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Leitores e livros


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Publicado em 27 de fevereiro de 2024
Por Jornal Do Dia Se


O poetaCarlos Drummond de Andrade jamais teve um Kindle (Divulgação)

Rian Santos
 
Livrarias de portas abertas, frequentadas por leitores de gerações diversas e todas as faixas etárias, são como um templo, um monumento, a evidência palpável de preocupações muito sensíveis, as cismas do espírito. Ameaçadas de morte por anos a fio, elas resistem a vento e chuva, fustigadas pela Amazon. Para permanecer de pé, no entanto, basta que se ocupem do seu verdadeiro fim, como faz agora a Escariz): vender livros, acolher os curiosos, cativar leitores desde a mais tenra idade, enquanto é tempo.
Em 2018, quando tudo levava a crer na extinção das grandes redes de livrarias, leitores espalhados pelos quatro cantos do País se penitenciaram, cheios de culpa. Estariam gastando pouco e lendo menos ainda. Hélio Schwartsman, colunista da Folha, chegou a ponto de cuspir no próprio Kindle. Em sua cabeça, os 548 títulos devorados no leitor digital ao longo de uma década poderiam tirar a Saraiva do vermelho.
Ledo engano. Para as megastores disfarçadas em sebos gentrificados, o livro não passa de mais um artigo na prateleira, talvez o menos rentável. Fosse diferente, o cataclismo anunciado em primeira página realmente teria acabado com o negócio, demolindo o santuário de ácaros e poeira erigido sob a aparência orgulhosa das bibliotecas domésticas. Um jogo de espelhos, arquitetado com o fim de preservar interesses da ordem de bilhões de reais.
Felizmente, não faltaram vozes lúcidas para acusar a pantomina. Élio Gaspari negou a crise com todas as letras. Embora admitisse os números apresentados pelas maiores livrarias do país (além da Saraiva, já citada, as dificuldades se pronunciavam também nos balanços da livraria Cultura), com dívidas acumuladas de até R$ 400 milhões, o jornalista fez questão de lembrar o óbvio: Nunca houve crise no mercado editorial. No ano anterior, o setor cresceu 5,7%. No mesmo período, o faturamento aumentou 9,3%. Assim, se as gigantes meteram os pés pelas mãos, foi em razão do olho grande, problema delas.
Miriam Leitão foi além das planilhas apresentadas junto ao pedido de recuperação judicial das livrarias. Para ela, a discussão não podia ficar restrita à esfera econômica. Tratava-se, isso sim, de uma questão com implicações nítidas em qualquer estratégia de emancipação social. “Enquanto o setor encontra suas saídas, é bom pensar nos livros e seu valor intangível. Sem eles, fechados em bolhas digitais alimentadas por algorítimos, somos presas frágeis no tempo distópico que vivemos”.
Por óbvio, o conselho da jornalista não se destina exclusivamente aos executivos da Saraiva e da Cultura. Dados divulgados pela antiga Edise, por exemplo, demonstravam que o Governo de Sergipe já esteve ciente da importância de investir em um parque gráfico moderno, capaz de suprir a demanda gerada pela criação de um mercado editorial com as raízes fincadas no chão Serigy. Mas isso foi antes do Covid-19 elencar novas prioridades. Desde quando Francisco Gualberto assumiu a Imprensa Oficial de Sergipe, o fossocavado entre o poder público, escritores, eventuais leitores, fica dia a dia mais fundo.
A propósito: Ao fim do ano passado, a IOSE lançou o número zero da revista Caçuá Cultural, sob o comando do competente jornalista Gilson Souza. Um novo número da publicação demora além do razoável, demora muito.
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