teriam agredido uma médica e uma enfermeira do Emes que prestaram socorro a Rodrigo, pois este estaria armado.

O capitão, que compareceu ao fardado ao Tribunal e permaneceu de cabeça baixa por todo o julgamento, está sendo acusado por três crimes qualificados, sendo um homicídio consumado e duas tentativas de homicídio. Se condenado, Denisson Nascimento poderá ser expulso da Polícia Militar e cumprir uma pena de até 70 anos de prisão, se consideradas as penas máximas dos três crimes. O habeas-corpus do dia 19 de dezembro deu ao réu o direito de responder em liberdade, mas o mérito desta liminar ainda será julgado pela Câmara Criminal do TJSE.

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